Antifascismo

Os instrutores fardados de Daniel Silveira

 

23/02/2021 12:32

(Reprodução/bit.ly/3aL5qdS)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3aL5qdS)

 
Ou isso, ou aquilo: ou o General Villas Bôas é um mentiroso que tentou se socorrer na autoridade do Alto Comando do Exército para escorar o twitter golpista de 3 de abril de 2018 -com o qual intimidava os ministros do STF, na véspera do julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula, ou pior.

Pior é o que ele relatou no livro ‘General Villas Bôas: conversa com o comandante’ (Editora FGV).

Escrito a partir de cinco dias de depoimentos –insista-se, 5 dias, tempo suficiente para releituras, reflexões e revisões- espaçados no biênio agosto/setembro de 2019, a história do twitter golpista é relatada ali com riqueza de detalhes.

Abre aspas para a rememoração do militar : ‘"O texto teve um 'rascunho' elaborado pelo meu staff e pelos integrantes do Alto Comando residentes em Brasília (grifo de Carta Maior)...

Segue o relato:

‘No dia seguinte da expedição, remetemos para os comandantes militares de área. Recebidas as sugestões, elaboramos o texto final, o que nos tomou todo expediente, até por volta das 20h , momento que liberei para o CComSEx (Setor de comunicação do Exército) para expedição’.

Fecha aspas.

Sublinhe-se:

-o staff do general fez um rascunho do recado golpista intimidatório aos ministros do STF para coagi-los a não conceder o HC a Lula, que poderia devolve-lo à candidatura presidencial de 2018.

Recorde-se:

-Lula, prestes a ser preso por ordem de Moro, mantinha-se franco favorito ao pleito presidencial depois do golpe do impeachment, de 2016.

Era preciso tirá-lo da disputa e/ou dos palanques para que a direita pudesse se consolidar no poder, agora pelo voto.

Aos dados:

a)no Datafolha de janeiro de 2018 Lula despontava com a larga vantagem na liderança das intenções de votos com 37% das preferências;


b) seu favoritismo seria reafirmado novamente, dias depois do ‘bilhete’ militar à Suprema Corte.

 c) em nova sondagem divulgada em 15 de abril, Luiz Inácio Lula da Silva –(então já preso por Moro, que expediu ordem dia 5 de abril, graças à rendição do STF ao twitter golpista do dia 3) liderava todos os cenários em que aparecia na nova pesquisa nacional do Datafolha.

Uma semana depois de preso, em Curitiba, o petista que o general impediu de concorrer tinha 31% das intenções de voto.

Era o dobro das intenções de voto atribuídas a Jair Bolsonaro; três vezes a votação potencial de Marina Silva.

‘Esse homem não pode concorrer; se concorrer não poderá ganhar; se ganhar não deverá governar’, dizia Carlos Lacerda, em junho de 1950, para impedir a candidatura vitoriosa de Getúlio Vargas, que cometeria suicídio, quatro anos depois para não se render ao cerco golpista.

O recado subliminar que o twitter golpista de 2018 disparou aos iminentes juízes do STF naqueles dias decisivos de abril foi exatamente esse.

 ‘Esse homem não pode ser candidato; se concorrer vencerá; se vencer fará de novo outro grande governo...’

Ao contrário do que ocorreu com Vargas sessenta e oito anos antes, a coação militar deu certo.

Lula não foi candidato; Bolsonaro venceu e fez do Brasil isso que estamos vivendo.

É forçoso arguir: pela octanagem do que estava em jogo, o general Villas Bôas, adestrado na obediência da caserna, agiria como um franco atirador?

Ou, de fato, como detalha em seu livro-depoimento, o aviso prévio de golpe foi obra coletiva de todo Alto Comando do Exército...

Importante reler suas palavras:

Aspas: ‘O texto teve um 'rascunho' elaborado pelo meu staff e pelos integrantes do Alto Comando residentes em Brasília. No dia seguinte da expedição, remetemos para os comandantes militares de área. Recebidas as sugestões, elaboramos o texto final, o que nos tomou todo expediente, até por volta das 20h , momento que liberei para o CComSEx (Setor de comunicação do Exército) para expedição’

Ou isso, ou aquilo.

Ou o general Villas Bôas agora mente, tentando minimizar ‘o pronunciamiento de 2018’ como iniciativa pessoal. E deve ser intimado a depor por isso...

...ou um atentado à Constituição foi cometido por todo o Alto Comando do Exército em 2018 – do qual fazia parte, entre outros, o então Ministro da Defesa, General Joaquim Silva e Luna, depois Presidente de Itaipu (salário mensal de R$79.000,00), recém nomeado Presidente da Petrobras (salário de até R$400.000,00) –como mostra a imperdível reportagem de Lygia Jobim em Carta Maior (https://bit.ly/2ZBVHjM).

Nos dois casos, seja o do improvável voo solo golpista; seja o da blitzkrieg de todo Alto Comando –após um dia inteiro de planejamento, como detalha o livro citado- a baioneta digital espetada nas costas da Suprema Corte não pode ficar ali sangrando impunemente.

Se os ministros do Supremo, os deputados e senadores do Congresso Nacional assim o permitirem, estarão se juntando a Villas Bôas e ao Alto Comando de 2018 como instrutores da matilha da qual Daniel Silveira é só um aprendiz sôfrego.

Em 2022 os brasileiros devem repactuar seu futuro nas urnas. Se a picada aberta em 2018 permanecer impune, quem garante que poderão escolher livremente os artífices dessa repactuação?

Carta Maior, a exemplo de toda a mídia progressista, desdobra-se como sentinela diuturna dessa travessia. A parceria política e o apoio financeiro de seus leitores é mais crucial que nunca para que não tombemos no caminho desse longo amanhecer.

Contribua, em primeiro lugar, organizando-se coletivamente para as lutas que virão e, no que for possível, ajude financeiramente a mídia progressista,

Joaquim Palhares
Diretor de Redação



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