Antifascismo

Vereadora crítica da Polícia Militar assassinada no Rio de Janeiro

Marielle Franco foi atingida com quatro tiros na cabeça quando seguia num automóvel. Marcada vigília para esta quinta-feira em Lisboa

15/03/2018 13:10

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Créditos da foto: Reprodução - Facebook

 

A vereadora da câmara do Rio de Janeiro Marielle Franco, conhecida por criticar a actuação da Polícia Militar e a intervenção do Exército brasileiro na cidade no último mês, foi morta a tiro na noite de quarta-feira quando seguia no banco de trás de um automóvel. Franco foi atingida com quatro tiros na cabeça, o que leva as autoridades a acreditarem que se trata de um caso de assassínio político.

Marielle Franco tinha acabado de sair de uma sessão sobre o papel das mulheres negras na sociedade brasileira, que tinha começado por volta das 18h de quarta-feira.

Segundo a polícia civil, o crime ocorreu às 21h30, quando um carro se aproximou do automóvel em que seguiam a vereadora, o motorista e uma assessora – ao todo foram disparados nove tiros e quatro atingiram Marielle Franco na cabeça. O motorista, Anderson Gomes, de 39 anos, também foi morto, e a assessora, Fernanda Chaves, foi tratada no hospital por ferimentos ligeiros provocados por estilhaços.

Os atacantes puseram-se em fuga sem nenhum dos pertences das vítimas, o que reforça as suspeitas de que o seu único objectivo era matar Marielle Franco.

A vereadora, de 38 anos, foi eleita em 2016 pelo partido de esquerda PSOL e era uma feroz crítica da intervenção do Exército brasileiro no Rio de Janeiro, ordenada pelo Presidente Michel Temer em Fevereiro, e da actuação da Polícia Militar nas favelas da cidade.

Na terça-feira, um dia antes de ter sido assassinada, Franco tinha acusado a Polícia Militar do Rio de Janeiro de responsabilidade na morte do jovem Matheus Melo na Favela do Jacarezinho, na Zona Norte da cidade: "Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?"

No sábado passado, a vereadora do PSOL acusou a Polícia Militar de aterrorizar os moradores do bairro do Acari: "Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41.º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior", disse Marielle Franco, referindo-se à intervenção do Exército brasileiro ordenada pelo Presidente Temer como resposta ao aumento dos índices de violência na cidade.

Numa nota publicada no site do PSOL, a direcção do partido fala em "dor e indignação": "Não podemos descartar a hipótese de crime político, ou seja, uma execução. Marielle tinha acabado de denunciar a acção brutal e truculenta da PM na região do Irajá, na comunidade de Acari. Além disso, as características do crime com um carro emparelhando com o veículo onde estava a vereadora, efectuando muitos disparos e fugindo em seguida reforçam essa possibilidade. Por isso, exigimos apuração imediata e rigorosa desse crime hediondo. Não nos calaremos!"

O Governo do Brasil, através do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse que "acompanhará toda a apuração do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista que a acompanhava" e pôs a Polícia Federal "à disposição para auxiliar em toda investigação".

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, condenou "o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco, cuja honradez, bravura e espírito público representavam com grandeza inigualável as virtudes da mulher carioca".

"Sua trajectória exemplar de superação continuará a brilhar como uma estrela de esperança para todos que, inconformados, lutam por um Rio culto, poderoso, rico, mas, sobretudo, justo e humano. Em cada lar uma prece, em cada olhar uma lágrima e em cada coração um voto de tristeza, dor e saudade. É assim que hoje anoitece a cidade desolada e amargurada pela perda de sua filha inesquecível e inigualável. Que Deus a tenha!", disse o responsável.

O governador do estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, lamentou "esse acto de extrema covardia contra a vereadora Marielle Franco", descrevendo-a como "uma mulher admirável, guerreira e actuante, de liderança inequívoca, que tanto lutou contra as desigualdades e violência da qual acabou sendo vítima".

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