Antifascismo

Um acinte à memória de Marielle

Vivemos num país em que a mediocridade branca desfila segura de si

14/03/2020 13:08

(Linoca Souza/Folhapress)

Créditos da foto: (Linoca Souza/Folhapress)

 
José Padilha escreveu um texto à Folha se dizendo vítima de um linchamento moral e usando argumentos desonestos como o de dizer que Malcolm X foi assassinado por negros negando o papel do ódio racial criado pela supremacia branca.

Não discute a construção social do racismo e como homens como ele se beneficiam historicamente disso e, ainda, põe foco nas pessoas negras, como se pessoas brancas também não pudessem odiar umas às outras. Isso, tendo em vista que ele mesmo dirigiu “O Mecanismo”, “ópera” mal-intencionada de brancos contra brancos.

Além disso, afirma nunca ter sido chamado de fascista à época do lançamento de “Tropa de Elite”. Bom, necessário dizer que a palavra linchamento deriva de William Lynch, um senhor de engenho conhecido por castigar pesada e severamente pessoas negras escravizadas.

Essa lógica ainda perdura atingindo, majoritariamente, homens negros, como forma de punição e controle social.

O filme “O Nascimento de uma Nação”, de 1915, é apontado nos Estados Unidos como um marco por retratar homens negros como irracionais, predadores sexuais contra mulheres brancas e por glorificar a Ku Klux Klan, a KKK. Filas se amontavam e foi à época o maior sucesso de bilheteria da história do país, impactando significativamente o pensamento racial com a construção narrativa negativa sobre pessoas negras, sobretudo na construção da imagem do homem negro violento e abusador em potencial.

No Brasil, “Tropa de Elite” é um grande marco para identificação da população brasileira com a violência policial. Recorde de público no ano de 2007, o longa retrata Capitão Nascimento, um policial militar comandante da tropa que faz incursões em comunidades pobres do Rio de Janeiro para o pretenso combate ao “tráfico de drogas” de forma implacável.

Há diversas passagens no filme com exibição de diferentes tipos de torturas —todas essas, no entanto, justificadas para um bem maior, uma informação necessária—, além de assassinato de jovens periféricos em meio a palavras de ordem proferidas pelo herói, um bom pai, preocupado com o bem-estar social e que também é o narrador de todo o filme.

Ao subirem os créditos nos cinemas, muitas pessoas se levantaram para aplaudir, comentavam nas escolas e em seus trabalhos e foram envolvidas pela narrativa; programas de rádio e televisão dedicaram longas matérias efusivas à “genialidade” da obra, camisetas foram feitas, músicas gravadas.

Tamanho foi o sucesso do filme que mais de dez anos após sua estreia, algumas de suas expressões mais célebres estão cristalizadas no vocabulário brasileiro.

É comum ouvir de uma pessoa, ao se impressionar com a potência de outra, dizer que “ela é faca na caveira” —que remete ao símbolo do Bope, divisão da polícia glorificada por sua letalidade.

“Homens de preto, qual é a sua missão? É invadir a favela e deixar corpo no chão!” era uma das músicas cantadas pelos novatos enquanto corriam no ritual. Perguntamos: de que corpos estão falando? Sabemos muito bem.

Nesse sentido, “Tropa de Elite” foi para o Brasil na construção de narrativas, símbolos e condutas, o que o “Nascimento de uma Nação” foi para a época nos Estados Unidos.

Se no norte, a obra serviu para a fixação do homem negro como violento e sexualmente perigoso, o que serviu para justificar o superencarceramento e o linchamento (real) de homens negros; no sul, o longa brasileiro serviu à glorificação do abuso policial, à normalização da execuções de corpos favelados e ao atraso do debate sobre a legalização do tráfico de drogas —tudo aquilo contra o que Marielle Franco, como vereadora e pesquisadora, se levantava.

Se José Padilha não foi chamado de fascista, que bom que o tempo se encarregou de descortinar o discurso de ódio do filme responsável por encorajar unidades de polícias letais.

Vivemos num país em que a mediocridade branca desfila segura de si, enquanto produz obras que glorificam e mentem para beneficiar um ministro da Justiça de um governo com inexplicáveis ligações com milícias. Mais uma vez ignoram os cineastas negros mostrando que o audiovisual brasileiro segue sendo uma farra de poucos amigos.

Sua presença em qualquer obra referente a Marielle é um acinte de um homem que quer melhorar sua imagem usando a história de uma mulher que denunciou o que ele filmou em “Tropa de Elite” e “O Mecanismo”. Padilha revolucionária é a Maria, entidade de religiões de matrizes africanas para a qual, quando chega, cantam: “Arreda homem, que aí vem mulher!”.

*Publicado originalmente em 'Folha de S. Paulo'





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