Arte

"Red Road", de Andréa Arnold

22/05/2006 00:00

Sofia Pleym

CANNES - O último filme do renomado diretor inglês Ken Loach, “The wind that shakes the barley”, foi apresentado na mostra competitiva desta edição do Festival na última quinta-feira. E apesar de seu tema essencialmente político-social (a guerra de independência irlandesa no início do século XX), a sensação que se tem é a de que o cinema social característico do diretor inglês só chegou mesmo a Cannes no dia seguinte, com a exibição do filme escocês “Red Road”, de Andréa Arnold.

“Red Road” é um filme que leva o espectador, a partir de imagens de câmeras de segurança da cidade, à periferia de Glasgow e alguns de seus moradores, um cenário que lembra muito o ambiente dos primeiros filmes de Loach. Ao mesmo tempo, o enredo deste drama social – mas sobretudo pessoal – faz pensar em Mike Leigh e seu “Segredos e Mentiras”.

O roteiro de “Red Road” foi desenvolvido num laboratório promovido pelo Festival de Sundance em 2005. Arnold já havia sido premiada pelo festival em 2003 com seu terceiro curta-metragem, “Wasp”, que teve grande repercussão internacional e recebeu outros 37 prêmios em todo o mundo, inclusive o Oscar de melhor curta-metragem.

Trata-se do primeiro longa-metragem da diretora escocesa e também da primeira obra do projeto “Advance Party”, no qual ela se propôs, ao lado de Lone Scherfig e Anders Thomas Jensen (ambos signatários do Dogma 95 de Lars Von Trier), a criar três enredos que se passassem na Escócia e que orbitassem os mesmos nove personagens.

A trama gira em torno de Jackie, uma operadora de câmeras de segurança que passa seus dias a observar imagens da cidade com o objetivo de impedir eventuais incidentes, e Clyde, um homem que faz parte de seu passado e que ela acidentalmente enxerga em uma das imagens geradas pelo circuito de câmeras.

De mera observadora passiva, não apenas da vida alheia, mas de sua própria, quase totalmente esvaziada após a grande perda de marido e filha, Jackie passa à verdadeira personagem da história que ela vinha apenas acompanhando à distancia. Natural, portanto, que termine seu percurso na casa dos sogros, confrontada com fotos dos mortos e concordando em finalmente enterrá-los, vivenciando o luto que ela própria não havia se permitido até aquele momento.

O espectador entra nessa jornada pela periferia de Glasgow e seus elevadores pichados, ruas sem asfalto, cachorros de rua. E, apesar da concentração da câmera nos dois protagonistas (não há uma cena sem que um dos dois esteja presente), impressiona o quão profundo é o retrato que a diretora consegue traçar dos personagens secundários e dessa realidade social que ela se propõe a descrever.

A contribuição dos quatro atores principais é fundamental. Alguns já conhecidos do espectador mais atento – Tony Curran, que começou em “Cova Rasa”, de Danny Boyle, e participa de grandes produções hollywoodianas como “Gladiador”; Martin Compston, descoberto por Ken Loach em “Sweet Sixteen”; e Natalie Press, que havia protagonizado “My Summer of Love” de Pawel Pawlikowski – e outros vindos da televisão escocesa (como Andrew Armour e a talentosa protagonista Kate Dickie), todos dão o mesmo espetáculo de interpretação.

Ainda que “Red Road” não se preste a explorar uma temática puramente social, ele continua sendo um exemplar do cinema britânico contestador, engajado, de retratos crus. E mais: com o frescor que o cinema de Loach parece ter perdido.



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