Antifascismo

Juntos contra a crueldade

"A direita na América Latina não tem o chip da moderação", disse Dilma Rousseff no Comitê Argentino pela Liberdade de Lula e Justiça por Marielle

26/04/2019 11:17

 

 
Primeira definição de Dilma Rousseff: “o leão nunca é manso”. Segunda definição: “a direita na América Latina não tem o chip da moderação”. Terceira definição: “no fim das contas, os antiglobalistas da direita se unem aos neoliberais”.

A presidenta brasileira que foi derrubada por um golpe de Estado em 2016 disse essas três coisas durante a primeira reunião de trabalho do Comitê Argentino pela Liberdade de Lula e Justiça por Marielle, na tarde desta quinta-feira (25/4).

Diferente da Argentina, que está em pleno processo eleitoral, o Brasil só terá uma nova disputa presidencial em outubro de 2022. Por isso, Dilma disse que as tarefas que importam agora são a da solidariedade e da resistência, porque “o Brasil está na pior etapa de sua história”. A época atual, segundo ela, atualiza o assombro com as duas maiores tragédias brasileiras: a escravidão e a ditadura militar.

Cerca de 40 pessoas escutaram a palestra de uma Dilma breve, que fez uma primeira exposição de 20 minutos e outra de 15, em um salão da Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho (UMET). Ao lado esquerdo de Rousseff se sentou Nicolás Trotta, reitor da instituição. Ao lado direito, Victoria Donda, deputada nacional e pré-candidata à Prefeitura da capital argentina. Na mesma fila, estavam a deputada nacional Gabriela Cerruti, o responsável de relações internacionais do Partido Justicialista, Jorge Taiana, a reitora da Universidade de Lanús, Ana Jaramillo, e o presidente do bloco da Frente para a Vitória (FpV) no Parlasul, Oscar Laborde. Os três últimos, assim como Trotta, integram o chamado Mundo Sul, um núcleo de reflexão e propostas sobre política exterior. Da UMET, do Mundo Sul e do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, encabeçado pela uruguaia Karina Batthyany e que surgiu da ideia de formar este comitê, que integrou as centrais sindicais como a CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores da Argentina) e as duas correntes da CTA (Central de Trabalhadores da Argentina), além de dirigentes políticos opositores, representantes de universidades e acadêmicos.

A reunião pela liberdade de Lula e por justiça no caso de Marielle Franco – a vereadora do Rio de Janeiro que foi assassinada por milicianos no dia 14 de março de 2018 – teve um sabor de unidade do panperonismo e aliados.

“O melhor que podemos fazer sobre isso é vencer as eleições de outubro”, disse Patricia Cubría, representante do Movimento Evita.

Para o secretário da associação dos bancários, Sergio Palazzo, “o que pretendem fazer na região é encarcerar as políticas”. Ele concorda com Daniel Menéndez, representante da organização Barrios de pie (“bairros de pé”): “o projeto de buscar um Brasil mais é imperdoável (para a elite)”. O representante da Frente Renovadora, José Ignacio de Mendiguren, reivindicou uma cúpula de Dilma e Cristina Fernández de Kirchner. “Houve muitos retrocessos desde o tempo em que sonhávamos com uma região integrada e com inclusão social”, lamentou o deputado.

Entre os 40 que participaram do evento estavam também o dirigente da CGT e presidente do Grupo Octubre, Víctor Santa María, o ex-subsecretário de Assuntos Latino-Americanos, Agustín Colombo, a reitora da Universidade Nacional de General Sarmiento (UNGS), Gabriela Diker, o reitor da Universidade de Quilmes, Alejandro Villar, a decana de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA), Carolina Mera, o historiador Pacho O’Donnell, o senador Pino Solanas, o diretor do Centro de Estudos Metropolitanos, Matías Barroetaveña, o dirigente da Frente Transversal, Jorge Drkos, a ex-presidenta do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), Lucrecia Cardoso, e o dirigente do movimento de afrodescendentes argentinos, Federico Pita. Todos e todas participaram do intercâmbio de opiniões, enquanto não deixavam de prestar atenção aos dados de um dia que entrará para a história como um 25 de abril dos infernos. “Renúncia?”, sussurrou alguém. “Que se segure como puder, até o final”, foi uma das respostas. “E que perca as eleições”, completaram depois.

Dilma tem uma relação estável com a UMET, assim como Lula, que falou da criação da universidade de matriz sindical durante sua visita em 2013. O Brasil esteve entre os primeiros objetos de estudo acadêmico e de relação política e sindical, e se manteve como um dos eixos ao longo dos anos.

Ao analisar o que caracterizou como “crueldade” – com relação ao trato da Justiça brasileira a Lula –, e o ponto máximo da perseguição política, que foi o assassinato de Marielle Franco, Dilma relatou os tempos do “pau de arara”, uma técnica de tortura usada no Brasil nos Anos 60 e 70. A vítima era pendurada de cabeça para baixo, em uma trave que passava por trás dos joelhos e as mãos atadas à mesma. A ex-presidenta brasileira contou que o método também era usado pelos escravagistas portugueses e atravessou os séculos, até chegar ao repertório da Escola das Américas, a instituição os Estados Unidos montaram no Panamá para ensinar tortura aos militares de todo o continente.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli





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