Antifascismo

Por que a norma?

Face a mais uma posição risível, tacanha e canhestra de Damares Alves, esperamos que as meninas e mulheres brasileiras vistam-se como preferirem, inclusive sem calcinha

31/07/2019 13:41

 

 
Na última quarta, 24, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, afirmou que é por não usar calcinha que as meninas na ilha de Marajó são estupradas. Damares Alves afirmou ter conseguido doações de peças íntimas em grande quantidade, a fim de enviar para a Ilha. Disse ainda que a forma mais efetiva de combater o estupro nessa região seria instalar fábricas de calcinha, pois isso geraria empregos, além de tornar este vestuário mais acessível.

A fala da ministra, cápsula do poder patriarcal, determina que a violência de gênero em uma localidade brasileira ocorre em função da ausência de uma peça de roupa. Parte do pressuposto que a utilização da calcinha é um mecanismo de proteção contra abusos sexuais para meninas pobres. Reforça a norma que mulheres e meninas devem cobrir os genitais, para não despertar o desejo de virtuais agressores. Evoca relações de saber-poder que regulam os corpos através de mecanismos de circularidade, estabelecendo a ocultação dos genitais como medida mais eficaz para combater o estupro.

O Atlas da Violência 2018, estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Ipea/FBSP), ruma em outra direção. A pesquisa apresenta dados preocupantes sobre agressões sexuais contra mulheres e meninas: 49.497 casos de estupro registrados nas polícias brasileiras, 22.918 estupros registrados no SUS, resultando em uma média de 135 estupros/dia. Todavia, o mais estarrecedor vem a seguir: de acordo com o Ipea/FBSP, esses dados não traduzem a realidade, haja vista apenas 10% a 15% dos casos serem relatados. Na verdade, o Atlas estima que, anualmente, ocorrem entre 300 mil e 500 mil estupros, o que aumentaria a média diária para 822 a 1.370 casos!

Ante tamanha iniquidade, torna-se evidente que os abusos sexuais contra as meninas na ilha de Marajó não são motivados pela ausência de uma vestimenta. Na verdade, é a ausência de políticas públicas de promoção da educação sexual – posição fervorosamente defendida pela ministra – que contribui para perpetuar a objetificação e hipersexualização dos corpos socialmente considerados femininos. De fato, encontramos no discurso reacionário corroborado por Damares, a ardorosa defesa de posições contrárias a qualquer processo educativo sobre sexualidade. Tais enunciações, aliadas a séculos de inferiorização, misoginia e escravidão, subjugaram as mulheres, que, felizmente, nas últimas décadas, lutam por direitos sociais.

Face a mais uma posição risível, tacanha e canhestra da ministra, esperamos que as meninas e mulheres brasileiras vistam-se como preferirem, inclusive sem calcinha. Afinal, é através da educação para o exercício positivo da sexualidade que aprendemos a conviver longe de normatizações medievais e respeitando a nudez.

Armando Januário dos Santos: Sexólogo. Pós-graduando em psicanálise. Concluinte da graduação em Psicologia. Graduado em Letras com Inglês. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 


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