Antifascismo

Unicamp abre inscrições para o curso 'O Golpe de 2016 e futuro da Democracia'

Confira entrevista com Armando Boito Jr, professor de Ciência Política da Unicamp, sobre o curso livre e multidisciplinar. Inscrições vão até dia 08/03

06/03/2018 11:59

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Créditos da foto: Reprodução

 
Nesta segunda-feira (5 de março), a Unicamp abre as inscrições para o curso livre e multidisciplinar “O Golpe de 2016 e o futuro da Democracia no Brasil” (saiba mais). Ela está entre as várias universidades brasileiras que, neste semestre, ofertarão cursos sobre o golpe de 2016, em solidariedade à Universidade de Brasília (UnB) e, sobretudo, em defesa da autonomia universitária e da liberdade de cátedra.

Esses dois princípios, fundamentais à pesquisa científica, foram ameaçados na quarta-feira (21.02) retrasada, quando o ministro Mendonça Filho (Educação), irritado com o conteúdo do curso – idealizado pelo professor Luis Felipe Miguel (Ciência Política) da UnB – ameaçou acionar a Advocacia-Geral da União, a Controladoria-Geral da União, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público Federal para “apurar se há algum ato de improbidade administrativa ou prejuízo ao erário a partir da disciplina”.

A reação das universidades não tardou e veio em cascata. Além da UnB (até este momento) darão o curso sobre o golpe de 2016 neste semestre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal do Rio Grande do SUL (UFRGS), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Estadual Paulista (UNESP), Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ). E mais: a Universidade de Bradford, da Grã Bretanha, incluiu o curso em sua grade.

Na avaliação de Armando Boito Jr., professor de Ciência Política e integrante da Comissão Organizadora da disciplina na Unicamp, a adesão tende a crescer, “a cada dia vejo a notícia de um novo curso que está sendo montado”. Em entrevista à Carta Maior, ele analisa a importância da reação das universidades neste momento do golpe e conta como será o curso oferecido pela Unicamp entre 12 de março e 26 de junho.

Acompanhe:

Professor, o que motivou a organização da disciplina sobre o golpe na Unicamp?

Armando Boito Jr.
- A ideia foi motivada pela indevida intromissão do ministro da Educação nos assuntos universitários. Ao ameaçar processar por improbidade administrativa o colega Luis Felipe Miguel, pelo fato dele estar oferecendo um curso, pelo título e conteúdo dessa disciplina, o ministro ameaçou a liberdade de cátedra e a autonomia universitária. Nós esperamos que ele não dê o passo seguinte que seria, de fato, partir para a violação desses princípios.

Em função disso, em protesto contra esse ministro da Educação e em solidariedade ao colega perseguido, nós também vamos ministrar um curso sobre o golpe de 2016. Aliás, muitos estão procedendo do mesmo modo. O mais importante é que – seja ou não golpe – o ministro não tem o direito de intervir na universidade. Isso fere a autonomia universitária.

Durante a ditadura militar, nós tivemos perseguição contra professores que ousaram dizer que se tratava de uma ditadura. Então, é isso que ele está reeditando? Aqueles que entendem que houve golpe devem ser perseguidos? Isso é inaceitável. Desde 1985, isso não acontece no Brasil. Tem gente neste governo que quer restaurar práticas da ditadura militar.

O interessante é que o ministro entende que não houve golpe em 2016, mas o comportamento dele é o comportamento de um golpista que não respeita a democracia. Talvez a atitude dele seja uma das provas de que se tratou mesmo de um golpe.

O que significa, na prática, autonomia universitária?

Armando Boito Jr.
– Tradicionalmente nas democracias capitalistas, você tem liberdade de pesquisa. Não tem como regular, burocraticamente e legislativamente, o que deve ou não ser pesquisado. Esse caso do Luis Felipe não é isolado, nós temos um caso agora muito grave do colega e biólogo Elisaldo Carlini, de 88 anos, que pesquisa a utilização da cannabis sativa.

O professor Carlini é diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Unifesp, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Há milhares de citações do seu trabalho em publicações nacionais e internacionais, é uma pesquisa importante. Mesmo assim, ele foi chamado para prestar depoimento porque a Polícia Federal considera que ele, Elizaldo Carlini, de 88 anos, está fazendo apologia do uso da droga.

O governo, os poderes executivo e legislativo não podem intervir na universidade dizendo o que deve ou o que não deve ser pesquisado. O Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive, tem decisão sobre isso relativa à célula tronco. Nós entendemos – e tradicionalmente nas democracias se entende assim – que as Ciências Sociais merecem o mesmo tratamento das demais ciências.

No Instituto de Ciências Sociais da Unicamp, há professores que entendem que houve golpe de Estado em 2016 e professores que entendem que não, foi uma substituição normal de governo. É assim que funciona. Ninguém pode intervir na liberdade de pensamento e no pluralismo dentro da universidade. Estes são valores fundamentais para a pesquisa científica (incluindo as Ciências Sociais), para a formação dos estudantes e para o desenvolvimento cultural.

Precisa haver liberdade e pluralismo de pensamento e a universidade tem que ter autonomia. Elas são faces da mesma moeda. Isso não significa, de forma alguma, que você faz o que quer na universidade. Há regras a serem seguidas dentro do campo acadêmico.

Você pode ter um governo que estabeleça uma política científica para o país e que decida, por exemplo, investir 99% das verbas de pesquisa em Biologia, Física, Tecnologia e apenas 1% em Ciências Humanas. Nós protestaríamos e seríamos contra, obviamente, mas seria uma decisão de política governamental e não poderíamos evocar nenhum princípio que nos resguardasse.

