Arte

"Hamaca Paraguaya", de Paz Encina

22/05/2006 00:00

CANNES - A primeira reação ao ver um filme paraguaio na seleção da mostra paralela (Um Certain Regard) desta edição do Festival é suspeitar de paternalismo e imaginar que se trata de uma manobra de estimulo da industria sul-americana pelo Festival. São necessários, no entanto, poucos minutos de projeção para que a teoria vá por terra.

“Hamaca Paraguaya” é o primeiro longa-metragem da paraguaia Paz Encina e, mais, o primeiro longa-metragem rodado em 35mm desde os anos setenta. Mais: o filme é falado em guarani, língua oficial segundo a Constituição, mas que, na prática, é identificada pela população jovem e urbana como um retrocesso, ligado intimamente a um Paraguai rural que todos querem deixar pra trás. Sem mencionar que o espanhol, falado por 73% da população (contra 86% de extensão do guarani), daria ao filme maior chances de exportação. Mas o enfoque da diretora é outro.

Na nota de intenção distribuída à imprensa, surpreende o fato de a diretora falar muito mais da indústria cinematográfica do que do filme, muito mais de História do que da história. O Paraguai não tem o que se possa chamar de uma indústria cinematográfica: não há casas de produção, nem laboratório, sequer um representante Kodak há no país. Não há qualquer investimento governamental voltado especificamente para cinema. O último filme rodado em 35mm, baseado na guerra da tríplice aliança de 1865-1870 (na qual Argentina, Chile e Brasil praticamente reduziram a população paraguaia a velhos, mulheres e crianças), havia sido encomendado pelo ditador Alfredo Stroessner no apogeu de seu poder.

Paz Encina mantém o enfoque sobre a História, voltando-se em “Hamaca” para a guerra de 1932-1935 contra a Bolívia (pela disputa do território de Chaco), mas o tratamento que ela dispensa ao tema foge completamente dos grandes filmes de guerra com pretensões históricas. Seu enfoque é bastante pessoal: acompanhamos um dia da rotina de um casal que espera o retorno do filho enviado à guerra.

O tratamento formal é ainda mais ousado: todas as imagens são feitas por uma câmera fixa, que se recusa a acompanhar os personagens, e mantém-se, na maior parte do tempo, num mesmo e único cenário. É um olhar que se mantém tranqüilo frente à inquietação dos personagens pela ausência de notícias do filho, tão tranqüilo que nos dá tempo de assimilar cada detalhe do meio onde vivem. Essa aproximação da realidade dos personagens faz-se também pela banda sonora, que nos mantém ouvindo, em grande parte do tempo, o latido do cachorro do filho ausente, tornando a experiência da projeção deveras incômoda para espectadores mais ansiosos.

Há, assim, transposição deste sentimento de desconforto dos personagens para o outro lado da tela. O latido incomoda a mãe e cada menção que ela faz ao barulho desperta o espectador para aquele som que ele havia conseguido, com maior ou menor sucesso, subliminar. Ela não se sente confortável na rede, o marido tem dores no peito, em seguida não tem dor nenhuma... Num dado momento, um dos personagens reconhece que tudo se torna intolerável quando se esta incomodado – e a espera incomoda.

Ficamos, assim, nesse ambiente de expectativa e anúncios, tentando captar sinais que indicariam se o filho estaria vivo ou não, assim como tentamos ver os pássaros a que o pai se refere olhando para o céu (e que, assim como ele, não conseguimos ver). A certa altura, o pai pergunta à mulher por que ela quer que o cachorro continue latindo, por que não toma alguma providência. O cachorro, que late por sede (pois não há água suficiente para todos) e que vai morrendo assim, aos poucos, faz pensar na esperança desses dois em rever o filho. A espera vai consumindo e chega um momento em que a pior notícia, a morte do cachorro ou do filho, chega como alivio para a angústia de esperar, o latido que ninguém mais tolera.

Encina consegue realizar um projeto audacioso, formalmente ousado, mas que não se perde num formalismo vazio. A espera dos pais pelo filho enviado à guerra, muito mais do que falar da guerra do Paraguai ou da pobreza no campo ou do drama daquela família, trata de alguma coisa muito mais ampla. Como escreveu a diretora, com muita propriedade, sobre o tema de seu filme: "trata-se da questão simples e complexa de suportar a vida". A espera dos dois é a espera de cada um de nós por esse percurso desconhecido, mas que só tem um final. Pena que nem todos toleram ficar até o fim da sessão.



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