Antifascismo

Os sete sacrifícios

 

20/11/2020 17:44

João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado até a morte, por um segurança e um policial temporário, dentro de uma loja Carrefour, em Porto Alegre (Reprodução/Redes Sociais)

Créditos da foto: João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado até a morte, por um segurança e um policial temporário, dentro de uma loja Carrefour, em Porto Alegre (Reprodução/Redes Sociais)

 
Na última quinta-feira, 19 de novembro, véspera do Dia Nacional da Consciência Negra, um segurança da empresa Carrefour e um policial temporário espancaram João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, até a morte. Em uma sociedade racista e escravocrata, onde instituições praticam abertamente violência motivada por preconceito racial e social, a Carrefour, pela sétima vez, é palco de atrocidades.

No dia 14 de agosto, Moisés Santos, 43 anos, faleceu dentro de uma loja Carrefour de Recife. Seu corpo foi coberto dentro do espaço da unidade com um guarda-chuvas. Mas, esse não era o primeiro ato que demonstra a face perversa da empresa: em meados de 2019, a Justiça do Trabalho de São Paulo deferiu liminar contra a Carrefour, haja vista ela limitar o acesso dos funcionários ao banheiro. Um ano antes, um cão foi agredido e intoxicado por um funcionário de uma unidade da empresa, em Osasco. Ainda em 2018, Luís Carlos Gomes, deficiente físico, foi agredido por funcionários na unidade da Carrefour em São Bernardo do Campo, sofrendo diversas fraturas e tendo que passar por cirurgia. O motivo? Ele abriu uma lata de cerveja e ao ser indagado pelos funcionários, afirmou que pagaria pela bebida. Ainda assim, foi espancado e mesmo tendo realizado procedimento cirúrgico por causa das várias fraturas, ficou com uma perna menor que a outra.

A Carrefour se configura como um lugar hostil para negros ou qualquer pessoa que pertença a minorias sociais. Seu histórico de agressões é diversificado, não se limitando apenas a questões raciais: em 2017, funcionários que solicitaram remuneração por trabalhar em feriados foram desligados da empresa, em uma evidente represália. Contudo, as agressões, retaliações e todo tipo de ação violenta praticada por essa empresa se arrastam há mais de 10 anos: em 2009, seguranças de uma unidade do Carrefour em Osasco agrediram Januário Alves de Santana, à época com 39 anos. Ele é negro e foi acusado de roubar o próprio carro.

No país em que negros são maioria nas prisões, ganham salários mais baixos que brancos, exercendo a mesma função e possuem menor escolaridade que brancos, podemos afirmar que a Carrefour possui uma verdadeira maquinaria, com cadafalsos e pelourinhos, onde negros são tanto enforcados – recebem mata-leões até perder a respiração – quanto surrados até a morte: sacrifícios para alimentar com sangue de inocentes um deus cruel chamado racismo.

A quem compreende o racismo como uma patologia social, resta a união para fazer frente a um projeto de extermínio dos negros, em pleno vigor no Brasil. Juntos, conseguiremos realizar as palavras de Ernesto Che Guevara (1928-1967): “Sejamos o pesadelo dos que querem roubar nossos sonhos”.

Armando Januário dos Santos é Mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. e-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br | Instagram: @januario.psicologo


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