Antifascismo

Lembrem-se, ninguém está vindo nos salvar

Mais cedo ou mais tarde, cientistas encontrarão uma vacina contra o coronavírus, mas os negros continuarão esperando pela cura do racismo

01/06/2020 13:26

Protestando contra a morte de George Floyd sob custódia policial em Minneapolis na quinta-feira. (Carlos Barria/Reuters)

Créditos da foto: Protestando contra a morte de George Floyd sob custódia policial em Minneapolis na quinta-feira. (Carlos Barria/Reuters)

 
Depois que Donald Trump desprezou os países em desenvolvimento, em 2018, chamando-os de "países de merda", escrevi que ninguém viria nos salvar do presidente. Agora, no meio de uma pandemia, vemos exatamente o que isso significa.

A economia está em frangalhos. O desemprego continua a subir de forma acentuada. Não há uma liderança federal coerente. O presidente zomba de qualquer tentativa de implementação de medidas e comportamentos preventivos que possam salvar vidas. Mais de 100 mil americanos morreram de Covid-19.

Muitos de nós fazemos algum tipo de autoisolamento há mais de dois meses. Os menos favorecidos continuam a arriscar suas vidas porque não podem se dar o luxo de se proteger do vírus. As pessoas que já viviam à margem estão sob tensões financeiras que o pagamento do governo, de 1.200 dólares, nem começa a aliviar. Uma crise de moradia é iminente. Várias partes do país estão reabrindo prematuramente. Manifestantes tomaram as capitais, exigindo a reabertura do comércio. O país está radicalmente dividido entre os que acreditam na ciência e os que não acreditam.

Rapidamente, foram produzidos comerciais garantindo que estamos juntos nessa. Imagens cuidadosamente selecionadas, marcadas por músicas melosas, não dizem nada de substancial. Empresas gastam uma fortuna em tempo de TV para garantir aos consumidores que se importam, enquanto se recusam a pagar um salário digno a seus funcionários.

Comerciais celebram os trabalhadores essenciais e os profissionais da saúde. Comerciais mostram como as empresas se adaptaram ao “estilo de vida atual”, com serviços de coleta e drive-thru e entregas sem contato. Basta continuar gastando que o capitalismo nos manterá perto uns dos outros, garantem esses anúncios.

Algumas pessoas estão tentando organizar a salvação que o governo não traz. Para tudo, há iniciativas comunitárias, desde entregas de supermercado para idosos e imunocomprometidos a confecção de máscaras para trabalhadores de setores essenciais. Existem pedidos online para financiamento. Compre de sua livraria independente. Peça comida do seu restaurante favorito. Mantenha sua livraria favorita aberta. Compre cartões para dar de presente. Pague as pessoas que trabalham para você, mesmo que não possam vir ao trabalho. Faça o máximo que puder e depois faça mais.

Todas essas ideias são adoráveis e cheias de boas intenções, mas não bastam. As disparidades que normalmente fraturam nossa sociedade estão se acentuando à medida que decidimos, coletivamente, o que vamos salvar – o que merece ser salvo.

E mesmo durante uma pandemia, o racismo continua igualmente pernicioso. O Covid-19 afeta de forma desproporcional a comunidade negra, mas mal conseguimos parar para encarar esse horror quando somos lembrados, todos os dias, que em nenhum contexto vidas negras importam.

Breonna Taylor foi morta dentro de casa, em Louisville, Kentucky, por policiais à procura de um homem que nem morava no prédio. Ela tinha 26 anos. A população organizou manifestações e mais sete pessoas foram baleadas.

Ahmaud Arbery estava correndo no sul da Geórgia quando foi perseguido por dois homens brancos armados que suspeitaram de roubo e disseram estar tentando prendê-lo. Um deles atirou e matou Arbery, e tudo foi filmado por outra pessoa que estava próxima. Nenhuma acusação foi registrada até o vídeo vazar e causar indignação pública. Arbery tinha 25 anos.

Em Minneapolis, George Floyd foi imobilizado no chão por um policial que ajoelhou em seu pescoço durante uma prisão. Ele implorou para o oficial parar de torturá-lo. Como Eric Garner, ele disse que não conseguia respirar. Três outros policiais assistiam à cena e não intervieram. Floyd tinha 46 anos.

