Antifascismo

Precisamos falar sobre crianças transexuais e travestis

 

22/07/2020 14:24

 

 
Quando a sociedade olha para travestis e transexuais, despercebe que elas foram crianças. E que desde a infância, já eram travestis e transexuais. Recusar isso é tentar de alguma forma contra argumentar dentro de uma lógica que não percebe o sujeito enquanto responsável pela sua existência; significa não legitimar as identidades que surgem em certo momento da espécie humana. Deste os primórdios do nascimento de uma criança, as expressões de gênero são parte do seu desenvolvimento, dado que, as identificações nos primeiros anos de vida com seus cuidadores fazem parte desse processo.

Caro leitor, “ser menino ou menina” vai além de uma construção meramente biológica. Na obra Problemas de Gênero, da filósofa Judith Butler, publicada em 2003, questiona-se sobre se o sexo biológico não seria também uma construção definida pela própria Medicina, visto que, pessoas com genitálias e órgãos secundários nascem e são denominadas pessoas intersexuais, mas que devido a valores de uma sociedade contrária a quaisquer corpos que não estejam dentro de um padrão binário homem/pênis, mulher/vagina, devem ser corrigidos e adequados a partir de seus nascimentos, sem ao menos uma possibilidade da participação decisória do próprio sujeito. Corpos que transitavam entre os gêneros sempre existiram, basta realizar um resgate histórico na Antiga Grécia para verificar a existência de homens afeminados que usavam maquiagem e tinham relações com outros homens. Certamente não eram atribuídos a essas pessoas a terminologia de pessoas transexuais e travestis, porém não estavam em conformidade com o que o cis-tema na atualidade quer impor como regra universal. O fato é, que enquanto crianças, grande parte de seus valores são introjetados por outros indivíduos ou grupos, causando muitas distorções do que é meu ou do outro. A criança torna-se um reflexo das expectativas de seus genitores, um espelho destes, principalmente quanto aos seus comportamentos. Logo, não tendo uma possibilidade de expressar-se enquanto sujeito de direito, pensa-se que o pequeno infante não tem desejos e antes mesmo de ingressar no mundo dos valores ditos como verdades absolutas, este ser humano é visto como algo impossibilitado de ser.

Segundo Carl Rogers e Barry Stevens no livro De Pessoa Para Pessoa: o problema do ser humano, publicado em 1997, um bebê saudável é aquele que explora e experimenta, assim sendo, se diverte, redescobrindo a si mesmo. Tendo em vista esses detalhes, propõe-se que as crianças são autênticas e genuínas quando expressam seus sentimentos e vontades, entretanto, são destituídas desses sentimentos por outras pessoas que acreditam que o que foi bom para eles será igualmente bom para seus filhos. Nesses termos, retira-se o direito deste pequeno de conhecer outras possibilidades de viver a experiência humana e assim, ridiculariza-se o que pode ser um momento de descoberta para o pequeno.

Valorizar o sentimento genuíno da criança é construir junto com ela possibilidades de escolhas, então, quando elas mostram-se desnudas e sem vergonha alguma de expressar todos os seus desejos, isso é de uma autenticidade e claramente de uma maturidade valorativa que muitas pessoas adultas ocultam. Segundo José Ortega Y Gasset em The Modern Theme, obra publicada em 1931, a vida sempre foi vivenciada e regida pela moralidade, economia, ciências e religião, contudo esqueceu-se de viver intencionalmente sobre a orientação da própria vida, logo a humanidade sempre de certo modo viveu assim e muitas vezes ocorre de realizar o que o outro nos pede, todavia, quando uma criança expressar comportamentos fora do contexto os quais não são considerados “normais” pelo cis-tema, a sociedade retira esta trajetória, negando a busca de reconhecimento pela própria criança sobre a possibilidade de não corresponder ao gênero atribuído ao nascimento, pois foi excluída a liberdade de ser ela, autônoma, livre e espontânea. Talvez possa ser uma mera expressão, tendo em vista os processos de socialização primárias e secundárias, no entanto, devem ser validadas e não reprendidas, pois são legitimas, ao passo que elas se constroem como verdadeiras e não um produto modelado e planejado.

Portanto, crianças transexuais e travestis existem. Logo, suas identidades não devem ser reprimidas.

Fabiana Mello Oliveira é Graduanda em Psicologia. Travesti. Instagram: @lindaloirachique | Facebook: https://www.facebook.com/fabianna.melo

Armando Januário dos Santos é Mestrando em Psicologia. Psicólogo. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Instagram: @januario.psicologo | Facebook: https://www.facebook.com/armando.januariodossantos






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