Arte

A esperança brilha mais que a escuridão

O carnavalesco Leandro Vieira, autor do protesto político em forma de samba da Mangueira, manda o recado do carnaval da resistência: ''O carnaval que o presidente da República deve mostrar ao mundo é esta festa da nossa cultura popular, da arte e da luta do povo''

26/02/2020 14:31

Comissão de frente da Mangueira mostrou Jesus em baile funk e sendo agredido pela polícia (Marcelo Brandt/G1)

Créditos da foto: Comissão de frente da Mangueira mostrou Jesus em baile funk e sendo agredido pela polícia (Marcelo Brandt/G1)

 
A Verdade Vos Fará Livre (Samba-enredo de Mangueira 2020)

Senhor, tenha piedade

Olhai para a terra

Veja quanta maldade

Senhor, tenha piedade

Olhai para a terra

Veja quanta maldade

Mangueira Samba, teu samba é uma reza

Pela força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

Mangueira

Samba, teu samba é uma reza

Pela força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra no buraco quente

Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro, desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque, de novo, cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço fé na minha gente

Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir

O desabafo sincopado da cidade

Quarei tambor, da cruz fiz esplendor

E ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira

Samba, teu samba é uma reza

Pela força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também.

''Meu nome é Jesus da gente.
'' O verso do samba enredo de Mangueira, este ano, da compositora Manu da Cuíca, resume o tema do carnavalesco Leandro Vieira, A verdade vos fará livre, retratando a violência de estado do processo sistematizado de extermínio do povo favelado, nas periferias das grandes cidades brasileiras. O admirável protesto vem das raízes profundas e límpidas de origem popular, e neste caso ele procede do barracão da Estação Primeira de Mangueira. Lá, ele foi cristalizado na plataforma surpreendente, do samba e do carnaval, por uma das mais tradicionais escolas de samba cariocas.

O desfile da verde-e-rosa é um soco no estômago do brasileiro para tentar acordá-lo da letargia a que se impôs.



O agudo protesto aponta para o governo ultra violento de Wilson Witzel no Rio de Janeiro e denuncia o caos premeditado da não/administração do grupo miliciano do atual presidente da República. E o mais importante: tratando com extrema delicadeza e respeito a figura de Jesus Cristo renascido pela Mangueira entre os pobres, os negros, os indígenas, as mulheres, os gays - entre capas e fitas da cor do arco-íris -, o povo morador das ruas e todos os desassistidos que hoje, mais do que nunca, são um mar de indivíduos vulneráveis em meio à meia dúzia de fortunas pornográficas e dos boçais deste país.

Por motivos vários, há anos, desde que participamos do júri que escolhe a vencedora anual do apoteótico desfile, não assistíamos com atenção o desfile de escolas de samba.

Uma surpresa, a admirável evolução do profissionalismo do espetáculo oferecido pela verde-e-rosa desfilando com quatro mil integrantes e cinco carros alegóricos durante os 70 minutos exigidos pela competição, num timming rigoroso. Sem atropelos, sem os conhecidos buracos, mergulhando na festa carnavalesca com pureza. E notável a delicadeza e o respeito com que a escola retratou a figura carismática de Jesus trazendo para a ''avenida'' (o sambódromo) um Cristo na cruz revivido no século 21 na favela e por extensão renascido em todos cafofos erguidos com a cupidez indecorosa das elites nacionais.

O jovem negro de cabelos platinados, a mulher vilipendiada e violentada em casa e nas ruas, o mestre - sala da cabrocha, a sua coroa de espinhos convivendo com a modernidade da porta-bandeira na sua inusitada e linda saia de plumas, e o tradicional cor-de-rosa da escola desmaiando para o roxo pálido, o lilás da Paixão de Cristo. Uma beleza de cenografia e de encenação de crítica política. Além da crítica social.

A interpretação impecável do dístico a verdade por mais dura que seja traz a liberdade é um não às notícias falsas da politicagem safada e às promessas religiosas que, sabe-se de antemão, não são para serem cumpridas; mas que extorquem lucidez e dinheiro do povo.



Um Jesus da gente! o verso do samba-enredo é ressaltado pela professora de Comunicação e Pró Reitora de Extensão da UFRJ, Ivana Bentes, na sua exata observação, na Internet:

''Mangueira entrou mandando o rap: Jesus negro, Jesus mulher, Jesus sendo achacado por policiais, Jesus mestre-sala, Jesus mendigo, Jesus índio: “Eu sou da Estação Primeira de Nazaré. Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher. Moleque pelintra no buraco quente. Meu nome é Jesus da Gente. “ (...) “ Favela, pega a visão. Não tem futuro sem partilha. Nem messias de arma na mão”.

''Lindíssimo ver no carnaval o que queremos na política e na sociedade!'' diz a professora Bentes.

Outra professora, Marluci Brasil, da Pedagogia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, defende Mangueira dos ataques que a escola campeã de 2019 vem sofrendo pelas milícias bolsonaristas por conta em especial do verso da letra que diz “não há messias de arma na mão”.

''Ao contrário. Não há qualquer desrespeito da Mangueira a Jesus,'' diz ela. ''A idéia do enredo é a de reforçar o verdadeiro espírito cristão.''

O carnavalesco duas vezes campeão pela Mangueira, Leandro Vieira, lembra que o Cristo histórico nasceu pobre, viveu ao lado dos menos favorecidos e condenou o acúmulo de riqueza. ''O mesmo que se insurgiu contra a hipocrisia dos líderes religiosos do seu tempo e se colocou contra a opressão. O seu enredo fala sobre ''a figura política de Cristo e sua pregação do amor que nos torna livres da intolerância e do preconceito. É um recado político para o país todo que precisa entender que essa idéia é importante.''

“E é um recado também para o presidente: o carnaval é a festa do povo, o carnaval é cultura popular. O carnaval da Mangueira que ele devia mostrar para o mundo é este: o carnaval da arte, da luta, do povo e da nossa cultura.''

“As pessoas não estão alheias ao que a gente está vivendo no país. O Carnaval vive dentro de uma sociedade que está explodindo de contradições, de tensões e com uma força cultural popular que absorve essas questões e tenta apresentá-las em forma de arte. Posicionarmo-nos não é uma opção, mas uma necessidade,'' ressalta Leandro em entrevista ao site Brasil de Fato. "O enredo não é religioso e diante de tanta importância, Jesus não pode ser representado de maneira única, quando preso à cruz.''

Muitos dos que já assistiram Mangueira desfilando neste fim de semana na TV já perceberam. Aos que ainda devem assisti-la no próximo fim de semana - e não devem perder esta encenação política extraordinária da verde-e-rosa -, um alerta.

Algumas coisas saíram erradas na transmissão da TV Globo de domingo passado. O som muito baixo do samba-enredo, as entrevistas com alguns passistas apenas pró-forma, no fim do desfile, a narração insignificante e lida aos trancos pela apresentadora chinfrim e uma ala - a dos bozos verdes - suprimida da emissão. Proposital para diminuir o impacto mangueirense?

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