Antifascismo

População de rua dispara em São Paulo

São Paulo, essa metrópole distópica da desigualdade, a cidade com a maior frota de helicópteros do mundo e um milhão de favelados, simplesmente não tem respostas para a crise

29/01/2021 13:19

Barracas armadas por moradores de rua na entrada da Faculdade de Direito do Centro de São Paulo (Rogério Vieira/DER Spiegel)

Créditos da foto: Barracas armadas por moradores de rua na entrada da Faculdade de Direito do Centro de São Paulo (Rogério Vieira/DER Spiegel)

 
No dia em que a vida normal de Tiago Ferreira de Almeira chegou ao fim, ele arrumou algumas roupas e seus documentos mais importantes em uma mala. Saiu pela porta, deixando para trás sua cama, sua televisão e o resto de seus pertences. Foi o dia em que Ferreira perdeu seu apartamento na Bela Vista, bairro de classe média de São Paulo.

Ferreira não sabia para onde ir. No fim, porém, caminhou até a praça em frente à Catedral Metropolitana, no coração da cidade, um lugar onde muitos moradores de rua dormem. Ele estendeu um cobertor e se deitou.

Choveu naquela primeira noite e as roupas de Ferreira estavam encharcadas quando ele acordou. Sua mala com suas roupas extras e identificação tinha sumido. Ainda estava escuro e ele encontrou um local seco para ficar longe da chuva, com fome e medo. Ele conheceu uma mulher na manhã seguinte, que lhe comprou um hambúrguer no McDonalds. “Foi quando comecei a chorar”, diz ele. "O nome dela era Maria."

Tiago Ferreira de Almeira perdeu o emprego em uma fábrica de chocolates por conta da crise deflagrada pelo coronavírus. (Nicola Abé)

Ferreira, 29 anos, trabalhava até maio em uma fábrica de chocolates chamada Kopenhagen. Mas quando a empresa foi forçada a demitir vários de seus funcionários por causa do coronavírus, ele não tinha mais dinheiro para pagar o próximo aluguel.

Desde junho, Ferreira mora na rua ou em abrigos de moradores de rua, um lugar diferente a cada noite. Ele se juntou a alguns novos amigos nas ruas, um dos quais perdeu o emprego como professor. No Brasil, nem todos os ex-empregados que perderam o emprego têm direito ao auxílio-desemprego do governo.

Padre Julio Lancellotti distribui café da manhã para moradores de rua, na Moóca, em São Paulo (Rogério Vieira/Der Spiegel)

Mesmo antes da crise do coronavírus, a economia do maior país da América do Sul estava em dificuldades. A classe média estava encolhendo e o número de sem-teto estava continuamente aumentando.

Mas desde o início da pandemia e o bloqueio frouxo, o país mergulhou em uma profunda crise econômica. O número de desempregados disparou, assim como o número de pessoas que vivem nas ruas das maiores cidades do país.

Voluntários estimam que o número de moradores de rua em São Paulo, a maior e economicamente mais poderosa cidade da América do Sul, saltou entre 60 a 70 por cento. Os números oficiais ainda não estão disponíveis, mas evidências esporádicas podem ser vistas em cozinhas populares para os sem-teto, onde o número de pessoas esperando por uma refeição mais do que triplicou em alguns casos. Um funcionário de uma ONG chama isso de "cenário de terror". Outro fala: "Agora estamos constantemente ouvindo perguntas básicas, com pessoas querendo saber quais cantos são seguros para dormir ou se podem aparecer novamente amanhã para uma refeição."

Em uma recente manhã de segunda-feira de janeiro, Ferreira estava sentado a uma mesa de plástico em uma grande sala do bairro da Moóca, onde Monsenhor Júlio Lancellotti, com ajuda da prefeitura, está distribuindo o café da manhã. É a primeira visita de Ferreira às instalações. Ele está bebendo um suco de laranja, com um pãozinho seco e um pacote de biscoitos na mesa à sua frente.

Voluntários distribuem alimentos para quem precisa (Rogério Vieira/DER SPIEGEL)

"Eu nunca pensei que iria acabar nessa situação", diz ele, "e de repente ..." Ele estala os dedos e seus olhos se enchem de lágrimas. O pior, diz ele, é a fome e a sensação constante de estar sujo. "É a experiência mais terrível que já tive na minha vida, a maior humilhação."

