Antifascismo

Investigue, General!

A mulher de César não deve apenas ser honesta, deve também parecer honesta

19/07/2021 11:37

Bolsonaro e Walter Souza Braga Netto (Valter Campanato/Agência Brasil)

Créditos da foto: Bolsonaro e Walter Souza Braga Netto (Valter Campanato/Agência Brasil)

 
As Forças Armadas têm sido um celeiro farto de casos escabrosos de corrupção material. O livro “Estranhas Catedrais: As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964, 1988”, de autoria de Pedro Campos, nos mostra como empreiteiras ajudaram a financiar o Golpe de 64 tornando-se, assim, credoras de benesses por meio das quais se beneficiaram de obras de grande porte, como a Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói e a hidroelétrica de Itaipu, nas quais os valores eram superfaturados.

Durante um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em 1976, o então presidente da General Electric no Brasil, Gerald Smilley, confirmou que a GE pagou comissão a membros do governo para vender locomotivas à Rede Ferroviária Federal. A Junta Militar que em 1969 sucedeu Costa e Silva e governou o país até a posse de Médici destinou fundos especiais para a compra de 180 locomotivas dessa empresa, da qual um dos diretores no Brasil era irmão de Costa e Silva.

Saindo do passado para o presente, as investigações dos casos mais do que suspeitos que ocorrem no desgoverno Bolsonaro, aquele que veio para acabar com a corrupção no país, se sucedem vertiginosamente.

No avião da comitiva presidencial em viagem oficial são transportados 39 quilos de cocaína – o que depois se veio a saber ser frequente, para não dizer habitual.

No dia 2 de julho deste ano, o general da ativa Pazuello, até março Ministro da Saúde, teve uma ação encaminhada contra ele pelo Ministério Público Federal por improbidade administrativa, já que ficou apurado ter o mesmo sido responsável por um rombo de 122 milhões de reais gastos com medidas sem eficácia comprovada contra a Covid-19.

As notícias de envolvimento de militares da ativa e da reserva nas tentativas de compras de vacinas contra a Covid-19 com o pagamento de propinas são diárias. Os fatos não são explicados e as mentiras se sucedem. A mais chocante é a de Pazuello que, em depoimento na CPI da Covid, afirmou não negociar pessoalmente a compra de vacinas e, dias depois, foi visto num vídeo negociando, com a intermediária World Brands, a compra da vacina CoronaVac por US28.00. No contrato do governo federal com o Butantã, o preço é de US10.00.

Qualquer corrupção num país como o nosso tem seu valor precificado em vidas. Quando uma obra é superfaturada, aquilo pago a maior poderia ter sido destinado a obras de saneamento básico ou projetos de irrigação para pequenos agricultores em áreas de seca, entre outras necessidades básicas de nossa população. Mas a corrupção no enfrentamento da Covid-19, seja através de milhões gastos com tratamentos que até as emas sabem ser ineficazes, seja através da demora na aquisição das vacinas e o superfaturamento das mesmas, equivale a tortura e assassinato.

Assim, infelizmente, não há como negar a existência de bandas podres nas Forças Armadas. Podres como aquela que torturava, matava e desaparecia com corpos durante a Ditadura Militar. Podres como aquela que deu origem a um Brigadeiro Burnier que queria explodir o gasômetro. Podres como a que engendrou o atentado frustrado ao Riocentro e como aquela que abrigou um tenente que quis colocar bombas em quartéis, servindo-lhe depois de palanque para chegar à Presidência.

É bom que se reveja a condescendência, cuja origem está na malfadada Lei de Anistia que perdoou os torturadores e gerou uma cultura de impunidade, com o comportamento deplorável de alguns militares. Sobretudo, que não se esqueçam que as condutas criminosas de alguns acabam por manchar a reputação da imensa maioria dos militares cujas condutas se pautam pela ética, pela dignidade e pelos juramentos que fizeram.

Fica muito mal para nossas Forças Armadas se verem envolvidas em escândalos desse tipo. Fica pior ainda quando o Ministro da Defesa nega o que todos estão vendo e não parte para a apuração dos fatos.

A exigência de Júlio César de que a mulher de César não deve apenas ser honesta, mas deve também parecer honesta, aparentemente não tem a aprovação do General Braga Netto, que acha que a mesma não se aplica também às Forças Armadas.

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