Antifascismo

Justiça Italiana condena 24 sul-americanos implicados na Operação Condor

Ditaduras de seis países conspiraram para sequestrar e matar opositores políticos na década de 1970

15/07/2019 16:32

Familiares com fotos de desaparecidos durante a Operação Condor, no Chile, em 2004 (Ian Salas/EPA)

Créditos da foto: Familiares com fotos de desaparecidos durante a Operação Condor, no Chile, em 2004 (Ian Salas/EPA)

 
A Corte italiana sentenciou 24 pessoas à prisão perpétua por seu envolvimento na Operação Condor, na qual as ditaduras de seis países sul-americanos conspiraram para sequestrar e assassinar oponentes políticos nos territórios uns dos outros.

O julgamento, o primeiro desse tipo na Europa, começou em 2015 e se concentrou na responsabilidade de oficiais de alta patente das ditaduras militares do Chile, Paraguai, Uruguai, Brasil, Bolívia e Argentina pelo assassinato e desaparecimento de 43 pessoas, incluindo 23 cidadãos italianos.

Os condenados na segunda-feira incluem Francisco Morales Bermúdez, presidente do Peru de 1975 a 1980, Juan Carlos Blanco, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Pedro Espinoza Bravo, ex-vice-chefe de inteligência do Chile, e Jorge Néstor Fernández Troccoli, ex-oficial de inteligência naval uruguaio.

O número exato de quantas pessoas morreram como resultado da conspiração é desconhecido, mas promotores na América do Sul e na Itália forneceram evidências de que pelo menos 100 ativistas de esquerda foram mortos na Argentina, incluindo 45 uruguaios, 22 chilenos, 15 paraguaios e 13 bolivianos.

 "A Operação Condor não poupou ninguém", disse Francesca Lessa, pesquisadora do Centro Latino-Americano da Universidade de Oxford. “Refugiados e requerentes de asilo foram especialmente visados, enquanto crianças - detidas ilegalmente com seus pais - tiveram suas identidades biológica roubadas e substituídas pela de famílias adotivas.”

Segundo um banco de dados que registra os crimes da repressão regional coordenada, pelo menos 496 pessoas de 11 nacionalidades foram sequestradas sob os auspícios da Operação Condor.

Documentos que vieram a publico sugerem que algumas vítimas foram drogadas, tiveram seus estômagos abertos e foram lançados de aviões ao Oceano Atlântico. Os corpos de outras vítimas foram cimentados dentro de barris e jogados em rios.

 O veredicto de segunda-feira foi o resultado de anos da pressão de familiares daqueles que desapareceram “Por décadas, os parentes das vítimas buscam por justiça,” Lessa disse. “No final da década de 1990 e início dos anos 2000, impunidade dominava a América do Sul, com ex-políticos e oficiais militares envolvidos na Operação Condor ainda aproveitando suas imunidades. Apresenta-los perante um juiz para que assumissem a responsabilidade pelos crimes cometidos não seria uma simples tarefa."

Os crimes ocorreram nas décadas de 1970 e 1980. "Muitos dos acusados estavam envelhecendo e talvez nunca seriam levados a justiça" disse Jorge Ithurburu, advogado do 24 Marzo, uma ONG sediada em Roma. "Quanto mais tempo passava mais testemunhas daquelas atrocidades ou envelheciam, ou morriam."

Aurora Meloni, 68, cujo o marido, Daniel Banfi, foi sequestrado e morto em Buenos Aires em 1974, disse ao The Guardian: “Nós nunca desistimos e hoje todos nós vencemos. A decisão de hoje não é apenas para o meu marido… a decisão de hoje é dedicada a todas as pessoas mortas e sequestradas pela Operação Condor.”

Os promotores do caso se inspiraram no precedente estabelecido em 2000 pela prisão em Londres do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, sob o principio de “jurisdição universal”.

Em 2016, o último ditador militar da Argentina, Reynaldo Bignone,e outros 16 ex-oficiais militares foram condenados a anos de prisão, marcando pela primeira vez em que um tribunal provou a existência da Operação Condor.

Em abril passado, um documento da CIA recentemente desclassificado mostrou que agências de inteligência europeias buscaram sugestões de como combater a "subversão" esquerdista com as ditaduras sul-americanas da década de 1970.

“Representantes dos serviços de inteligencia franceses, britânicos e da Alemanha Ocidental visitaram a secretaria da Organização Condor em Buenos Aires durante o mês de setembro de 1977, para discutir métodos para estabelecer uma organização parecida com a Condor, de anti-subversão,” indicado no documento.

De acordo com o escritório de direitos humanos em Buenos Aires, 977 ex-oficiais militares e colaboradores estão presos por crimes relacionados à ditadura argentina.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Cristiane Manzato



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