Antifascismo

Vidas negras só importam para as grandes empresas quando dão lucro

Declarações vazias como a da Amazon e outras supostas demonstrações de solidariedade de corporações até então indiferentes parecem tentativas cínicas de capitalizar a morte da população negra

04/06/2020 12:24

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
A população negra está cansada. Estamos cansados de ver membros de nossas comunidades serem assassinados pela polícia – nos EUA, no Reino Unido e em outros países. Estamos cansados de assistir a vídeos desses linchamentos modernos em nossas telas. E, muitas vezes, também estamos cansados do ruído – do discurso das redes sociais sobre a morte de negros, do racismo nas respostas, e também das declarações vazias de solidariedade.

Parte dessa suposta solidariedade vem de pessoas bem conhecidas –autoproclamados aliados que pouco fazem para combater o racismo em suas próprias vidas. Mas, ao longo da última década, vemos cada vez mais atitudes semelhantes vindo de marcas e corporações. Na semana passada, enquanto os protestos pelo assassinato de George Floyd tomavam os EUA, vimos de novo este fenômeno complicado. Talvez o mais absurdo para mim tenha sido a declaração da Amazon afirmando “estar solidária com a comunidade negra – nossos funcionários, clientes e parceiros – na luta contra o racismo e a injustiça sistêmicos”.

No caso da Amazon, é até difícil mostrar quão profundamente hipócrita é a suposta posição atual da empresa. São conhecidos os relatos de maus-tratos de funcionários nos depósitos da megacorporação; muitos contam ter que urinar em garrafas plásticas por não poderem fazer pausas para ir ao banheiro, trabalhadoras grávidas teriam sido obrigadas a ficar em pé por horas a fio e 600 ambulâncias foram chamadas aos depósitos da empresa ao longo de três anos. Ao mesmo tempo, há repetidas denúncias de que o presidente da empresa, Jeff Bezos, o homem mais rico da história moderna, paga menos impostos do que deveria. Para entender o que isso tem a ver com o movimento #vidasnegrasimportam/ #BlackLivesMatter, é preciso considerar que esses postos de trabalho precários, muitas vezes perigosos e com salários baixos têm grande probabilidade de ser ocupados por negros. 15% da força de trabalho da Amazon são negros – desses, 85% trabalham nos depósitos.

Há mais evidências contundentes contra a empresa: em 2016, a Amazon lançou e testou seu software de reconhecimento facial junto a alguns departamentos de polícia americanos. Mas o reconhecimento facial tem sido amplamente criticado pelo movimento antirracista, pois erra desproporcionalmente a identificação de rostos negros – um problema com o claro potencial de exacerbar o racismo do sistema de justiça penal dos Estados Unidos, contra o qual a Amazon diz, agora, se opor. Quanto a perpetuar a ideologia racista, a Amazon tem sido criticada por continuar a anunciar em plataformas de extrema direita como Breitbart News, por vender literatura racista em seu site e apresentar insultos racistas em imagens de produtos. De abusos dos direitos dos trabalhadores e acordos suspeitos até a venda de produtos abertamente racistas em seu site, me parece claro que a Amazon não se importa com vidas negras.

Então, por que lançar uma declaração em apoio ao Black Lives Matter – o que essas empresas veem ali? De forma simples: independentemente de seu histórico em relação ao racismo, muitas grandes empresas conseguem transformar movimentos sociais numa oportunidade de lucrar. O uso da injustiça social como um exercício vazio de construção de marca não é exclusividade da Amazon – empresas como Netflix, Spotify, Nike e PrettyLittleThing, a maioria das quais não demonstra compromisso de longo prazo com a luta contra a injustiça racial, também divulgaram declarações de solidariedade na semana passada. Marcas e corporações, motivadas pelos interesses de seus acionistas, aproveitam momentos em que é do seu interesse econômico se manifestar; se puderem obter apoio (e, especialmente, dinheiro) do consumidor em momentos de indignação nacional, o farão. Isso é ainda mais pertinente no século 21, já que os millennials dizem preferir dar dinheiro a marcas que parecem alinhadas com seus valores.

O capitalismo em 2020 muitas vezes assume o papel de "ativista" – pense em Colin Kaepernick encarando a lente num anúncio Just Do It (e no consequente retorno publicitário da Nike). Mas a essência continua a mesma. Se empresas como a Amazon realmente se importassem, não criariam modelos de negócios que exploram e desumanizam os trabalhadores da base, muitos deles negros. Assim, se pretendem lutar contra a injustiça racial, em vez de postar declarações vazias nas redes sociais, deveriam abrir suas carteiras.

Em apenas quatro dias, o Minnesota Freedom Fund, organização sem fins lucrativos de apoio a manifestantes, levantou 20 milhões de dólares de mais de 150 mil doadores, a maioria dos quais não eram grandes empresas, mas indivíduos indignados do mundo todo. A marca de beleza Glossier anunciou no sábado que doaria 500 mil dólares para organizações de combate à injustiça racial, o que, ceticamente, ainda vejo como uma ação de relações públicas – mas pelo menos está fazendo algo concreto.

Se as grandes corporações não tomarem medidas consequentes, suas declarações nas redes sociais soarão vazias, meras tentativas de utilizar a morte de negros para conseguir uns dólares a mais do consumidor. Os negros estão cansados – e como uma negra mais cansada do que nunca, sei que, na luta contra a opressão racial, são pessoas, e não empresas, que vão mostrar o caminho.

*Publicado originalmente em 'The Independent' | Tradução de Clarisse Meireles

Conteúdo Relacionado