Antifascismo

Porque a unidade para gritar ''Fora Bolsonaro''

 

19/01/2021 19:16

(A. Perobelli/Reuters)

Créditos da foto: (A. Perobelli/Reuters)

 
Escrevo dentro de um ônibus, em uma viagem que trouxe respostas fundamentais para minha existência. Por esses dias, deixei o estado onde resido e em meio a pandemia percorri um entre tantos rincões desse país. O nome da cidade será sempre um segredo, mas as aprendizagens que lá obtive estarão sempre comigo. A maior delas é, sem dúvida, ter a consciência do potencial de autodestruição que causamos a nós mesmos e a outras pessoas. Somos hábeis em agredir, ofender e destruir. Em O mal-estar na civilização, Sigmund Freud (1856-1939) apontou para as ameaças ao processo civilizatório. Em Por que a guerra?, conjunto de cartas trocadas entre ele e o físico Albert Einstein, vemos a mesma preocupação: o potencial da espécie humana em disseminar a maldade e a destruição.

Confesso que mesmo estando em viagem, acompanhei com tristeza pelos canais progressistas – a mídia corporativa brasileira, por razões óbvias, já se transformou em uma grande ópera-bufa para mim há anos – o caótico estado de coisas ocasionado pela falta de oxigênio em Manaus: médicos improvisando respiradores, outros abanando pacientes e cada vez mais pessoas morrendo, quando tudo poderia ser evitado.

Porém, desde o início não havia interesse em evitar. Ainda que não estivéssemos em uma pandemia, o grupo político que chegou ao Planalto através das fake news e de um doentio fundamentalismo religioso, levaria o País ao mesmo cenário apocalíptico por outras vias, a exemplo da recessão econômica, na qual já nos encontramos. O presidente brasileiro não veio para prevenir, defender, evitar. Ao contrário, sua intenção, detalhadamente exposta na campanha, é de matar, retirar direitos sociais e trabalhistas, privatizar, fazendo o trabalho que a Casa Grande sempre sonhou: vender o Brasil de porteira fechada.

Diante dessa perspectiva, sinto-me bna trilogia O Senhor dos Anéis: toda a Terra-Média ameaçada por Sauron, o Senhor do Escuro, o Inominável, aquele que envia suas hordas malignas para aniquilar tudo, até uma simples flor, se julgar necessário. Ante tal ameaça, todos os povos da Terra-Média se uniram para vencer a tirania de Sauron: anões, elfos e humanos deixaram de lado suas rivalidades para combater uma ameaça real às suas vidas. Aqui chegamos a um impasse, tendo em vista que parcela expressiva do campo progressista rejeita a ideia de se unir a setores de centro e centro-direita na luta contra o Sauron do Planalto. Preferem ficar presos às suas ideologias, enquanto o Mal avança e ameaça retirar o pouco que resta de esperança. Pior: do alto de suas vaidades, não querem enxergar a necessidade de unidade para a restauração da democracia brasileira, a qual nesse momento, passa obrigatoriamente pelo impedimento do genocida que ocupa a cadeira de presidente.

O ônibus onde estou continua seu caminho. A História também. Ou nós, progressistas, não compreendemos isso ainda?

Armando Januário dos Santos é mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. e-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br | Instagram: @januario.psicologo





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