Antifascismo

Vá pra casa, General!

À sua complacência e ignorância agora se soma uma total falta de ética e de moral

13/12/2020 13:56

Eduardo Pazuello, em frente ao Palácio da Alvorada (Adriano Machado/Reuters)

Créditos da foto: Eduardo Pazuello, em frente ao Palácio da Alvorada (Adriano Machado/Reuters)

 
Foi entregue às pressas ontem, sábado 12 de dezembro, pelo Ministério da Saúde, ao Supremo Tribunal Federal, um “plano de vacinação”. A apresentação se deu com o claro intuito de impedir que uma ação interposta pelos partidos PSOL, Cidadania, PT, PSB e PCdoB, através da qual pretendiam que o governo fosse obrigado a apresentá-lo em trinta dias, viesse a ser julgada.

Ocorre que, pouco depois do fato ter sido noticiado pela imprensa, a equipe de trinta e seis pesquisadores cujas assinaturas constam no plano apresentado veio a público denunciar que seus nomes haviam sido incluídos no mesmo sem que tivessem ciência da versão apresentada.

A pesquisadora Ethel Maciel se disse surpreendida com o fato de que o documento tivesse sido entregue com suas assinaturas, pelo que poderiam responder judicialmente. Não só muitas de suas recomendações não foram acatadas como não foram consultados sobre o texto final.

Isto tem um nome: fraude, conhecido no Código Penal como estelionato.

Desde 15 de maio de 2020 o General Pazuello ocupa o cargo máximo no Ministério da Saúde. Primeiro como estagiário, período em que aprendeu o que era o SUS, depois como interino e, a partir de 16 de setembro, como ministro efetivo.

Sua nomeação se deu depois da passagem pelo Ministério de dois médicos que preferiram zelar pelos seus currículos do que seguir as ordens de um tenente sem CRM. Médico o General também não é, faltando-lhe igualmente o CRM, o que torna mais fácil, segundo explicado por ele, um mandar e o outro obedecer.

Assim, encaçapou que quem toma vacina é maricas e logo após as eleições municipais, quando os índices de contágio começaram a subir assustadoramente, disse em audiência no Congresso Nacional: ''Se esse vírus se propaga por aglomeração, por contato pessoal, por aerossóis — e nós tivemos a maior campanha democrática que podia ter no nosso país, que é a municipal, nos últimos dois meses —, se isso não trouxe nenhum tipo de incremento ou aumento em contaminação, não podemos falar mais em lockdown nem nada''.

A explicação para sua nomeação é o fato dele ser especialista em logística, palavra que vem do grego e significa habilidade de cálculo e raciocínio lógico. Ou seja, no caso, dominar o conjunto de métodos e meios necessários para entregar os produtos certos, no local certo, no tempo certo.

Mas parece em falta no personagem os dois elementos principais que deram origem ao termo: habilidade de cálculo e raciocínio lógico.

Seu total despreparo é, em grande parte responsável, pelo fato de que tínhamos, quando assumiu como estagiário, 14.962 mortos e, sete meses depois, ultrapassamos os 180 mil. Isto dá a assombrosa média, até agora, de 23.541 mortes por mês em sua gestão como ministro. A grande maioria morreu pelo despreparo de um homem que acumula o soldo de general com o de Ministro da Saúde, não tendo capacidade nem para uma coisa nem para a outra.

Um homem que obedece ordens, esquecendo-se que a obediência cega pode transformá-lo em cúmplice. Na Alemanha nazista um mandou, outros obedeceram e acabaram condenados à morte ou à prisão perpétua.

Como qualquer criança sabe, para tomar injeção é preciso uma seringa. Para tomar duas injeções são necessárias duas seringas. Para que uma população de 211,8 milhões de pessoas tomem as duas doses da vacina contra a Covid-19 serão necessárias 423.600 milhões de seringas.

