Antifascismo

Sobre a tentativa de destruir a credibilidade de Greta Thunberg

 

26/09/2019 15:15

 

 
Chegou cedo demais, para Greta Thunberg (de apenas 16 anos), o tempo de enfrentar o problema da estigmatização.

Desde a semana passada, em mais de mil cidades do mundo, uma quantidade incalculável de estudantes a apoiaram na luta para combater a crise climática. Ao mesmo tempo, os grandes meios de comunicação da Europa iniciaram uma campanha de ridicularização que pode ser entendida como o primeiro caso de bullying global. Sua vítima é essa adolescente sueca. Uma menina que foi diagnosticada, aos 10 anos, com síndrome de Asperger.

Ela mesma já relatou, em uma palestra TED, diante de um enorme auditório, que sempre foi muito calada, muito solitária, uma pessoa que só fala quando é realmente necessário. Com voz sempre pausada e meditando palavra por palavra, disse nessa conversa, olhando para o público: “por isso estou falando hoje aqui, porque é realente necessário”.

Aos 14 anos, ela considerou que também era realmente necessário falar para multidões sobre a crise climática, e em auditórios como o Parlamento Europeu ou o Foro de Davos, porque foi compreendeu a dimensão histórica de sua causa: se sua geração não atuar agora, eles serão os adultos que enfrentarão os problemas de um planeta que caminha para não ser mais viável. Portanto, é preciso ir às ruas agora, porque está em risco o seu futuro.

Segundo todos os diagnósticos científicos, as emissões tóxicas têm que começar a ser reduzidas agora! Não “em breve”, porque depois já não haverá mais tempo. Nesta mesma semana, 20 mil cientistas de todo o mundo aderiram ao movimento Sexta-Feira pelo Futuro, que reúne os estudantes de mais de cem países, cujo primeiro grande passo foi dado no dia 15 de março. “Os jovens têm razão”, foi o título do documento de adesão.

A crise climática provocará desastres e desequilíbrios no ecossistema de uma forma irreversível e sem precedentes em milhares de anos. Quando Greta entendeu isso, ela decidiu iniciar sua greve, e despertou o movimento. Começou sozinha, faltando às aulas todas às sextas-feiras, para protestar pela falta de decisões políticas mundiais para acabar com a crise climática.

Em dois anos, o que começou como uma atitude decidida de uma menina em defesa do seu direito, e dos seus filhos e netos, de viver neste planeta, se tornou um fenômeno global. Os grandes meios a questionaram ou a ocultaram, como fazem com tudo o que lhes parece incômodo ou ameaçante. Mas em mais de mil cidades, a influência de Greta Thunberg levou milhares e milhares de adolescentes a marchar para que seus governos tomem medidas com relação às emissões tóxicas, e para que o sistema não siga acelerando a extinção das espécies, pois a humana também é uma das que está em risco.

Mas a imprensa fez muito mais que ignorar esse movimento. Quando o movimento Sextas-Feiras pelo Futuro se tornou visível apesar do bloqueio midiático, graças às redes sociais, começou um ataque simultâneo de ridicularização e degradação da figura de Greta. Primeiro, a mostraram comendo uma banana. Como não há bananas na Suécia, a foto pretendia ser uma denúncia de que Greta a estava comendo graças ao combustível usado para trazer a fruta desde um país tropical. A mostraram com seus cachorros, indicando que eles comem carne, e portanto, ela tampouco seria consequente nesse sentido. Mas o ataque mais desagradável foi o do diário francês Le Figaro, através de um comentário não filtrado e que se referiu à síndrome de Asperger de Greta: alguém opinou que era “uma vergonha ver tantos jovens se deixando liderar por uma zumbi”.

A voz de Greta ainda não conseguiu perfurar o silêncio imposto pelos grandes meios, mesmo com sua lógica rasante, direta e áspera, nem com o que ela disse no Parlamento Europeu: “sei que vocês não gostam de me ver aqui, e eu tampouco queria vê-los, porque não fizeram o que tinham que fazer. Nós vemos os informes científicos, o que pedimos é que ouçam o que os cientistas estão dizendo, porque quando nós formos os adultos, já seja tarde demais para reverter”.

O movimento Sextas-Feiras pelo Futuro encarna o sentimento de uma geração que começa a fazer política a partir dessa bandeira vital e poderosa. Com seus próprios corpos, eles gritam, protestam, e desenvolver seu pensamento. Seus corpos reclamam o direito ao habitat. Eles alertam, com muito mais claridade e precisão que as outras gerações, sobre a gravidade deste momento limite. Eles estão se configurando em um importante setor da resistência global ao modelo tanático que está nos avassalando.

O poder das finanças, dos transgênicos, das patentes, dos abutres, enfim, a ala mais dura da direita que colocou sua pata suja sobre tantos territórios, e que nega a crise climática. Para Trump, se trata de uma “mentira da esquerda”. E é nesse contexto de resistência ao efeito de irrealidade propagado pela direita que se deve ler este inédito movimento liderado pela menina de tranças loiras, que afirma eloquentemente: ou se atua agora ou não haverá lugar seguro na Terra para que os que hoje têm quinze anos vivam suas vidas e tenham seus filhos, e continuem assim com a perpetuação da espécie.

A política da direita global promove a morte em diversas formas: guerras, fome, catástrofes naturais, tiros pelas costas, como os que recebem os líderes sociais no Peru e na Colômbia, ou os moradores das favelas do Brasil, além de homens e mulheres dos povos originários, que estão mortos por defender os recursos naturais. Pessoas que travaram a mesma luta que a de Greta Thunberg, mas em outra região, e em outra linha histórica. A demanda é a mesma: querem vida! Viver! Querem o necessário e suficiente para que a vida seja possível. Querem o equilíbrio indispensável para viver.

Esta é a questão sobre a qual transcorrem nossas próprias e assombrosas circunstâncias nacionais. Não custa muito compreender que há um poder feroz que está por cima de todos nós, e que é indecifrável, mas que tem a capacidade de zelar para que nada detenha a morte. Também podemos perceber, com certa esperança, que há sincronias históricas não menos assombrosas, e que a resistência a esse projeto de morte cresce e se nutre de fenômenos impensados. Greta e sua geração já são um novo fator global, que colabora com seu enorme grão de areia na luta pelo projeto da vida. Greta é um sintoma da regeneração da vida.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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