Antifascismo

Orgulho Gay ou Orgulho LGBT? Impasses e perspectivas

 

28/06/2021 12:30

Protesto pela igualdade sexual nos EUA em 2016 (David McNew/Getty Images))

Créditos da foto: Protesto pela igualdade sexual nos EUA em 2016 (David McNew/Getty Images))

 
Era para ser uma madrugada de sábado como qualquer outra no 53 Christopher, endereço de um conhecido bar em Nova Iorque, frequentado pela diversidade sexual e de gênero, naquele 28 de julho de 1969. A polícia rotineiramente realizava patrulhas naquele local, contudo, segundo o historiador David Carter, os proprietários do bar, membros da máfia Família Genovese, pagavam propina para que os policiais não interditassem o espaço. O dinheiro desse pagamento, em terras brasileiras, conhecido como “arrego”, era obtido através de chantagem dos mafiosos contra a clientela rica que frequentava aquele espaço – esses clientes pagavam para não ter a sexualidade divulgada publicamente – especialmente trabalhadores do Distrito Financeiro.

Por alguma razão, a propina não foi paga e a polícia decidiu pelo fechamento do bar, em uma ação envolvendo quatro policiais infiltrados e o Esquadrão das Morais Públicas aguardando, na rua Christopher, o sinal para invadir – sim, não era apenas no Brasil que existia uma divisão policial especializada em garantir “a moral e os bons costumes”. Por volta de 1 hora e 20 minutos, o detetive Charles Smythe, o inspetor-adjunto Seymour Pine e alguns policiais à paisana adentraram ao bar, anunciando a invasão, diante de 205 pessoas. Houve um desconforto geral, especialmente por conta dos abusos na abordagem policial. A gota d’água viria logo em seguida, quando uma mulher, ao ser algemada, furiosa, aos berros, perguntou por que não havia nenhuma reação.

A polícia agrediu várias pessoas, mas, algumas delas, já no camburão, conseguiram sair e formaram uma multidão que conteve o avanço dos agentes de segurança. Acabava ali o silêncio de uma parcela da população estadunidense considerada queer – termo ofensivo que significa estranho. A noite seguinte foi ainda mais intensa: a polícia, rechaçada no primeiro embate, agora se deparava com milhares de pessoas que bloqueavam o acesso à Christopher, se espalhando pelos arredores. Não havia mais como conter os protestos: liderada por travestis, como a afro-estadunidense Marsha P. Johnson e a filha de um casal de latinos, Sylvia Rivera, a Rebelião de Stonewall se espalhou pelas ruas dos Estados Unidos, resultando na formação de alianças na luta por igualdade de direitos e usufruto da plena cidadania. Enfim, travestis, transexuais, gays, lésbicas, bissexuais e pessoas cis-hétero aliadas, se reuniam em torno do ideal de uma sociedade equitativa. Tudo isso com a cobertura de jornais como The New York Times, New York Post e Daily News.

Mais de meio século depois, um duelo de narrativas ocorre, haja vista homens cisgêneros, gays, brancos e de classe média alta liderarem diversas frentes do ativismo LGBT no Brasil, reduzindo a luta plural de vários segmentos a um dia para celebrar a resistência gay. Obviamente, gays, lésbicas e bissexuais enfrentam diariamente violências contra as suas orientações sexuais, perpetradas por uma sociedade compulsoriamente heterossexual; logo, a luta contra todas as perseguições a esses grupos é legítima e deve seguir. Contudo, não foram elxs que iniciaram essa luta. Foram as travestis, como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que encabeçaram o levante no bar Stonewall Inn, e, carismáticas, prosseguiram ativamente nos anos seguintes. Marsha, inclusive, foi encontrada morta no rio Hudson, na Parada do Orgulho LGBT em 1992; sua morte não foi esclarecida até hoje. Em vida, Marsha[1] foi considerada a Rosa Parks do Movimento LGBT : assim como Parks se destacou na luta contra a discriminação racial em ônibus nos Estados Unidos, Johnson foi uma figura mítica na luta pela igualdade das pessoas LGBT .

