Antifascismo

Morrendo muitas vezes em um só corpo: a supressão das identidades transmasculinas

Ter um órgão em contraposição ao gênero esperado pela sociedade, é, para diversos setores da sociedade brasileira, caso grave. Para Lourival, caso de polícia: foi aberta uma investigação para saber o seu nome de registro, e somente a partir disso, enterrá-lo

06/02/2019 12:25

 

 
Lourival Bezerra de Sá viveu 78 anos que coincidem com a letra da canção Pequeno Perfil de um Cidadão Comum, escrita por Toquinho e imortalizada na voz do saudoso Belchior. “Era um cidadão comum como esses que se vê na rua”: trabalhou como pintor, corretor de imóveis e foi empresário. Sempre muito discreto e caridoso, era médium em um centro espírita. Essa vida pacata chegou ao fim em 05 de outubro de 2018, quando, como na poesia musicada, “a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto”. Descobriu-se algo sobre ele, que, mesmo morto, mudou sua vida. Lourival tinha uma vagina.

Ter um órgão em contraposição ao gênero esperado pela sociedade, é, para diversos setores da sociedade brasileira, caso grave. Para Lourival, caso de polícia: foi aberta uma investigação para saber o seu nome de registro, e somente a partir disso, enterrá-lo. Caso não se encontre aquela que é considerada a sua verdadeira identidade para o sistema jurídico, ele será um indigente. Todavia, Lourival, além de casado, foi pai, e tinha um círculo social. Nessa perspectiva, surge, a partir da sua história, uma questão de profunda análise para toda a sociedade: o órgão sexual de uma pessoa define quem ela é?

As notícias veiculadas pela mídia corporativa dão conta de que Lourival viveu com uma identidade de gênero masculina por 50 anos. Nesse período, assumiu todos os papeis de gênero que a sociedade espera de um homem. Não obstante, apenas quando da sua morte, ele se transformou em mulher, por conta do seu órgão genital. Ao ter um infarto letal e ser conduzido sem vida para a verificação de óbito, sua vagina foi descoberta e então, repentinamente, em um verdadeiro passe de mágica, Lourival passou a não ser mais homem, pai, marido, mas apenas, uma mulher. O sistema cisgênero, então, passa a usar sua maquinaria jurídico-midiática, a fim de descobrir tudo sobre quem Lourival não era: uma mulher.

O sexo de nascimento não determina de forma rígida como a pessoa se identifica. Identidade é uma construção psicológica, política, social e histórico-cultural diária e que já se inicia na primeira infância. Em tempos de conservadorismo escancarado e autoritarismo flagrante, porém, o corpo precisa ser examinado e se estiver em desarmonia com o que dele se espera, deverá ser punido. Os castigos incluem agressões psicológicas e físicas, chegando a assassinatos. No inconsciente da nossa civilização neurótica e obsessiva, o corpo discordante da normalidade prescrita – obrigatoriamente cisgênera e heterossexual – quando não corrigível, deve ser exterminado. Esse ato de compulsão ameniza a obsessão social por corpos trans e travestis, que despedaçam a lógica pênis-homem, vagina-mulher. Assim, por não seguirem a cartografia imposta aos corpos antes do nascimento, homens com vagina e mulheres com pênis são inimigos da sociedade cisgênera.

Não obstante, como matar alguém já morto? Lourival não pode ser espancado e levado em um carro de mão para ser executado a tiros, como Dandara dos Santos. Lourival não teve a morte de Laysa Fortuna, mulher trans esfaqueada no tórax. Lourival também não pode ter direitos fundamentais negados todos os dias. Afinal, ele está morto. Porém, mesmo em seu último ato jurídico, a morte, Lourival é alvo de discriminação de gênero. Ele tem sua vida exposta em reportagens que o colocam na condição de pessoa que praticou falsidade ideológica. A sociedade brasileira – influenciada por conglomerados midiáticos, com suas agências de notícias em completo estado de regressão psicológica e desconhecimento acerca de temas como gênero e sexualidade – agora vê aquele que sempre foi homem, como uma mulher disfarçada de homem, talvez perigosa, posto que para as estruturas sociais, de modo inaceitável, guardou segredo sobre seu genital. O Instituto de Identificação do Mato Grosso do Sul enviou as digitais de Lourival para todo o Brasil, a fim de descobrir a identidade que ele não reconhecia, mas que lhe é imposta, post mortem. E sua sentença provisória já está sendo executada: mesmo morto há quatro meses, Lourival ainda não foi enterrado.

Morrendo por dentro da morte: é assim que podemos definir o estado do Sr. Lourival. Fisicamente em óbito, mas socialmente morrendo. Lentamente, todos os dias, dada a tentativa de apagamento da sua masculinidade. Um atentado perpetrado pelo Estado contra um homem trans, com o suporte ideológico de matéria jornalística veiculada em canal aberto, em dia e horário de ampla audiência.

Que a revolução trans e travesti consiga levar luz onde só existem obscurantismo e invisibilidade. Que a nota de repúdio do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT) repercuta profundamente na sociedade. Que o combate a tirania de gênero não conheça fim. Que o ritual fúnebre do Sr. Lourival seja digno e respeitoso para com o homem que ele sempre foi: caridoso e gentil. E que, enfim, cumpra-se a grave e subversiva voz de Belchior: “que a terra lhe seja leve”!

Armando Januário dos Santos. Sexólogo. Psicanalista em formação. Graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br



Conteúdo Relacionado