Antifascismo

Matam uma Anna... matam uma sociedade!

 

11/02/2019 08:28

(Reprodução/Gazeta Online)

Créditos da foto: (Reprodução/Gazeta Online)

 
A afirmação de que o Brasil é o país em que mais se mata travestis e transexuais, embora necessária e justa, tornou-se lugar comum. Dizer isso não significa desprezar a relevância do verdadeiro massacre contra a população trans e travesti, antes, aponta para a necessidade de aprofundar a reflexão acerca de como ocorre essa matança. A proposta desse artigo é exatamente esta: refletir acerca de como corpos cis – em que sexo e gênero estão alinhados – continuam violando a existência de corpos T, estabelecendo assim um perfil psicológico da sociedade brasileira. Alguns dados, no entanto, necessitam ser informados: (1) a despeito das razões, os brasileiros não gostam de ler. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de março de 2016, organizada pelo Instituto Pró-Livro, revelou que a média de leitura é de apenas 2,43 livros por ano e que 30% da população jamais comprou um livro; e (2) a última avaliação realizada em 2015 pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) e divulgada no terceiro trimestre de 2016, demonstrou que, entre os 70 países pesquisados, o Brasil ocupa a 59º posição em leitura.

Por outro lado, a informação sobre os crimes contra as vidas das pessoas T – conforme o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017, divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) em 2018 – dá conta de que dos 179 homicídios praticados, em 85% houve crueldade calculada, a exemplo de espancamentos e esquartejamentos. Essas barbáries revelam que apenas matar corpos não-cis tampouco satisfaz a psique perversa dos seus autores. É necessário impor sofrimento psíquico, para, através de técnicas violentas, perfazer a jornada de dor física. Esse percurso pode ser lento ou célere, porém, sua função é essencial para a psique do executor: as marcas da dor, deixadas no corpo sem vida, parecem indicar seu contentamento em comprovar que causou aflição à vítima. Matar através de arma de fogo, de arma branca, ou por qualquer outro meio aparenta não ser o objetivo primordial. Pelo contrário, existe a necessidade de estabelecer um ritual de violência, a exemplo da história de Anna Carolina, 22 anos, que foi encontrada, a 08 de fevereiro de 2019, decapitada e com seus órgãos genitais extirpados.

De acordo com o site Identidade Mandacaru, a travesti Anna Carolina teve seu corpo encontrado em uma estrada do distrito de Baunilha, em Colatina, Espírito Santo. Amigxs e parentes afirmaram não saber o porquê do assassinato, haja vista Anna ser uma pessoa muito querida por todxs. Ela foi encontrada nua e decapitada. Nas redes sociais, amigxs afirmaram que os órgãos genitais de Anna foram arrancados após o assassinato. Para além da perplexidade com a forma brutal do seu assassinato, percebemos que não apenas ela, mas a maioria das pessoas trans e travestis, ao performar para além das normas de gênero preestabelecidas, ferem a psique social. Não foi apenas o corpo de Anna que foi encontrado naquela estrada, nu, decapitado e com os genitais removidos. Também foi deixado ali, entre seus restos mortais, o aviso para os corpos considerados estranhos e que contrariam a lógica cis. Entretanto, após a morte, é preciso escrever no corpo uma mensagem de adestramento: ou os corpos transviados se escondem, se camuflam ou então, desaparecem, como na frase do presidente da República, à época, candidato: “[...] ou as minorias se adequam ou desaparecem!” [sic]. Na prática, histórias como a de Anna concretizam esse discurso, demonstrando a sua força legitimadora: a selvagem tentativa de normalização dos corpos trans e travestis já se encontra em pleno curso, em uma sociedade não leitora e com péssimos índices educacionais.

A convicção que duramente se impõe é o amplo desconhecimento frente às identidades T. A população em geral ficou mais intolerante frente a temas que exigem leitura e conhecimento para que exista respeito aos direitos fundamentais. Esse cenário é potencializado na atmosfera político-econômica que o Brasil vivencia desde 2013. Discursos extremistas, sob uma matriz fascista, racista e fóbica, transformam quem é diferente em ameaça à concretização do projeto político das elites toscas e escravocratas. Essa construção da realidade encara o corpo trans e negro de Anna como espectro: o inconsciente humano parece erguer seus fantasmas usando como pedra fundamental as fobias. E a transfobia é um desses alicerces, que para levantar a arquitetura cis da sociedade heteronormativa, apedreja, esfaqueia, decapita, arranca dos corpos considerados sociopoliticamente indiscretos, inconvenientes, suas vidas.

Enquanto seguirmos a trilha que dilata nossas ignorâncias – lendo pouco e em posições pífias na Educação Básica – a transfobia seguirá firme, por ser um vírus que impõe sua lógica às relações políticas estabelecidas por pessoas cis que desautorizam corpos transcendentes a sua (ir)racionalidade. Na sociedade em que os indivíduos, alucinados pelo consumo, experimentam a corrosão dos próprios relacionamentos, resultando na degradação de si mesmos, a transfobia tornou seus fiéis adeptos em organismos autofágicos que sentem prazer em destruir a si mesmos, ao atentar contra os centenários marcos civilizatórios do nosso mundo.

Armando Januário dos Santos: Sexólogo. Psicanalista em formação. Graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 



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