Antifascismo

Os esgotos da ditadura

Lamento, General, mas a quem pensa como o senhor lhe faltam na alma alguns conceitos básicos

15/10/2020 10:45

Carlos Alberto Brilhante Ustra, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em Brasília (Sérgio Lima/Folhapress)

Créditos da foto: Carlos Alberto Brilhante Ustra, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em Brasília (Sérgio Lima/Folhapress)

 
Nos porões da ditadura habitavam monstros que se compraziam em executar as ordens, vindas do generalato, para torturar, se preciso até a morte, os opositores do regime militar implantado com o Golpe de 64.

Bestas selvagens davam asas à imaginação, livres para fazer o que quisessem e certos da impunidade. Matar era mero acidente de trabalho exceto quando a ordem vinha de cima. Nesse caso era prova de eficiência.

Oficiais das Forças Armadas ministravam ao vivo - pelo menos enquanto a cobaia permanecia viva - suas aulas compostas de técnicas variadas. Assim os alunos podiam comprovar o efeito de cada uma das monstruosidades que ensinavam. Estas eram interrompidas apenas para que um médico fosse consultado sobre se seu paciente ainda suportaria mais dor, e mais dor, e mais dor.

Quando levados para o Hospital Central do Exército às vezes as torturas se davam lá dentro. Nesse caso as autópsias eram realizadas ali mesmo, pois até hoje há, dentro de suas dependências, um Instituto Médico Legal, o que garante sigilo e impunidade.

Havia porões em delegacias, em quartéis, na sede do SNI onde, segundo o general francês Aussaresses, o General Figueiredo, que então chefiava o órgão, se fazia presente para dirigir as sessões e conferir a eficácia dos métodos.

No final do regime militar havia o problema do que fazer com a arraia miúda da repressão. Muitos se tornaram contraventores do jogo do bicho, empresas de segurança privada foram criadas e assim os ratos abandonaram os porões.

Dos peixes graúdos o mais famoso por sua crueldade é o Coronel Brilhante Ustra, único torturador condenado como tal pela justiça brasileira. Torturador de carteirinha, diploma carimbado.

 Entre os frustrados por não terem tido a oportunidade de trabalhar nos porões temos o tenente Bolsonaro, grande incentivador da tortura, de quem Ustra é herói e que, ao ter sido expulso do Exército por planejar botar bombas nos banheiros, foi promovido a capitão.

Não sei se o General Mourão se enquadra na categoria de frustrado. Sei, com absoluta certeza, que ao afirmar que Ustra foi um "homem de honra e que respeitava os direitos humanos de seus subordinados", desconhece o conceito de honra e de direitos humanos.

Ninguém pode ter honra e ser um dos comandantes dos porões da ditadura. Para entrar ali só desconhecendo por completo, já não digo direitos humanos, mas o que é um ser humano. E lamento, General, mas a quem pensa como o senhor lhe faltam na alma alguns conceitos básicos.

É triste e vergonhoso que novamente tenhamos que conviver com pessoas que transformam o país nos esgotos da ditadura.

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