Antifascismo

Polícia do Rio matou 1.810 pessoas em 2019

Em média cinco pessoas foram mortas por dia pela polícia do Rio de Janeiro no ano passado

24/01/2020 15:44

A violência policial é comum no Brasil (Keystone)

Créditos da foto: A violência policial é comum no Brasil (Keystone)

 
A polícia do Rio de Janeiro matou 1.810 pessoas em 2019, um recorde, com cinco mortes por dia em média, um aumento de 18% em relação ao ano anterior.

Os números divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do governo do estado do Rio de Janeiro também mostram que os homicídios intencionais (excluindo a violência policial) caíram 19%, com 3995 casos, contra 4.950 em 2018.

Esses dados correspondem ao primeiro ano de mandato do novo governador do Rio, Wilson Witzel, eleito em grande parte devido ao seu alinhamento com a política de segurança do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro.

Wilson Witzel, ao assumir o governo, recomendou o uso de snipers para atirar a distância em suspeitos que estiverem portando um fuzil. "Quando se vê que a polícia é responsável por mais de um terço das mortes violentas, fica claro a que ponto nosso modelo de segurança é marcado pela violência policial", explica Silvia Ramos, especialista do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CeSec) da Universidade Candido Mendes.

“No Rio, as grandes operações policiais se tornaram nos últimos anos a principal forma de intervenção da polícia. É uma política baseada no confronto e insuficiente em inteligência e planejamento”, lamenta Silvia Ramos.

Silvia Ramos é também responsável pelo Observatório da Segurança, que analisou detalhadamente as operações policiais realizadas no Rio nos últimos anos. Essas operações que entram nas favelas para prender supostos traficantes são geralmente de grande porte, com o uso de blindados e, muitas vezes, de helicópteros.

Em 2019, o Observatório da Segurança analisou 1.296 operações, em que 387 pessoas foram mortas – em média, cerca de uma morte a cada três operações. Os números do ISP mostram, no entanto, que o número de pessoas mortas pela polícia diminuiu gradualmente durante o segundo semestre (196 em julho, 173 em agosto, 154 em setembro, 144 em outubro, 135 em novembro e 124 em dezembro).

Segundo Silvia Ramos, o governador Witzel "iniciou o mandato com um discurso muito agressivo, mas os efeitos colaterais, especialmente as crianças mortas por balas perdidas, tiveram tanta repercussão que ele teve que mudar de postura".

Ela faz alusão especialmente ao caso da pequena Agatha, de oito anos, morta em uma favela em setembro, um drama que chocou o país inteiro. O Ministério Público denunciou um policial em dezembro, após a investigação comprovar que a bala foi disparada de sua arma.

Os números do ISP também mostram que o número de roubos caiu, especialmente de veículos (-23%) e cargas de caminhões (-19%), números, no entanto, relativizados por Silvia Ramos.

"Essa queda é explicada, entre outras coisas, pelo fato de muitos criminosos terem se juntado às fileiras de milícias que extorquem os moradores", explica ela, referindo-se aos grupos paramilitares que expulsaram os traficantes de alguns bairros para impor sua própria lei.

*Publicado originalmente em Tribune de Genève | Tradução de Clarisse Meireles



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