Antifascismo

Sobre muros, milícias e trágicos desfechos

O autor do tiroteio massivo em El Paso, Texas viajou mais de 10 horas da casa dos seus pais (em Allen, Texas) até o local onde realizou seu objetivo bem planejado: assassinar a maior quantidade possível de mexicanos que encontrasse em um supermercado Walmart, numa manhã de sábado. Patrick Crusius sabia bem das suas motivações.

08/08/2019 13:24

 

 
Em um breve documento chamado “Uma verdade inconveniente”, ele escreveu: “diante da destruição do país nas mãos das corporações, dos democratas e dos imigrantes, é necessário tomar ações drásticas”. Comparou seus procedimentos com os de uma guerra e questionou que as ações violentas do Estado tenham maior legitimidade que a de cidadãos patriotas, como ele. Não se pode descartar que o jovem de 21 anos sofra com algum transtorno mental, mas isso não tira o peso do terror do seu ato, e o fato de que ele se enquadra em uma racionalidade miliciana, antes considerada extrema, e que agora tem sido naturalizada pelo mainstream da política e da sociedade estadunidenses. Nesta perspectiva, promovida por Donald Trump e pela Casa Branca, a populosa metrópole fronteiriça de 3 milhões de habitantes composta por Juárez, El Paso e Sunland Park é uma zona crítica, onde se decide o destino do seu país.

Em uma reportagem publicada em maio pelo The Intercept, a jornalista Debbie Nathan detalhou como opera um grupo de milicianos agrupados na organização denominada Patriotas Constitucionalistas Unidos (UCP, por sua sigla em inglês). Uma célula desta organização acampou durante semanas nos arredores de Sundland Park, no pé do emblemático morro de Cristo Rey. Nesses dias, se dedicou a hostilizar e a prender os imigrantes que tentavam cruzar a fronteira. Equipados com uniformes, armas reais e distintivos policiais falsos, seus membros atuavam organizada e impunemente, e inclusive em conjunto com a Patrulha Fronteiriça. Seus vídeos circulam nas redes sociais e podem ser consultados no YouTube, em postagens com títulos que incentivam outros patriotas a também ir até a fronteira, de forma voluntária. O objetivo dos UCP era documentar uma suposta crise, e frear a iminente invasão estrangeira. Sua presença se deu apenas alguns dias depois que Trump esteve em El Paso, em um ato de campanha diante de 7 mil simpatizantes, sob o lema de “terminem o muro”. Depois, partiram do Texas e do Arizona, mas parte substancial dos participantes era gente de El Paso. Não se deve estranhar esse dado. El Paso é uma cidade de enorme presença latina, onde se perceber um também grande sentido de solidariedade com os imigrantes, que se expressa em organizações históricas, como a Casa Anunciación e a Border Network for Human Rights. Entretanto, também é onde está a sede do Fort Bliss e outros setores que cultivam uma mentalidade de guerra contra os mexicanos e centro-americanos. A Patrulha Fronteiriça é uma importante fonte de emprego na região. Isso explica a existência de grupos patrioteiros e protofascistas, alimentados pelos trumpismo.

Com a prisão do comandante dos UCP, Larry Mitchel Hopkins – após ele ter confessado a várias testemunhas que seu grupo planejava assassinar Barack Obama, Hillary Clinton e George Soros – o acampamento foi evacuado e deixou o lugar onde estava instalado. Alguns milicianos abandonaram a fronteira e o grupo mudou de nome para Patriotas Guardiães. Desde então, afinaram melhor sua estratégia de aterrorizar os imigrantes com tarefas de proselitismo cujo objetivo é capitalizar o ressentimento local. Jim Benvie surgiu como o novo líder e recrutou Anthony Aguero, do Partido Republicano de El Paso: um latino com antecedentes criminais por violência de gênero que se faz passar por jornalista. Aguero se viste como repórter fotográfico e carrega um tripé onde coloca do seu celular. Com esse equipamento, ele produz alguns dos vídeos mais horripilantes do grupo. Benvie e Aguero também organizam atos sociais em restaurantes e caravanas patrióticas até fronteira, para demostrar a vulnerabilidade das linhas nacionais e justificar o muro de Trump.

Essas ações acontecem dentro de uma maquinária bem financiada. Em maio passado, foi erguido um muro em uma terra privada, a poucos metros da fronteira, em Sunland Park, onde Benvie e seus seguidores estiveram perambulando. São terrenos de uma empresa fabricante de tijolos, propriedade de George Cudahy e Jeff Allen, personagens de certa influência na comarca. O projeto foi financiado por doadores de todo o país, através da companha We Build the Wall (“nós construímos o muro”), fundada por Ken Kolfrage e conformada por um conselho de administração no qual figura Steve Bannon, o guia da ideologia que levou Donald Trump à Casa Branca e Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, entre outros mandatários eleitos nos últimos anos. Segundo Debbie Nathan, o paramilitar Benvie foi o intermediário entre Kolfrage e os terra-tenentes locais.

We Build the Wall arrecadou 22 milhões de dólares através de uma campanha de financiamento aberta na Internet, e com isso contrataram os trabalhos da empreiteira Fisher Enterprises. Após finalizar a obra, organizaram um simpósio, no qual Bannon esteve presente. Explicaram com orgulho os avanços na construção. O tom das suas palavras é assustadoramente parecido ao de Crusius em seu manifesto dedicado a discutir as características e limitações do armamento que decidiu usar no massacre que estava prestes a realizar. Durante o simpósio, Tommy Fishher descreveu sua maquinária e mão de obra como um operativo militar. O qualificou como “nosso pequeno Dia D”. Outro indivíduo identificado somente como Foreman Mike foi mais claro: “essa gente não vem aqui para beijar a sua irmã, e sim para causar problemas e para roubar o seu dinheiro. Isso tem que acabar. Vocês, os patriotas americanos, são os que estão liderando este ataque”. Se referia a Benvie e Aguero, a alguns outros seguidores que os escutavam, em uma carpa instalada ao lado do trecho de muro recém construído, e também a milhares de pessoas que os seguiam por videostreaming. Ele concluiu sua fala dizendo que “este é somente o primeiro tiro”.

O ocorrido em El Paso é consequência lógica de um elaborado esforço por expressar um discurso de ódio em sentido pleno. Crusius talvez tenha sido um atirador solitário, mas sabia que atuava em nome de uma missão que representava a muitos. O peso da lei cairá sobre sua cabeça, em um Estado bárbaro onde ainda não existe a pena capital, mas deve ficar claro que não foi ele que deu o primeiro tiro.

Willivaldo Delgadillo é professor da Universidade do Texas, em El Paso, novelista, ensaísta e tradutor

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli



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