Antifascismo

Torcedor é preso no estádio do Corinthians por protestar contra Bolsonaro

"Eles me fecharam na salinha e começaram a me humilhar. Cada hora ia um lá, falando 'você não é valentão?'. Eles me deixaram no chão em uma posição que a minha perna ficou virada, por causa da prótese. Eu pedia ajuda para sair da posição e eles só ficavam lá me olhando, me humilhando. Eu fiquei uns 40 minutos nessa salinha", relatou Lemes, torcedor corinthiano

07/08/2019 10:53

Rogério Lemes é frequentador assíduo da Arena Corinthians e garante que não vai mudar após episódio deste domingo (Arquivo Pessoal)

Créditos da foto: Rogério Lemes é frequentador assíduo da Arena Corinthians e garante que não vai mudar após episódio deste domingo (Arquivo Pessoal)

 
Um fato que se tivesse sido na Venezuela estaria em todos os meios de comunicação, com a maior repercussão possível, mas que teve cobertura pequena e sem maior escândalo da mídia (será que por ter acontecido neste Brasil de extrema direita de Jair Bolsonaro?), ocorreu na noite deste domingo (4/8) e foi traumático para Rogério Lemes, um corinthiano que foi ao estádio para ver a partida da sua equipe (contra o clássico rival, o Palmeiras), mas que terminou sendo vítima de um abuso policial por razões políticas.

O caso teve lugar no estádio Arena Corinthians, na cidade de São Paulo. Antes do pontapé inicial, quando Lemes acabava de entrar no estádio, ainda durante a execução do hino nacional brasileiro, decidiu soltar um grito contra o presidente: “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu”. Talvez imaginando que tinha liberdade de expressão para isso, em um país como o Brasil. Mas não tardaria em descobrir que já não é assim.

Segundos depois do grito, um policial o tomou pelo pescoço e o sufocou até deixa-lo no chão, onde outros policiais o algemaram e o levaram para fora do estádio até uma delegacia próxima. “Fui levado aos empurrões para fora do estádio. Eu tenho uma prótese em uma das pernas, e apesar de ter explicado isso, eles continuaram em empurrando”, contou o torcedor.

Em entrevista com a jornalista Mayara Munhoz, que também é editora do sítio Meu Timão, especializado em notícias sobre o Corinthians, Lemes contou que passou mais de uma hora na delegacia, onde foi agredido e humilhado por efetivos da Polícia Militar.

“Eles me fecharam na salinha e começaram a me humilhar. Cada hora ia um lá, falando 'você não é valentão?'. Eles me deixaram no chão em uma posição que a minha perna ficou virada, por causa da prótese. Eu pedia ajuda para sair da posição e eles só ficavam lá me olhando, me humilhando. Eu fiquei uns 40 minutos nessa salinha”, relatou Lemes.

Após esse período, quando permitiram a ele falar com uma autoridade policial, Lemes perguntou a razão de sua detenção, mas não obteve resposta.

“Na delegacia, a mulher pediu para contar o que tinha acontecido. Antes de contar, eu perguntei para ela: `eu quero saber, por que estou aqui? Por que estou algemado? Qual o crime que eu cometi?´. Ela disse para mim: `você não cometeu crime nenhum´. Ela disse que não era o lugar certo para manifestações e eu aleguei que a Constituição me dá esse direito, que eles não podiam fazer isso comigo. Ela meio que tentou apaziguar a situação. Eu falei que fui agredido, que fui humilhado e ela não colocou nada disso no boletim de ocorrência. Mas naquele momento, eu estava com medo. Os caras chegam a te agredir, a te humilhar, então, para fazer mais coisas não precisa de muito”, comentou Rogério Lemes.

Ademais, o torcedor também assegura que jamais houve uma advertência anterior à ação: “se os caras chegam e falam `meu irmão, sei que você tem liberdade, mas a ordem da gente é não permitir isso, não faz isso não´. Se eles trocam ideia, eu não sou tonto. Você acha que eu vou entrar em uma com os caras? Não sou burro. Mas o cara já chegou e logo me jogou no chão. Não teve conversa”.

Por sua parte, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo alegou que, segundo o seu conceito, o caso de Lemes não se considera uma detenção. “O indivíduo foi conduzido ao Juizado Especial Criminal, onde se registrou uma `ocorrência não criminal´ contra ele, e logo foi liberado para que pudesse voltar e assistir à partida de futebol”. Entretanto, Lemes afirma que só conseguiu entrar no estádio de volta cinco minutos antes do final do jogo – quando o marcador já apontava o 1x1, que seria o resultado final do encontro.

O torcedor também lamentou o fato de que o Corinthians (conhecido pelo histórico movimento da Democracia Corinthiana, em plena ditadura brasileira) não lhe deu nenhuma ajuda, e tampouco se manifestou sobre o caso – embora, na verdade, se manifestou sim, mas somente nesta terça-feira (6/8).

Mais de 30 horas depois do ocorrido, foi publicada uma nota dizendo que “a administração do estádio Arena Corinthians e do Sport Club Corinthians Paulista repudiam o episódio que resultou na prisão do torcedor Rogério Lemes (…) o clube reitera seu compromisso histórico com a democracia e a defesa do direito constitucional da livre manifestação, sempre observando os princípios da civilidade e da não violência, e recorda que diferentes autoridades, entre elas o própria presidente do clube, já foram alvos de manifestações da torcida durante os mais variados eventos esportivos realizados no local, e por isso este episódio se caracteriza como um grave atentado às liberdades individuais e ao Estado Democrático de Direito”.

*Com informações do El Desconcierto e do Meu Timão



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