Essas vidas negras importavam. Essas pessoas eram amadas. São perdas incalculáveis para amigos, familiares e comunidades.

Manifestantes tomaram as ruas em Minneapolis por vários dias para protestar contra a morte de Floyd. Trump – que, em 2017, disse aos policiais para serem duros durante as prisões, implorando que elas "por favor, não sejam muito legais" – tuitou: "Quando os saques começam, começam os tiros". O Twitter oficial da Casa Branca repostou o comentário do presidente. O poço não tem fundo.

Christian Cooper, um ávido observador de pássaros, estava no Ramble, área do Central Park de vegetação densa, quando pediu a uma mulher branca, Amy Cooper, que cumprisse a lei e prendesse a guia na coleira de seu cachorro. Ele começou a filmar, o que enfureceu Cooper ainda mais. Ela pegou seu telefone e disse que ligaria para a polícia para dizer que estava sendo ameaçada por um afro-americano.

Ela chamou a polícia. Ela sabia o que fazia. Usou sua cor branca e sua fragilidade como armas, como tantas mulheres brancas antes dela. Ela foi soando cada vez mais histérica, mesmo sabendo que poderia estar condenando um homem negro à morte apenas por pedir que ela seguisse regras que ela achava que não se aplicavam a ela. Um golpe de sorte impediu que o Sr. Cooper entrasse para esta estatística insuportável.

Uma porcentagem infeliz de minhas críticas culturais nos últimos 11 ou 12 anos se concentra na perda sem sentido de vidas negras. Mike Brown. Trayvon Martin. Sandra Bland. Philando Castile. Tamir Rice. Jordan Davis. Atatiana Jefferson. Os nove de Charleston.

Esses nomes são o pior tipo de refrão, um fardo inescapável. Esses nomes são hashtags, elegias, gritos de guerra. Ainda assim, nada muda. O racismo é denunciado repetidamente, a cada vez que vem à tona um novo vídeo com uma nova atrocidade. Os negros compartilham a verdade de suas vidas, e os brancos tratam essas verdades como exercícios intelectuais.

Eles gastam energia se indignando com o nome "Karen", como um sinônimo de mulheres brancas mimadas, em vez de fazer o trabalho difícil de autorreflexão e exame de seus próprios preconceitos. Especulam sobre o que os negros assassinados podem ter feito para que tenham tido este destino, como se supostos crimes fossem puníveis com a morte sem julgamento. Exigem perfeição como preço da existência negra, mas não estendem esses padrões a mais ninguém.

Algumas pessoas brancas agem como se houvesse dois lados do racismo, como se racistas fossem pessoas com quem precisássemos debater. Ficam incomodadas com a destruição de propriedades e querem que todos se entendam. Têm dificuldade de entender por que os negros estão revoltados, mas não oferecem alternativas sobre o que um povo deveria fazer com uma vida inteira de raiva, exclusão e injustiça.

Quando avisei, em 2018, que ninguém viria nos salvar, escrevi que estava cansada de mentiras confortáveis. Estou ainda mais exausta agora. Como muitos negros, estou furiosa e farta, mas isso não tem nenhuma importância.

Escrevo coisas semelhantes sobre diferentes vidas negras perdidas de novo e de novo e de novo. Digo a mim mesma: chega desse assunto. Então acontece algo tão terrível que sei que devo dizer algo, mesmo sabendo que as pessoas que realmente precisam ser tocadas não vão se tocar. Eles não se importam com vidas negras. Não se importam com a vida de ninguém. Eles nem usam máscaras para mitigar um vírus para o qual não há cura.

Mais cedo ou mais tarde, pesquisadores encontrarão uma vacina contra o coronavírus, mas os negros continuarão a esperar, apesar da futilidade da esperança, uma cura para o racismo. Viveremos com a consciência de que uma hashtag não é uma vacina para a supremacia branca. Vivemos com a consciência de que, ainda assim, ninguém está vindo nos salvar. O resto do mundo anseia pela volta ao normal. Para os negros, o normal é tudo de que desejamos nos libertar.

Roxane Gay é escritora e professora da universidade Purdue e professora convidada da universidade Yale

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Clarisse Meireles



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