Antifascismo

Nota de repúdio ao evento ''Oficina irritada(poetas falam)'' do Instituto Moreira Salles

 

26/04/2019 10:45

 

 
Nos últimos anos, surgiram vários estudos que escancararam do que é feito o cânone literário brasileiro: homens, cis, brancos, heterossexuais, das regiões Sul ou Sudeste do país e, geralmente, de classe média ou acima. A estrutura racista do mercado literário brasileiro é evidente e se expressa em todas as instâncias da produção no país, alijando pessoas negras, indígenas e não-brancas de seus círculos dominantes. A parcela que compõe o cânone literário brasileiro representa uma ínfima parte da população que produz literatura no país. Somos pessoas negras, indígenas, LBGTs, entre outras ‘minorias’ - com a irônica maioria numérica - escrevendo nossas vivências e subjetividades todos os dias. E é justamente para mudar esse panorama violento e excludente, deixando-o mais coerente com a realidade, que os agentes da cultura literária devem apresentar novos critérios para suas curadorias.

Entretanto, não é isso que vimos na recente história da literatura brasileira. As instituições não cansam de apresentar o velho crivo racista para a seleção de poetas em seus eventos. O Instituto Moreira Salles apresentou, seguindo um critério anacrônico e se mantendo desatento para a produção contemporânea brasileira - feita por mulheres, pessoas não-brancas e LGBTs - o evento “Oficina Irritada(poetas falam)”, sob curadoria de Eucanaã Ferraz e Bruno Cosentino, que será promovida entre os dias 7, 8 e 9 de maio de 2019 com a presença de 18 poetas, TODO/AS brancos/as. Esse evento, segundo o Instituto, “reunirá dezoito importantes nomes da poesia contemporânea brasileira no IMS Rio”. Essa afirmação escancara a violência com que instituições e curadorias realizam suas escolhas, sendo ativas e coniventes com a estrutura racista e segregadora do país. No site do IMS, afirma-se: “De um passado que não fique estagnado, mas que seja também fundamental para entender o presente e enfrentar o futuro. Na melhor inspiração de sua história, o IMS quer construir legados culturais. É a isso que vem se devotando”. Diante disso, questionamos qual o passado que realmente importa para a instituição e que tipos de legado está construindo.

Entendemos que ser poeta é uma profissão e que, portanto, há um sistema econômico complexo que perpassa as práticas dos/as autores/as. Entretanto, é preciso pontuar que os/as poetas convidados/as para participar dessa oficina são recorrentemente privilegiados por esse mesmo sistema que oprime tantos outros/as poetas. Cabe portanto, chamá-los/as a pensar como seus privilégios podem auxiliar na manutenção de práticas racistas e excludentes, para além de posicionamentos em redes sociais, ou dos recortes geográficos convenientes dentro do país e bairros assegurados por essa branquitude.

É inegável que a responsabilidade em manifestar discordância, denúncia, sugestões, diálogos acerca do racismo presente na curadoria dessa oficina, ou de outras, seja primordial para promover uma estrutura igualitária. Mais do que reconhecer e citar autores negros nas academias e instituições historicamente elitizadas e segregacionistas, é preciso ampliar suas práticas, dialogar com os seus e apoiar quem há séculos sofre opressão e exploração, em uma sociedade estruturalmente racista. Como diz a poeta e atriz Elisa Lucinda, “os brancos têm de escolher que lado estão: ou são abolicionistas modernos ou escravocratas”. Aos que participam de eventos como a oficina promovida pelo IMS, deixamos a questão para reflexão e ação. Certos espaços permanecem excludentes. Mas o que de fato tem sido feito para transformá-los?

Partindo do pressuposto que devemos combater práticas racistas e que promovam a manutenção de desigualdades é que cobramos um posicionamento público do IMS - Instituto Moreira Salles e dos/as poetas convidados/as.


Movimento Respeita! - coalizão de poetas



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