Luciana Batista, 40, está sentada a alguns metros de distância com seu filho Gregory, de seis meses. Sua filha Rebecca, de cinco anos, está orgulhosamente segurando uma camiseta brilhante, que ela comprou em um banco de roupas. Batista está sem-teto há pouco mais de um mês e atualmente está dormindo em um albergue "com 100 mulheres e 30 crianças em um quarto", diz ela.

As mães solteiras Caroline Francisco e Luciana Batista são moradoras de rua. (Rogério Vieira/DER SPIEGEL)

Eles não têm permissão para ficar lá durante o dia. Batista, que perdeu o emprego na limpeza de uma loja, é mãe solteira e vem aqui todos os dias.

“Estamos vendo cada vez mais famílias com crianças pequenas que ficaram desabrigadas e estão morando em barracos à beira das avenidas”, diz Luiz Kohara Kukuzi, diretor da organização de direitos humanos Centro Gaspar Garcia. "Essa é uma grande mudança."

Muitos empregos na economia informal desapareceram, mas milhões de outros no setor formal também perderam seus empregos, com garçons, vendedores de loja e operários de fábrica sendo dispensados. O resultado foi o colapso da classe média baixa. O governo prevê que o desemprego poderá subir mais de 18% este ano. Mas o pior está ainda para vir. “Estou esperando uma catástrofe humanitária nos próximos meses”, disse Kohara.

A principal razão para esses temores é que o governo de Brasília deixou de pagar uma pensão de emergência para os pobres atingidos pela crise a partir de janeiro. Ao todo, 67 milhões de brasileiros - quase um terço da população - contavam com os 600 reais (cerca de 90 euros) por mês. “Ajudou as pessoas nas favelas a pagar aluguel ou comida”, diz Kohara. E eles não têm economias, acrescenta. A situação deles agora é tão tênue que eles podem acabar nas ruas de um dia para o outro.

Dezenas de milhares de pessoas vivem nas ruas de São Paulo, a maior e economicamente mais poderosa cidade sul-americana. (Rogério Vieira/DER SPIEGEL)

Mesmo antes da crise, dezenas de milhares de pessoas em São Paulo ocupavam todos os cantos da cidade, incluindo praças públicas, túneis de avenidas, ilhas de trânsito, pontes e entradas de prédios, ou dormiam em barracas que decoravam com luzes de natal para as festas, ou em barracas de lona nas calçadas.

Alguns deles arrumavam seus pertences na frente de suas barracas: um desodorante meio vazio ou frasco de xampu, uma boneca Barbie ou bicho de pelúcia. Outros se deitavam ao sol sobre um pedaço de papelão na calçada, embrulhados no revestimento cinza usado pelos pintores, seus excrementos a poucos metros de distância. Em uma manhã de domingo, uma menina de talvez 12 anos estava dormindo de barriga para baixo na calçada, nua da cintura para baixo.

Elvira Ferreira da Silva mantém sua barraca limpa e arrumada. (Rogério Vieira/DER SPIEGEL)

Segundo estatísticas oficiais, havia 24.000 desabrigados em São Paulo antes da pandemia, resultado de um aumento de 65% nos quatro anos anteriores. Organizações de ajuda acreditam que os números oficiais são muito mais baixos do que a realidade.

Agora, que muitos mais se juntaram ao já grande exército de desabrigados, parece que cada pequeno espaço na já densamente povoada cidade já está ocupado. São Paulo, essa metrópole distópica da desigualdade, a cidade com a maior frota de helicópteros do mundo e um milhão de favelados, simplesmente não tem respostas para a crise.

No início da pandemia, a cidade instalou alguns chuveiros, banheiros e instalações onde as pessoas podiam lavar roupas e pratos. Mas uma iniciativa de abrigar os sem-teto em hotéis, como os de lugares como Hamburgo e Londres, fracassou por falta de interesse das operadoras de hotéis. As autoridades municipais não quiseram comentar quando contatadas para esta história.

O número de pessoas esperando por comida em refeitórios populares triplicou em alguns casos. (Rogério Vieira/DER SPIEGEL)

Os líderes políticos da cidade continuam a confiar em estratégias como dissuasão e expulsão. Perto da estação da Luz, no centro da cidade, encontra-se uma zona conhecida como "Cracolândia", local onde vive um número significativo de toxicodependentes sem-abrigo. A polícia tem perseguido repetidamente as pessoas daqui com gás lacrimogêneo e spray de pimenta, expulsando-as da área - mesmo no meio da pandemia.