O que está acontecendo agora não é uma questão de política de governo que visa direcionar o aparelho científico do país, em termos de objetos, temas, ciências, mais para uma direção do que para outra. O que a Dilma Rousseff fez quando surgiu a Chikungunya? Ela concentrou verbas em várias universidades que participaram e, rapidamente, elas tiveram resultados importantes para o combate da Chikungunya. Tivemos uma decisão governamental que interveio na vida e na organização das universidades, na mobilização de recursos.

Esse é um tipo de intervenção que você pode ser a favor ou não, mas contra a qual não há princípios a invocar. Outra coisa é quando você vai lá e interfere na liberdade de pensamento, de cátedra, de autonomia da universidade. Isso é muito diferente.

Como será o curso que vocês planejaram?

Armando Boito Jr.
– Inicialmente, seria um curso do departamento de Ciência Política, mas vários colegas quiseram entrar, então, será um curso multidisciplinar com professores da Ciência Política, Economia, Filosofia, História, Antropologia... Neste aspecto, aliás, nós atendemos uma das orientações do MEC que é a interdisciplinaridade.

Serão ministradas trinta aulas, divididas em três unidades. Uma destinada à caracterização dos golpes de Estado na teoria política e as novas formas de golpe de Estado na América Latina. Na segunda unidade, “O Golpe de Estado de 2016”, teremos várias aulas e vamos comparar os golpes de 2016 e 1964; analisar a fragilidade da democracia no Brasil, o contexto internacional, o pensamento e a ideologia da nova direita.

Teremos uma sequência de aulas sobre a dinâmica do golpe, incluindo as manifestações de 2013, divisão da classe média, manifestações pelo impeachment da Dilma e as em defesa do seu mandato. Vamos analisar, também, o capitalismo diante do golpe, o discurso da mídia, o parlamento e o processo de impeachment, o Judiciário no golpe; e fecharemos essa segunda unidade com a questão “Por que foi frágil a resistência ao golpe?”, essa aula, inclusive, eu vou dar.

Na terceira unidade, “As políticas do governo golpista e a resistência popular e democrática”, nós vamos examinar as mudanças que o golpe introduziu na política e na sociedade brasileira: o ataque aos direitos dos trabalhadores, às mulheres, às populações indígenas, às terras de ocupação tradicional; as medidas que liberaram a destruição ambiental; o ataque à educação e a censura às artes e fechamos a unidade analisando se o governo Temer é um regime democrático ou ditatorial.

Cada um desses temas será uma aula e cada uma das trinta aulas será dada por um professor que está pesquisando justamente a matéria que será trabalhada durante a aula. Será algo muito profissional.

Isso já inviabiliza o argumento de que o curso é panfletário.

Armando Boito Jr.
– A Folha de S. Paulo, em editorial, falou que o título do curso lembra os documentos do PT e que bastaria lê-los. Nós, então, podemos dizer sobre o discurso dos que negam o golpe: eles lembram os documentos do PSDB, do PMDB, não é?

Muitas das ideias presentes nas análises das Ciências Políticas têm livre trânsito nas mais diferentes correntes políticas. Aliás, nunca houve separação rígida entre prática e ciência política. Muitas vezes, os desinformados pensam que isso é próprio do marxismo, a unidade entre teoria e prática. Não é bem assim, o Weber, o Burke, o Maquiavel, o Locke, o Rousseau, vários deles, é difícil encontrar um clássico da teoria da ciência política que não tenha uma relação com a prática política. Isso, aliás, não é demérito do curso.

O demérito seria se nós violássemos as regras do campo acadêmico que consiste em apresentar uma tese, desenvolvê-la com rigor teórico e comprovação empírica, e a apresentá-la como verdade provisória. Você tem uma tese, então, precisa estar aberto para ouvir o argumento do outro e os fatos novos trazidos por outras pesquisas. Agora, se você apresentou essa tese é porque sua análise teórica, os fatos empíricos e as informações mobilizadas permitiram que você chegasse àquela conclusão.

Treze universidades já confirmaram cursos sobre o golpe de 2016. Como você avalia essa reação?

Armando Boito Jr.
– Essa reação é um ponto muito positivo e pelo visto vai crescer. A cada dia vejo a notícia de um novo curso que está sendo montado. Quem sabe a universidade assuma um papel mais importante na crítica ao governo golpista.

Eu fiquei muito contente em ver que somos capazes de, em uma semana, montar um curso com 30 aulas, 32 docentes, pesquisadores das áreas mais distintas, dispostos a falar sobre o tema e falar com base em suas pesquisas.

Esse curso não será “eu acho isso ou aquilo”. Ele não é resultado de uma opinião pessoal, mas do trabalho de colegas que estão pesquisando os temas que serão trabalhados. Aliás, se o Ministério da Educação tivesse o mínimo de conhecimento da função que deve desempenhar, ele deveria contribuir com a divulgação do nosso curso.

Em tempo:

Aos interessados em participar do curso livre “O Golpe de 2016 e o futuro da Democracia no Brasil” na Unicamp, as inscrições começam nesta segunda-feira (5 de março) e vão até o dia 8 de março. As aulas, sempre às segundas e terças (entre 17h e 19h), iniciam-se no dia 12 de março e vão até o dia 26 de junho. Elas acontecerão no Auditório Fausto Castilho, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Informações, clique aqui.



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