Antifascismo

Travestis e transexuais: corpos estranhos?

 

08/10/2020 12:11

Linn da Quebrada: atriz, cantora, compositora, roteirista e apresentadora (Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: Linn da Quebrada: atriz, cantora, compositora, roteirista e apresentadora (Reprodução/Facebook)

 

Caro leitor, começamos esse texto fazendo-lhe uma indagação: o que incomoda pessoas cisgêneras frente às travestis e transexuais? Todo ser humano é constituído de relações interpessoais, algo que nos remete à vida em sociedade e a convivência com diversos aspectos das relações humanas. A humanidade necessita de reconhecimento enquanto ser, a partir disso, podemos dizer que fazemos parte do mundo e da sociedade, mas grande parte do cistema ainda tenta de certo modo rebelar-se contra a população trans e travesti. O que queremos dizer com isso? Que há uma clara batalha travada pela cisgeneridade diariamente, não reconhecendo travestis e transexuais como sujeitos de direito.

Contudo, de que modo isso ocorre? Uma forma é a perpetuação de frases bíblicas, como, por exemplo, “homem nasce homem” e “mulher nasce mulher”, em que argumentos biologicistas, como vagina e pênis, reforçam o status quo. Com isso, a intolerância e o preconceito vêm aumentando gradualmente no Brasil. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), somente no primeiro semestre de 2020, o índice de assassinatos contra mulheres transexuais e travestis aumentou, chegando a marca de 89 transexuais e travestis mortas. Tudo isso devido a corpos socialmente considerados como não inteligíveis.

Na verdade, corpos trans e travestis estão trazendo outro significado de ser, de existir. Isso incomoda uma sociedade que perpetua um alinhamento compulsório entre sexo e gênero; a cisgeneridade passou a se sentir desconfortável com o trânsito de corpos em espaços que anteriormente eram negligenciados a essa população. Consequentemente, quando nos deparamos com as diferenças e diversidades, podemos questionar a própria identidade cisgênera. Todos esses fatos levam a sociedade a deslegitimar esse outro, um outro diferente e que representa a alteridade. De acordo com a eminente psicóloga Monique Augras, em O Ser da Compreensão, obra publicada em 1978, o ser humano é definido como um ser social e assim deve participar dos encontros com os demais. Isso reforça a necessária mudança da sociedade frente à população trans e travesti. Em sua obra, Augras (p. 64), afirma que “a compreensão de si se fundamenta no reconhecimento de coexistência, e ao mesmo tempo constitui-se como ponto de partida para a compreensão do outro”. Isso significa que a coexistência é também coestranheza. Todo esse estranhamento com esse grupo social pode indicar uma dificuldade de se relacionar com a própria alteridade. Quando há uma assunção a estranheza, abre-se um caminho à plenitude. Por outro lado, esse sentimento de estranheza, conforme Sigmund Freud (1856-1939), em seu texto O Estranho, de 1919, demonstra uma ansiedade, causada por um afeto que foi restrito e que retorna, sendo encarado como estranho. Na prática, o afeto dirigido às travestis e transexuais é sufocado pelas normas cisgêneras, logo, ele retorna como sensação de estranheza, podendo levar até mesmo ao ódio, como discutiremos mais adiante.

Fato concreto é que estamos distantes de perceber modificações na maneira como a sociedade cisgênera brasileira se relaciona com as travestis e transexuais. Percebemos que esse grupo social é constantemente violado por parte de pessoas que não querem e nem sabem lidar com suas especificidades. A consequência não poderia ser outra: cotidianamente, a mídia corporativa divulga eventos trágicos envolvendo essa população, a ponto de não se poder falar mais em genocídio, mas sim em uma guerra declarada, na qual travestis e transexuais são alvos.

Vivemos, de fato, em um cenário de Quadros de Guerra, obra de Judith Butler, publicada em 2009, em que a autora retrata a existência de certas vidas como não sendo qualificadas enquanto vidas. Consequentemente, se essas vidas não são consideradas vidas, isso implica dizer que elas jamais serão vivenciadas, tampouco perdidas. Nessa perspectiva, existem pessoas que não são identificadas como tais e que dificilmente serão. Na prática, isso delineia uma pessoa como passível de reconhecimento ou como corpo desimportante, o qual sequer é considerado como digno de luto: estamos falando das travestis e transexuais, haja vista seus corpos serem objetificados e hipersexualizados, em uma matriz cisgênera e heteronormativa, a qual regula o funcionamento, a passabilidade e especialmente, o extermínio desses mesmos corpos, tidos como inelutáveis.

Caro leitor, permita-nos ser realistas e lhe perguntar: quando a sociedade brasileira vai compreender a necessidade da convivência pacífica com as travestis e transexuais? Quando veremos esses corpos trabalhando em lojas, farmácias, fábricas e postos formais de trabalho em geral? Quando deixará de ser extraordinário um homem cisgênero e heterossexual assumir publicamente um relacionamento amoroso com uma travesti ou pessoa trans? Essas questões nos remetem a essência do pensamento colonialista pertencente às elites brasileiras e que reverberam em todos os estratos sociais: o corpo pelo qual a sociedade nutre diariamente ódio é o mesmo pelo qual ela busca na clandestinidade para satisfazer seus fetiches. Há aqui uma relação de amódio, neologismo utilizado por Lacan, em seu Encore (1972-1973/2010), Seminário 20, que se refere a proximidade do amor/atração/desejo com o ódio: em uma relação dialética, esses afetos se misturam e no processo de viver o erotismo, o amor, por ter a característica da falta possibilita a entrada do ódio no cenário. Em termos simples, o ódio às travestis e transexuais é constituído pela aproximação do amor/atração/desejo rechaçado pela sociedade. Ora, se suas vidas são negadas, como seria possível para uma sociedade cisnormativa conceber a existência de seus corpos em espaços de poder? Se sua vida é negada, como essa mesma sociedade admitiria a essa população vivenciar seus amores fora do sigilo?

Nesse cenário bélico, há três opções: ou a sociedade brasileira se omite, ou se corrompe e não reelabora o ódio que sente e dissemina contra esse segmento, ou parte para uma ressignificação desse afeto destruidor. O tempo e os embates entre uma gestão federal necropolítica, a qual se apresenta hostil contra toda forma de pensamento democrático, e a sociedade civil organizada – movimentos sociais, universidades, sindicatos, etc – nos mostrará qual o caminho será tomado pela civilização: continuaremos vivendo esse mal-estar cultural, em que corpos gênero-divergentes são assujeitados e ao mesmo intensamente desejados? Ou iremos retomar o marco civilizatório de respeito à vida e às singularidades?

Acreditamos no triunfo das subjetividades, no êxito do reconhecimento aos direitos do outro e na evolução do processo democrático. Em momento de obscurantismo e pandemia, precisamos meditar nas palavras de Olga Gutmann Benário Prestes (1908-1942): “em tempos difíceis, é preciso pensar em alguma coisa bonita”.

Fabianna Mello Oliveira é Graduanda em Psicologia. Travesti. Membro do grupo de gênero do Conselho Regional de Psicologia da 2ª Região. Estudante de psicologia da Fafire. Integrante da Comissão de Gênero e Sexualidade do CRP 02. Participante do grupo de estudo Infância Trans/Travesti do Nupsex. Instagram: @lindaloirachique | Facebook: https://www.facebook.com/fabianna.melo 

Armando Januário dos Santos (Armando Januário) é Mestrando em Psicologia. Psicólogo. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. Instagram: @januario.psicologo | Facebook: https://www.facebook.com/armando.januariodossantos 


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