Antifascismo

Rosa, cem anos de luta pela vida

 

16/08/2019 18:23

Rosa e seu neto, Guillermo Rodolfo Pérez Roisinblit (Reprodução)

Créditos da foto: Rosa e seu neto, Guillermo Rodolfo Pérez Roisinblit (Reprodução)

 
Vice-presidenta das Avôs da Praça de Maio há mais de 20 anos, Rosa Roisinblit nasceu numa pequena e não tão próspera aldeia do norte da província argentina de Santa Fé. Passou sua infância numa comunidade que recebeu vários colonos judeus. Estudou artes manuais na cidade de Rosário (a mais importante da província), e assim aprendeu a iluminar a vida, e também começou a trabalhar como parteira. Logo, migrou a Buenos Aires, onde se casou com Benjamín Roisinblit e passou a ter uma vida centrada nas virtudes e exigências de sua nobre profissão.

Sempre acompanhou sua única filha, Patricia, a quem deu amparo quando soube que, como muitos jovens de sua época, ela decidiu atar seu destino aos ideais de uma militância plena e desinteressada. Apesar dos sérios riscos que essa escolha significava, ainda mais naquele momento terrível da nossa história, em que a exposição de uma ideia ou a entrega de um panfleto chegavam a ser atos de coragem. O socorro a um companheiro, o aceitar de um convite ou a presença em comunidades carentes poderia custa a vida.

Patricia sofreu o mesmo cruel infortúnio que recaiu sobre milhares de pessoas que foram jogadas nesse poço silencioso e diabólico da desaparição forçada. No dia 6 de outubro de 1978, quando estava grávida de 8 meses, ela e seu companheiro, José Manuel Pérez Rojo, foram sequestrados. Dali em diante, em cada dia dos mais de 40 anos depois disso foram marcados por uma busca incessante por parte dos seus familiares, que também queriam encontrar seu filho, o neto de Rosita, entre as centenas de crianças desaparecidas e apropriadas pelos mesmos repressores que mataram sua mãe.

Foi a inquebrantável vontade e coragem de Rosa que a levou a iniciar aquela empenhada busca, que hoje mantém intacta. A identificação de seu neto, Guillermo Rodolfo Pérez Roisinblit, no ano 2000, após confirmada sua verdadeira identidade por teste de DNA, e a condenação do brigadeiro Omar Domingo Rubens Graffigna, ex-chefe da Força Aérea Argentina, como responsável pelo sequestro de Patricia e José, não somente compensaram sua luta como acentuaram sua trajetória de avó solidária e militante em prol da recuperação dos netos e do acionar correto da Justiça.

Rosa Roisinblit sempre diz o que pensa. É modesta e franca, como as pessoas que buscam e sentem a verdade como o bem mais apreciado. Também é sincera, clara e de ostentada firmeza em suas ideias. Adorável mesmo quando está fugazmente zangada, como quando enfrenta uma pergunta frívola de algum embaixador, ou chefe de Estado, ou de um jornalista, ou de qualquer outra pessoa.

Já a vi expondo com sucesso e talento as suas convicções, nos mais complexos âmbitos da diplomacia internacional. Em os momentos, e em todos os espaços, ela sempre é a mesma pessoa: a humilde, convincente e imperturbável Rosa Roisinblit.

Todos conhecemos o intenso trabalho das Avós da Praça de Maio a nível nacional, mas poucas vezes se destaca sua projeção internacional e os frutos de seu irretocável trabalho. A criação do Banco Nacional de Dados Genéticos significou um avanço científicos de alcance universal – insuspeitável naquele momento –, além de importantes mudanças jurisprudenciais tanto na Argentina quanto no exterior, que beneficiaram milhões de pessoas.

A incorporação dos artigos 7, 8 e 11 da Convenção Internacional sobre os Direitos das crianças – nos quais, centralmente se reconhece o direito inalienável da criança a ter sua identidade, e, portanto o direito a recuperá-la quando esta foi ilegítima ou fraudulentamente alterada – foi possível, em grande medida, graças ao pedido das Avós, que souberam transmitir, através de sua própria experiência, as razões profundas que justificaram sua inclusão.

Aqueles que promovem a entrega do Prêmio Nobel da Paz às Avós da Praça de Maio sempre ressaltaram a projeção universal de sua contribuição, e insistem no fato de que seu trabalho se vincula essencialmente à vida, na medida em que a busca pelos netos se justifica pela constante esperança pelo reencontro, e pelo fato de que se trata de pessoas que eram bebês quando tudo aconteceu, e que agora são adultos que desconhecem o que lhes passou.

Das muitas e terríveis aberrações semeadas pele horror em nosso subcontinente naqueles Anos 70, a pior e mais repudiável, sem dúvida, foi a prática das desaparições forçadas de pessoas, que, em seu paroxismo de crueldade, acabou afetando crianças que acompanharam o destino dos pais. Esta sinistra situação entre crueldade e ditadura fez com que os primeiros passos da democracia nascente em 1983 fossem avaliados a partir do seu comportamento com respeito aos direitos humanos, e o reconhecimento do trabalho e do papel desempenhado pelos organismos que haviam atuado em sua defesa. É inquestionável, então, que a credibilidade de entidades como as Avós foi crucial para a recuperação da confiança e a certeza do processo democrático que se iniciava.

Outro exemplo palpável e entusiasmante de complementariedade entre a ação diplomática governamental e a eficaz tarefa desempenhada pelos organismos de direitos humanos foi a ativa participação destes na elaboração da Convenção Internacional Contra a Desaparição Forçada de Pessoas, a ponto de que tal instrumento jurídico, hoje vigente a nível internacional, tenha recebido o nome simbólico de Marta Ocampo de Vásquez, em homenagem à sua trajetória de luta liderando a Federação Latino-Americana de Associações de Familiares de Detidos e Desaparecidos (FEDEFAM).

Desde a sua fundação, com Estela Carlotto e Chicha Mariani, a instituição foi adquirindo cada dia maior notoriedade, e o resultado do seu trabalho a favor das crianças desaparecidas se inscreve entre os capítulos mais memoráveis da nossa história contemporânea. Hoje, os 130 netos recuperados fazem uma homenagem a Rosa Roisinblit, por ser a primeira avó que completa um centenário. Se trata de uma honrosa distinção, a justa e merecida celebração que ela recebe ao cumprir 100 anos, marcados por uma tenaz e incansável luta pela vida.

Leandro Despouy é jurista argentino. Entre 2003 e 2009, foi relator especial do Comitê de Direitos Humanos da ONU sobre a Independência de Juízes e Advogados.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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