Pessoas que dormem dentro e ao redor da praça em frente à Catedral Metropolitana também vivem com medo da polícia. Jovens que vivem nas ruas relatam que a polícia costuma atear fogo em suas barracas ou levá-las embora - ou mesmo espancar moradores de rua.

Os ricos da cidade há muito procuram se isolar das ruas, dos escapamentos, dos constantes engarrafamentos, do barulho e da sujeira. Eles se retiraram para suas coberturas no alto das torres residenciais ou para condomínios fechados, viajando em seus helicópteros e jatos particulares.

A classe média, por sua vez, tenta lidar com o sofrimento nas ruas da cidade. Alguns doam as roupas que não precisam mais ou compram uma caixa extra de leite no supermercado para dar a alguém. Mas não faltam conflitos, especialmente nos distritos onde os interesses econômicos e a falta de moradia se chocam - lugares, por exemplo, onde os agentes imobiliários estão tentando promover a gentrificação. Incêndios são provocados regularmente e já houve casos de moradores de rua recebendo alimentos com veneno ou cacos de vidro.

O Padre Lancellotti frequentemente recebe ameaças nas redes sociais ou é abusado verbalmente em público por causa do apoio que dá aos sem-abrigo: “É o ódio que as pessoas têm pelos pobres”, diz ele. (Rogério Vieira/DER SPIEGEL)

Aqueles que se dedicam à assistência social também se sentem em perigo. Padre Lancellotti, de 77 anos - o padre católico que lidera uma pequena igreja no bairro da Moóca nos últimos 30 anos e que coloca sua máscara de gás rosa todas as manhãs, exceto aos sábados, para distribuir o café da manhã aos necessitados - relata que recebeu ameaças de morte nas redes sociais e é frequentemente abusado verbalmente em público. “É o ódio que as pessoas têm pelos pobres”, diz ele. "Assim como vocês na Europa odeiam os refugiados, as pessoas aqui odeiam os pobres." Ele fala de "violência diária, institucionalizada e sistêmica contra os sem-teto".

Eduardo Suplicy, membro da Câmara Municipal de São Paulo pelo Partido Trabalhista, há muitos anos tenta melhorar a situação dos moradores de rua. No ano passado, ele aprovou uma lei na Câmara Municipal com o objetivo de fortalecer os direitos civis dos moradores de rua e dar-lhes um pouco mais de dignidade. Em breve, uma nova lei será votada que estabelecerá critérios explícitos de como os funcionários devem tratar os que vivem nas ruas.

Ainda assim, mesmo as leis aprovadas não são necessariamente implementadas, como demonstrado pelo maior sucesso político de Suplicy. Há dezessete anos, como senador por Brasília, ele redigiu uma lei segundo a qual todo cidadão brasileiro deveria receber uma renda básica incondicional. A lei foi aprovada pelo Congresso Nacional e assinada por Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente. Mas isso nunca foi implementado.

Moradores de rua no centro de São Paulo, próximo à Catedral Metropolitana. (Rogério Vieira/DER Spiegel)

“A cada dia vemos mais gente nas ruas de São Paulo”, diz Suplicy, “por isso é que chegou o momento de apresentar ideias como a renda básica incondicional”. Ele mais uma vez começou a lutar muito pela introdução do conceito e acredita que pode estar no caminho do sucesso. Suplicy é atualmente presidente honorário de um grupo de mais de 220 parlamentares que se reuniram no ano passado pela "defesa da renda básica incondicional". Ainda assim, o governo do presidente populista de direita Jair Bolsonaro deve vetar a lei.

"Transformar o alívio financeiro de emergência em uma renda básica permanente seria a atitude correta", disse Kohara, do grupo de direitos humanos Centro Gaspar Garcia, que também administra um programa de ajuda aos sem-teto. Ele acredita que em uma sociedade estruturada como a do Brasil, em que grande parte da população "trabalha hoje para comer amanhã", - uma sociedade em que muitas pessoas são extremamente vulneráveis - uma renda básica incondicional pode ser uma solução, desde que seja alta o suficiente.

"Vimos muitos desenvolvimentos positivos no período em que o alívio financeiro de emergência estava sendo fornecido", disse Kohara. "Alguns sem-teto até juntaram forças para alugar um apartamento compartilhado."

“Acabar na rua é fácil, mas achar o caminho de volta fica mais difícil a cada mês”, diz uma de suas colegas. A cada mês que passa na rua, ela acrescenta, as chances de encontrar o caminho de volta à vida normal são reduzidas.

*Publicado originalmente em 'Der Spiegel' | Tradução de César Locatelli

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