Os últimos 13 anos trazem o Brasil como líder mundial de assassinatos contra pessoas trans e travestis. Conforme o Dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2020 – publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e pelo Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE) – 78% delas eram negras. Há denúncias de transfobia, inclusive no interior do próprio Movimento LGBT . Esse cenário de guerra – exponencializado por um governo federal fascista – torna a vida de travestis e transexuais uma luta diária. Luta por direitos básicos, como o respeito por quem são, reconhecimento da sua própria existência, haja vista serem consideradas não-pessoas e não-vidas pela sociedade cisnormativa. Mesmo assim, a cada dia, pessoas T ocupam espaços na sociedade e continuarão ocupando, por mais estressante que seja para elas provar a todo momento, o quanto possuem competência, capacidade e valor.

Às travestis e mulheres transexuais, nada menos que o respeito por sua intrínseca mulheridade, baseada não em corpos, mas na própria essência. A sociedade cisnormativa – tão fútil e superficial, a ponto de definir uma mulher pelo seu corpo, e pelo que tem entre as pernas – continuará a ser pressionada e implodida até compreender que ser mulher é muito mais que um corpo físico, é uma identidade construída ao longo do tempo, identidade essa que zomba das injunções sociais.

No Brasil, travestis e transexuais têm pautas que não podem esperar e precisam ser melhor defendidas: essas reivindicações se tornam mais visíveis, a partir de eventos como a Quarta Marcha do Orgulho Trans da Cidade de São Paulo, ocorrida nos dias 4, 11, 18 e 25 de junho desse ano, contando com presenças importantes, como Erika Hilton, vereadora mais votada no Brasil em 2020 e Presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de São Paulo, além de Erica Malunguinho, deputada estadual e educadora.

Mais de 90% das travestis e transexuais sobrevivem da prostituição, expostas ao estupro, a violência física, moral e psicológica. E para quem não sabe o que é estupro, dizemos que a maioria das mulheres – transexuais, travestis e cisgêneras – prefeririam estar mortas a ter que conviver o resto da vida com a dor desse trauma. A população trans e travesti é alvo de um genocídio diário que se arrasta no Brasil por mais de uma década, impondo a elas uma expectativa de vida de 35 anos, contra 76 anos da população cisgênera. Não há emprego formal para esse grupo: apenas 4% se encontram no mercado formal de trabalho. Apontadas nas ruas, são chamadas de “homens de saia”, em um total desrespeito a sua identidade de gênero. Também por isso, apontamos para a emergência das pautas de travestis e transexuais, porquanto, em uma só vida, elas morrem múltiplas vezes, para muito além da extinção física. O direito a desfrutar de relações amorosas assumidas publicamente é uma das formas desse assassinato diário. A objetificação e exotificação dos seus corpos são outros exemplos. Portanto, a luta não pode se restringir a um grupo historicamente estigmatizado, antes, ela deve se estender a todos os grupos, priorizando travestis e transexuais, dado o verdadeiro estado de emergência social em que vivem.

Stonewall completa 52 anos nessa segunda-feira, 28 de julho de 2021. Quantos anos mais serão necessários para o Brasil abandonar a triste liderança em assassinatos, baixa escolaridade e toda forma de iniquidades praticadas cotidianamente contra travestis e transexuais?

Adriana Beatriz Batista - Mulher trans. Graduada em Gestão de Recursos Humanos, pós-graduada em Gestão Pública e Chefe de Atividade Técnica. Instagram: @biabatista43

Armando Januário dos Santos - Mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB e Graduado em Letras com Inglês pela mesma instituição. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. Instagram: @januario.psicologo

***

[1] Conheça mais a vida de Marsha P. Johnson, assistindo ao documentário A morte e vida de Marsha P. Johnson, exibido pela Netflix.



Conteúdo Relacionado