Antifascismo

Professora forçada a deixar o país por defender legalização do aborto

Debora Diniz dinamizou várias campanhas a favor da legalização do aborto no Brasil. Uma ação em 2018 no Supremo Tribunal pela legalização até às 12 semanas desencadeou uma onda de ameaças que a forçaram a pedir proteção policial e a deixar o país

29/01/2019 11:30

Debora Diniz (Beto Monteiro/Secom UnB/Flickr)

Créditos da foto: Debora Diniz (Beto Monteiro/Secom UnB/Flickr)

 

Debora Diniz, professora universitária conhecida pela sua intervenção em favor da legalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) no Brasil, viu-se forçada a deixar o país na sequência de ameaças de morte pela sua intervenção política. É mais um caso, como o de Jean Willys, que agrava as preocupações sobre a violência política no Brasil da era Bolsonaro.

Diniz, antropóloga e professora na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, tem mais de uma década de intervenção pública no Brasil pela causa da IVG. Em 2004, contribuiu para uma ação no Supremo Tribunal Federal para permitir a IVG em fetos com anencefalia (uma malformação cerebral grave que implica uma expectativa de vida muito curta se o feto chegar a nascer). Oito anos depois, em 2012, a ação foi bem sucedida e levou à descriminalização da IVG para estes casos.

Mas uma nova ação judicial, interposta junto do STF em 2018, pela legalização da IVG até às 12 semanas a pedido da mulher, desencadeou uma onda de ameaças nas redes sociais e em eventos públicos que forçaram Diniz a pedir proteção policial. A partir de maio de 2018, qualquer evento com a sua participação foi alvo de ações de intimidação. Além de Diniz e de sua família, foram igualmente alvos a directora da sua faculdade, a reitora da UnB, e mesmo alunos que frequentavam as suas aulas. Em declarações à edição brasileira do El Pais, Diniz precisou: "Chegaram ao ponto de cogitar um massacre na universidade caso eu continuasse dando aulas ... Não sabemos se são apenas bravateiros. Há o risco do efeito de contágio, de alguém de fora do circuito concretizar a ameaça, já que os agressores incitam violência e ódio contra mim a todo o momento".

Durante o exílio forçado que dura há um semestre, a professora tem estudado o perfil dos haters que a perseguem. “Basicamente são homens ressentidos, de 30 a 40 anos, ligados a grupos de extrema direita, neonazistas e incels ... Enxergam a ascensão de mulheres e LGBTs como afronta à masculinidade e não costumam deixar rastros nem indícios de uma célula de articulação do movimento”, afirma.

Em dezembro do ano passado, um grupo de juristas anunciou a criação de uma rede de defesa de Debora Diniz, que poderá vir a alargar-se para prestar apoio jurídico a outros ativistas ameaçados de morte. O caso está em investigação pela Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), que considera a hipótese de os ataques serem "orquestrados por redes internacionais que focam seus canhões em ativistas de direitos humanos". Entretanto, a ação pela descriminalização da IVG prossegue no STF. Debora Diniz promete resistir: "Mais do que nunca, mesmo à distância, eu sigo fazendo meu trabalho. Não vão me calar.”

*Publicado originalmente em esquerda.net

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