Antifascismo

Quem Marielle Franco representa?

Marielle vinha das comunidades pobres e dedicava a elas o melhor de suas forças. Seu mandato, embora conquistado com muitos votos da Zona Sul, era voltado para a favela e com ela mantinha interlocução densa e permanente. É por isso, também, que sua morte representa um revés tão sério para a luta popular, no Rio e no Brasil

30/03/2018 20:37

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Créditos da foto: MídiaNINJA/Reprodução



O assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL carioca, e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, gerou uma comoção nacional. Num país em que a convivência cotidiana com a violência colabora para anestesiar a reação a ela, o crime da noite do último dia 14 fugiu à regra. De norte a sul, multidões foram as ruas, de uma forma talvez inesperada. O assassinato de Marielle Franco se tornou um divisor de águas na conjuntura política.

Foi uma execução que não procurou disfarçar seu caráter, indicando a clara intenção de passar um recado a outras lideranças e ativistas que combatem a conexão entre forças repressivas e crime organizado no Brasil. Foi a morte de uma representante eleita, na segunda maior cidade do país, sinalizando o crescente descontrole da violência política aberta. Foi o silenciamento de uma das mais promissoras políticas da nova geração da esquerda, no momento em que se promove criminalização de todo esse espectro. Foi o assassinato de uma crítica e opositora da intervenção militar em curso no Rio de Janeiro, como numa demonstração de que a ameaça à reprodução da insegurança urbana não está na manobra pirotécnico-eleitoral de Temer, mas em pessoas que, como ela, apresentam diagnósticos mais complexos e mais conectados à questão de nossa dívida social. E foi a morte de uma mulher negra, periférica, lésbica – uma sobreposição de pertencimentos que apontam, sempre, para os grupos mais excluídos e agredidos da sociedade brasileira. Muitos simbolismos reunidos na mesma tragédia.

Quase imediatamente, a direita buscou esvaziar os sentidos da execução de Marielle Franco. O silêncio do candidato fascista à presidência é eloquente: espremido entre a sanha de seus seguidores fiéis, que veriam qualquer mínima demonstração de humanidade como “frouxidão”, e a necessidade de apaziguar aqueles que querem aderir à sua campanha mas continuar se sentindo civilizados, não tinha como se manifestar. Outros, no entanto, fizeram o trabalho sujo, espalhando mentiras sobre a vida da vereadora, afirmando que era merecida a morte de uma “defensora de bandidos” ou, como a Rede Globo, apagando toda a sua militância e usando-a para justificar as políticas que ela sempre combateu.

Um pequeno site de extrema-direita divulgou a informação, baseada em dados do TSE, de que a vereadora só conquistara 50 votos – dos mais de 46 mil que a elegeram – na Maré, sua base eleitoral, que passaria assim à posição de “pretensa” base eleitoral. Num trabalho cuidadoso, o cientista político Lucas

Gelape demonstrou o erro de método e estimou, com maior precisão, que ela obteve 1.069 votos na Maré, aos quais se podem somar mais 1.579 no bairro vizinho, Bonsucesso.
Gelape mostra que Marielle Franco foi a quarta candidata mais votada na Maré, obtendo 3,2% dos votos locais. Numa eleição de votação pulverizada como costuma ser a eleição para vereador, não é algo desprezível. Mas cabe observar que os três candidatos mais votados, todos de partidos de direita, somaram 36,4% dos votos da Maré. Embora a votação de Marielle Franco nas regiões mais pobres da cidade não tenha sido inexpressiva, sua vitória dependeu do forte apoio obtido em bairros como Tijuca, Copacabana, Botafogo ou Laranjeiras, isto é, os bairros de classe média e classe média alta da Zona Sul carioca.

Nada disso invalida a reivindicação que a vereadora sempre fez de ser representante da Maré – como, aliás, Gelape também indica acertadamente. Afinal, uma liderança não é a expressão da mentalidade média de um grupo, mas quem o puxa para além desta mentalidade. Marielle Franco representava uma compreensão dos interesses dos moradores da Maré – e, de forma mais geral, da população pobre e preta da cidade do Rio de Janeiro – e dedicava seu mandato a isso, com valentia e dignidade.

Ainda assim, o mapa eleitoral induz a duas reflexões. A primeira é que ele indica o equívoco da leitura exclusivamente identitária da representação e da política. A cientista política inglesa Anne Phillips cunhou as fórmulas “política de presença” e “política de ideias”, lembrando que elas são dimensões concomitantes do processo representativo. Marielle Franco era uma presença poderosa – como mulher, como negra, como “cria da Maré”, como ela mesma dizia – numa política que sempre excluiu aqueles iguais a ela. Mas era também a expressão, igualmente poderosa, de ideias, de um projeto ético-político de esquerda, que reverberava para além de seu grupo de origem. Apagar essa segunda dimensão é não entender uma parte importante do significado de sua atuação como liderança política.

A segunda reflexão é sobre os motivos que fazem com que o discurso da esquerda tenha, numa cidade como o Rio de Janeiro, mas não só lá, tamanha dificuldade para penetrar na população mais pobre. Uma discussão complexa, que me abstenho de fazer aqui. Mas o mandato de Marielle Franco sinalizava uma esperança de começar a romper essa situação – afinal, era alguém que vinha das comunidades pobres e que dedicava a elas o melhor de suas forças. Um mandato que, embora conquistado com muitos votos da Zona Sul, era voltado para a favela e com ela mantinha interlocução densa e permanente. É por isso, também, que sua morte representa um revés tão sério para a luta popular, no Rio e no Brasil.

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Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). É um dos autores do livro de intervenção Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil. Seu livro mais recente é Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.



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