Mas o General ainda está na fase inicial de negociações para a compra de 330 milhões de seringas e agulhas. Os fabricantes interessados têm prazo até 14 de dezembro para se manifestar, mas a Abimo (Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos), representante dos fabricantes do produto, já avisou que precisa de sete meses para entregar a quantidade que o Governo, apenas agora, pensou em encomendar. Acorda, General! Isto não é medicina. É logística.

Desde setembro todos sabem que a vacina da Pfizer deve ser armazenada a -70º. No entanto, em 3 de dezembro, o Ministério da Saúde comentou que a temperatura de armazenamento desta vacina era uma barreira para a compra da mesma. Apenas na quinta-feira, dia 10, o governo manifestou de maneira formal seu interesse na compra de 70 milhões de doses da vacina, mas a fabricante, que em 19/11 já havia fechado a negociação com mais de 30 países, informa que os termos e condições para o fornecimento ainda estão em fase de negociação. Acorda, General! Isto não é medicina. É logística.

Para que alguma vacina possa ser dada em caráter emergencial, ainda neste mês de dezembro, é necessário que a ANVISA conceda uma autorização de urgência para seu uso. Citando a vacina da Pfizer, aquela que ele não tem onde armazenar por não ter previsto os frigoríficos a -70º, o general disse em entrevista à CNN Brasil: "O uso emergencial pode acontecer agora em dezembro, por exemplo, em hipótese, se nós tivermos as doses recebidas, se nós fecharmos o contrato com a Pfizer”. (...) “Se a Pfizer conseguir autorização emergencial, e se a Pfizer nos adiantar alguma entrega, isso pode acontecer em janeiro, final de dezembro. Isso em quantidades pequenas, que são de uso emergencial....''. Me parece que tem muitas condicionantes, não? Acorda, General! Isto não é medicina. É logística.

A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, que está sendo produzida pela Fiocruz, só está prevista para fevereiro ou março. A Coronavac, produzida em parceria com o Instituto Butantã, que segundo o Governador João Doria, já pode começar a ser utilizada em dezembro, continua a ser motivo de disputa política entre o Governador e o tenente.

As vacinas contra a Covid 19 já estão disponíveis e começaram a ser aplicadas na Europa. Mas como o número de doses das que poderão ser produzidas em 2021, para atender a uma população mundial de cerca de oito bilhões de pessoas, é de apenas 2 bilhões de doses, não haverá vacina para todos.

A responsabilidade da compra e aplicação destas vacinas é exclusiva do Governo Federal que não tem, até agora, noção de como proceder. Não cabe ao Presidente da Câmara, como vem declarando, elaborar um plano. A providência que lhe compete é apenas a abertura de um processo de impeachment contra o tenente que, em mais um crime de responsabilidade, não tomou as medidas necessárias para salvaguardar, como é sua obrigação, as vidas dos brasileiros.

General, por tudo isto eu lhe peço que não volte para o quartel. Lá, o senhor continuará sob as ordens do tenente que gosta de arrotar ameaças de guerra a outros países. Se na logística do Ministério da Saúde o senhor é um desastre, imagino o que não acontecerá quando se tornar responsável pela logística de nosso Exército enfrentando um inimigo armado.

Quanto ao plano apresentado, qualquer plano que se preze deve obedecer a critérios mínimos que atendam ao que se destina. É aterrador que quando já passamos dos 181 mil mortos a vacina Coronavac tenha sido deixado de fora do mesmo. É criminoso que os detentos não tenham sido incluídos pois constituem um dos mais vulneráveis grupos de risco.

A conduta do tenente e seus sequazes é abominável e não pode mais ser tolerada pela nação que a cada dia se vê vilipendiada em sua dignidade.

E sua conduta ao apresentar este plano, General, certamente, no futuro, quando for criado um tribunal para julgar os responsáveis por mortes evitáveis, o enquadrará entre os mais culpados.

Vá para casa, General, é o melhor que o senhor pode fazer pelos civis e pelos militares. À sua complacência e ignorância agora se soma uma total falta de ética e de moral.





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