Antifascismo

Trump cede (um pouco) para evitar críticas por tratamento a crianças imigrantes

A decisão do presidente estadunidense Donald Trump de assinar um decreto para desfazer o protocolo que impunha a separação de menores imigrantes dos seus pais e acompanhantes adultos deve ser visto como uma primeira vitória da pressão mundial sobre o mandatário, embora também signifique uma continuidade da sua política de 'tolerância zero' em tema migratório

22/06/2018 13:46

 

 
Por Gerardo Villagrán del Corral
 
A decisão do presidente estadunidense Donald Trump de assinar um decreto para desfazer o protocolo que impunha a separação de menores imigrantes dos seus pais e acompanhantes adultos deve ser visto como uma primeira vitória da pressão mundial sobre o mandatário, embora também signifique uma continuidade da sua política de “tolerância zero” em tema migratório.

Entretanto, ninguém sabe se todas as mais de 2,3 crianças separadas nas últimas semanas serão reunificadas com seus pais, nem como, nem quando. Muitas das crianças foram enviadas a albergues em 17 estados diferentes ao redor do país e alguns dos pais já foram deportados. Funcionários informaram que os menores separados não serão reunificados imediatamente.

Trump, encurralado pelo furor que foi crescendo em todo o país e no mundo, e abandonado até pelo seu próprio partido, aliados religiosos e meios de comunicação leais que se negaram a apoiá-lo nesta questão, fez o que há poucos dias atrás disse que não seria possível: assinou uma ordem executiva para suspender imediato a tarefa de separação de menores de idade dos seus padres migrantes como parte do protocolo.

Este escândalo serviu, paralelamente, para invisibilizar outro fato grave: a saída dos Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, instância à qual a embaixadora estadunidense Nikki Haley, chamou de hipócrita, egoísta e uma cloaca de preconceitos políticos – por parte dos defensores dos direitos humanos.

Com o pretexto de uma “tolerância zero” para com a entrada estrangeiros indocumentados no país, Trump ordenou tais separações como forma de dissuadir aqueles que tentam entrar nos Estados Unidos em busca de trabalho, de sobrevivência ou de melhores horizontes de vida.

Desde abril deste ano, Washington começou a aplicar essa prática desumana, cruel e contrária aos direitos humanos por governos, questionada por organismos internacionais e organizações sociais de muitos países, e também por muitos setores estadunidenses. Trump buscava, com essa medida, pressionar a oposição democrata no Capitólio para forçá-la a liberar recursos para a construção do muro que pretende edificar na fronteira comum com o México, e a aceitar uma legislação migratória ainda mais cruel.

Como medida adicional de chantagem, Trump deixou os chamados dreamers (indocumentados que chegaram ao país como menores de idade) em total falta de proteção legal. Os dreamers são jovens e crianças que fizeram sua vida nos Estados Unidos, mas carecem de autorização para permanecer nesse território.

Em termos políticos, esta crise representa uma circunstância inédita na carreira política de Trump, pois se viu forçado a recuar de uma determinação já assumida, em uma de suas políticas mais emblemáticas. E isso, junto com o fim do sofrimento familiar de m milhares de pessoas, é uma vitória para todas as pessoas de boa vontade, estadunidenses ou não, que enxergam nele um grande inimigo da legalidade, da ética, da convivência pacífica, dos valores democráticos e das liberdades.

Acompanhado pelo vice-presidente Mike Pence e pela secretaria de Segurança Interna Kirstjen Nielsen, Trump assegurou que “vamos a manter uma fronteira muito poderosa e continuar com o princípio de tolerância zero – não haverá tolerância para aqueles que entram ilegalmente em nosso país”.

A ordem executiva assinada por Trump modifica a prática de separação das famílias indocumentadas por uma detenção em conjunto, o que não é suficiente para atender a crise sofrida por milhares de crianças e adultos migrantes, segundo o denunciado por organizações civis mexicanas.

“Exigimos que o governo dos Estados Unidos respeite os direitos humanos que vem violando desde os últimos e diferentes períodos governamentais, que parem com as detenções arbitrárias e ilegais; que deixem de perseguir os mexicanos, e também os centro-americanos, e também aqueles que vêm do Oriente Médio”, reclamou Rodrigo Guillot, porta-voz da Rede Estudantil pela Democracia.

Na sua opinião, as autoridades mexicanas “estão subordinando a política exterior, e inclusive a política interior do México aos interesses estadunidenses”.

María García, representante da Coalizão Binacional contra Trump, declarou que “esta situação (a política de separação dos menores dos pais) é somente a ponta do iceberg, já que os últimos acontecimentos só foram condenados pela opinião pública quando as imagens foram reveladas”. Contudo, ela lembra que a prática de separação das crianças indocumentadas é um problema que já existe há muitos anos, que ocorreu também durante o governo de Barack Obama (2009-2017) e que há pelo menos 12 mil migrantes detidos em 17 diferentes albergues.

A ordem executiva de Trump não suaviza a criminalização dos indocumentados, e tampouco assegura que os menores e adultos detidos nos “campos de internação” – para usar um termo que não suscite maiores comparações – poderão permanecer no país. Só serve para dar um fim a uma crise imediata, devido às cenas que mostravam o drama das famílias desfeitas e como isso gerou rapidamente um consenso nacional e mundial contra Trump, e também dentro do próprio mundo político estadunidense, incluindo muitos dos seus correligionários republicanos.
 
Gerardo Villagrán del Corral é antropólogo e economista mexicano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



Conteúdo Relacionado