Antifascismo

À Existência!

 

18/01/2019 12:48

 

 
Há alguns dias me envolvi em uma acalorada discussão com uma pessoa trans, em um grupo de whatsapp. Estão circulando notícias na web – algumas de veracidade duvidosa – de que o governo Bolsonaro vai assinar decreto retirando a verba pública para as paradas LGBT, algo que essa pessoa trans é favorável. Para ela, o governo deve fazer isso, porque, segundo a mesma, “a parada LGBT é um local onde os gays ficam mostrando peito, bunda e transando nas esquinas e em banheiros químicos”. A despeito da informação sobre o fim das paradas LGBT ser verídica, o reducionismo da pessoa em questão atesta como Simone de Beauvoir continua atual: “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”

Fake news à parte, o fato concreto é que o Ministério da Saúde retirou do ar, na quinta-feira, 04 de janeiro, uma cartilha direcionada a homens trans – genericamente falando, pessoas que nasceram com uma vagina e se sentem homens – com o objetivo de prevenir infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). A justificativa é que o material precisa de correções, haja vista, o pump – equipamento que faz vácuo e alonga o clitóris, com o intuito de aumentar seu tamanho, de maneira similar às bombas de prolongamento peniano – ser descrito como uma prática que proporciona prazer e que isso – a obtenção do prazer – não deveria ser tratado pelo ministério. No entanto, especialistas alegam que o pump deve ser discutido como um dispositivo importante para a população de homens trans e que incluí-lo foi feito exatamente para alertar sobre a sua utilização com higiene e em níveis seguros para a saúde.

Esse episódio parece ser mais um daqueles em que o governo, empossado há poucos dias, persegue minorias sociais. Utilizando todos os recursos disponíveis para eliminar qualquer discussão que envolva gênero, diversidade sexual e questões étnico-raciais, a equipe de Bolsonaro já extinguiu a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), colocando em seu lugar uma subpasta com o ambíguo nome Modalidades Especializadas. Esta, segundo o presidente, tem o objetivo de formar pessoas para o mercado do trabalho, em oposição aos governos anteriores, que, segundo ele, “investiam na formação de mentes escravas das ideias de dominação socialista” [sic].

Esses dois eventos – a retirada da cartilha para homens trans e a extinção da Secadi – embora envolvam pastas diferentes – Educação e Saúde, respectivamente – demostram algumas semelhanças. Para o governo Bolsonaro, como já era esperado, pautas referentes às minorias sociais não possuem qualquer relevância. O que se pretende é formar mentes sem consciência crítica para o mundo do trabalho, supostamente libertando-as do socialismo – quando foi mesmo que o socialismo governou o Brasil? – mas, escravizando-as para trabalhar em condições cada vez mais precárias, posto que “é horrível ser patrão no Brasil”, frase do próprio. O que se pretende também é negar acesso à população trans a qualquer tipo de informação que lhe permita se prevenir de ISTs. Mais que isso: quando afirma que a cartilha para homens trans não deveria abordar o prazer sexual, o Ministério da Saúde parece ter por objetivo negar aos homens trans o acesso ao conhecimento sobre como obter prazer a partir de seus próprios corpos. Ora, isso atenta contra o próprio nome e função social do ministério, uma vez que o prazer sexual é importante ferramenta para a saúde, a qual, por sua vez, se refere a um estado de bem-estar social, físico e mental, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem o Brasil como um dos seus países signatários. O que o governo antipovo, autoritário e fascista de Bolsonaro nega é o direito de homens trans serem sujeitos do desejo.

Em poucos dias, o governo Bolsonaro já desenhou como vai lidar com temáticas como gênero, sexualidade, diversidade e qualquer questões envolvendo os direitos humanos. Para ele e seus pares, basta denominar como “ideologia de gênero” – termo criado por religiosos fundamentalistas que o apoiam – tais assuntos, para daí demonizar qualquer pauta progressista, negando cidadania para os corpos de pessoas trans. Isso lhe traz pelo menos duas vantagens: (1) fortalecer o apoio de camadas altamente reacionárias da sociedade brasileira, que o elegeram exatamente para cercear os direitos de grupos sociais minoritários; (2) servir como “cortina de fumaça” para a implantação do pacote de perversidades que será deflagrado em breve contra os mais pobres: “reformas” previdenciária e econômica.

O momento inicial do governo Bolsonaro exige vigilância e articulação. Sua tática nazista de blitzkrieg já esboçada na campanha eleitoral, começa a tomar forma em pleno mandato: lançar na mídia, entre tuítes e grupos de whatsapp, enxurradas de notícias, a maioria boatos, ocupando o imaginário popular, para, na surdina, aprovar leis que retirem direitos. São tempos de obscurantismo e pós-verdades, em que nós, progressistas, precisamos nos reinventar rapidamente, sob pena de sermos rapidamente varridos da luta política. Isso começa por voltar às ruas e retomar as bases populares, articulando resistências e explicando à população em geral – indo aos guetos e favelas – que, mesmo com diferenças de pensamento, temos um adversário em comum, que hoje, controla o Estado e está pronto para aniquilar a democracia.

À resistência, muitos talvez dirão. Prefiro dizer: à existência!

Armando Januário dos Santos é Sexólogo. Psicanalista em formação. Graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br

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