Antifascismo

WhatsApp diz que é tarde demais para combater as notícias falsas da extrema direita no Brasil

 

22/10/2018 13:23

(picture alliance via Getty Image)

Créditos da foto: (picture alliance via Getty Image)

 

No New York Times, na semana passada, três autores de um relatório sobrea  desinformação no Brasil pediram ao WhatsApp, serviço de mensagens que pertence ao Facebook, que fizesse três mudanças para impedir a disseminação de notícias falsas. O Brasil está prestes a eleger seu próximo presidente e é um grande usuário do WhatsApp: 44% dos brasileiros se informam sobre política através do aplicativo. Hoje, o direitista Jair Bolsonaro - apoiador da tortura, das ditaduras militares e da repressão violenta de minorias - tem larga vantagem nas pesquisas. E parte de sua potencial vitória pode ser creditada a uma campanha travada no WhatsApp, parte dela orquestrada por "uma campanha multimilionária anti-Partido dos Trabalhadores", de acordo com reportagem do jornal The Guardian. O Brasil não é o primeiro país a conhecer esse problema. Quando surgiram rumores de que notícias falsas no WhatsApp começaram a causar distúrbios e mortes na Índia, o governo decidiu que a única solução seria cortar a Internet.

Os autores do artigo de opinião no New York Times, Cristina Tardáguila, Fabrício Benevenuto e Pablo Ortellado, analisaram conversas públicas e populares no WhatsApp. Encontraram algo perturbador:

De uma amostra de mais de 100.000 memes políticos que circularam nesses 347 grupos, selecionamos os 50 mais amplamente compartilhados. Este foram analisados pela Agência Lupa, a principal plataforma de checagem de fatos do Brasil. Oito dessas 50 fotos e memes foram consideradas completamente falsas; 16 eram imagens reais, mas usadas fora do contexto original ou relacionadas a dados distorcidos; quatro eram afirmações infundadas, sem base em uma fonte pública confiável. Isso significa que 56% das imagens mais compartilhadas eram enganosas. Apenas 8% das 50 imagens mais amplamente compartilhadas puderam ser consideradas totalmente verdadeiras.

Os autores pediram ao WhatsApp para fazer três alterações o mais rápido possível: restringir para cinco o número de vezes que uma mensagem pode ser encaminhada, reduzir (para menos de 256) o número de usuários que um usuário do WhatsApp pode contactar de uma vez e limitar o tamanho de novos grupos nas próximas semanas.

Um porta-voz do WhatsApp, contactado pela revista Nova York, afirmou: "Não é tecnicamente possível para o WhatsApp fazer uma alteração de produto em uma semana. É preciso de tempo para implementar a mudança e, em seguida, cada usuário precisa atualizar seu aplicativo. Esse processo geralmente leva meses para ser concluído”.

Ao jornal brasileiro Folha de S.Paulo, o vice-presidente do WhatsApp, Chris Daniels, afirmou: “Embora o desejo de difundir e consumir informações sensacionalistas e muitas vezes prejudiciais anteceda a Internet, a rede certamente facilita tudo isso. E como as informações - tanto as boas como as ruins - podem viralizar no WhatsApp, mesmo quando limites são impostos, temos a responsabilidade de amplificar o que é bom e mitigar o que é prejudicial.”

Os autores do artigo no New York Times responderam simplesmente: “Na Índia, o WhatsApp precisou de apenas alguns dias para começar a fazer ajustes. Isso também pode ser feito no Brasil. ”

Numa escala maior, a ideia de realmente moderar o WhatsApp é um verdadeiro pesadelo. O WhatsApp é fundamentalmente um serviço de mensagens de um-para-um e é fortemente criptografado. A maior parte da atividade no WhatsApp é de duas pessoas conversando ou, no máximo, conversando com grupos de até 256 pessoas. É muito mais parecido com o Messages do iOS ou com SMS do que com as plataformas de um-para-muitos como Facebook, Twitter ou YouTube, o método preferido de manipulação política nos Estados Unidos.

Embora isso signifique que as pessoas mal-intencionadas do WhatsApp não conseguem reunir meio milhão de seguidores para transmitir notícias falsas ou propaganda, as notícias falsas que propagam são muito mais difíceis de serem detectadas e freadas. É como se os posts de Facebook fossem publicações no livro da escola e o WhatsApp fosse as fofocas de corredor - muito mais difícil de ser rastreadas e percebidas como bem mais confiáveis pelos destinatários.

É fácil imaginar como o Facebook, o Twitter e o YouTube poderiam moderar melhor suas plataformas, embora a resposta fosse custar bilhões de dólares para cada uma das empresas: através da contratação de muitos mais moderadores humanos. Quando olho para a estrutura do WhatsApp, no entanto, não vejo muitas respostas fáceis - apenas a natureza humana, atores políticos tóxicos e a capacidade da tecnologia de levar ambos a um patamar novo e aterrorizante.

*Publicado originalmente no New York Magazine | Tradução de Clarisse Meireles

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