Arte

'Algo no Caminho' (2013) rascunha a impossibilidade da autonomia

Apesar de suas fraquezas, ficção do indonésio Teddy Soeriaatmadja encontra a ironia e as contradições da vida de um muçulmano viciado em pornografia.

09/11/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

O cineasta indonésio Teddy Soeriaatmadja trouxe seu sétimo longa-metragem a esta Mostra de São Paulo: "Algo no Caminho" (Something in the Way, 2013) acompanha a vida de Ahmad, um morador pobre de Jacarta, e sua vizinha, uma prostituta.


O filme não tem muita força nem consegue avançar em muitos pontos os conceitos que tenta aludir sobre a sociedade periférica da Indonésia: o passado recente de colonização (independente somente desde 1945), subdesenvolvimento e desigualdade se entrelaçam com a tradição islâmica. Embora sejam rascunhos, eles já mostram ao espectador um mal-estar comum em países marginais do capitalismo: a convivência entre tradição e competição particular da periferia do capitalismo reverberam na vida privada.


Ahmad é um taxista. A profissão tem efeito duplo, é verdade: o taxista e seu passageiro se relacionam, não se conhecem, mas conversam; ao mesmo tempo o motorista assiste distante as ruas e seus passageiros. Ahmad é espectador da vida, a vida dos outros é para ele como espetáculo e única maneira de consegue sentir alguma coisa.


O vício pela pornografia permeia todo o seu dia: suas refeições e tarefas mais triviais tem como trilha sonora os sons das performances da indústria pornográfica, qualquer momento de tédio leva Ahmad a revirar o porta-luvas atrás das fotos de mulheres. A vontade de reiteradas vezes sentir prazer mostra a própria ineficiência do prazer tal como ele experimenta. Ele se acanha, sente medo de ser pego ao mesmo tempo que este medo não o impede. A personagem não tem qualquer autonomia e o diretor com a câmera nas mãos, trepidando, dá este recado.


A contradição mostra-se coerente em Ahmad. Muçulmano e frequentador assíduo da Mesquita, ouve o sacerdote que lhe ensina o Islã já mastigado. Ele não tem o Corão por perto, não lê por si próprio. Ele colhe de fora suas certezas, todas elas. O máximo que decide é sobre qual filme pornográfico vai assistir.


Já Kinar, prostituta e sua vizinha, aparece como força motriz do choque que a narrativa pretende apresentar: Ahmad e Kinar aparecem em conflito (ela é prostituta e ele tem sexo como um tabu), mas são antes duas setas em sentidos opostos mas paralelas. Os dois são personagens claramente representados como fracos e indefesos.


Kinar seguiu caminho comum das mulheres pobres da Indonésia e desde os catorze anos se prostitui. Ahmad é extremamente tímido e não consegue sequer esboçar suas vontades, seus sentimentos. Não há autonomia possível em nenhum dos dois. A contundência e a fraqueza do filme são ambas construídas a partir daí. Kinar e Ahmad convivem e se estranham.


O filme peca muito ao criar uma síntese sem tensões suficientes e acaba encostando no moralismo. Ahmad quer tirar Kinar da prostituição e para isso tem de acabar com a única coisa que segura sua amada desde os 14 anos (análise que acho insuficiente e superficial): matar seu cafetão. Sabemos que a formação do homem e da mulher é intimamente ligada às suas relações sociais: o filme nivela por baixo essa complexidade e sugere uma superação que fica estranhíssima e deslocada do cenário de sujeira e muita dificuldade.


A forma fílmica e seu roteiro mostram rascunhos previsíveis dos problemas das personagens. Ao mesmo tempo, Soeriaatmadja encontra na sequência de situações (idas à Mesquita e vícios pornográficos de Ahmad) a ironia das convivências contraditórias. O final do filme tenta ser a síntese dos conflitos entre Ahmad e Kinar: a impossibilidade da autonomia de Ahmad convive com a chance que se abre para Kinar. Uma tentativa apenas, fraca e desbotada. 'Algo no Caminho', mesmo com suas fraquezas, nos deixa ver que a paralisia de Ahmad é bem menos particular que pensamos. Ainda mais para nós, brasileiros.



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