Arte

A esquerda, a direita e a vida de preto

 

06/11/2018 14:12

 

 



01. Boca de fumo

Pistola na mão fazendo a contenção

Boné pra trás, olhar fundo, ligadão.

A duas ruas dali, cinco carros da PM

Um foi morto no confronto de ontem, é hora de sufocar.

Antes do acesso à boca, uma barricada improvisada

Cinco botijões de gás é a estratégia

Domingo, 10hs da manhã.

Entre os PM’s, a barricada e o cria, tem muita gente.

Quem se aproxima tem que levantar a camisa, e falar de onde é

Se vacilar no papo fudeu

A entrada principal da parada é uma viela, cheia de esgoto

Vários barracos

(Lembro que vi na Globo, outro dia, uns carinhas de um bairro da zona sul reclamando que tava sendo superdifícil conviver ali com todo o barulho causado pelas obras do metrô)

É... Deve ser difícil mesmo...

No final da viela tem mais um que fica ligado em quem entra

Quase sempre é um menor

Armado, é claro

Quem tá envolvido nunca tá puro

A adrenalina correndo sozinha é pouca pro risco do combate

O baseado ajuda a relaxar.

Às vezes, rola até fila de espera

Mulher tem prioridade!

A criançada dali já tá ligada em tudo o que acontece

Passa numa boa

Às vezes ganha uma moral pra comprar uma pipa.

Na bancada tem o vício de vários

Cada qual com o seu valor

Nada de moedas.

O papo que rola é de uma novinha e do menor que rodou

pros caras que são alemão

A rivalidade é grande

A atividade maior ainda

No jogo não tem segunda chance.

O radinho avisa que os policia vai entrar

Nada de tiroteio

Eles só querem o deles

A boca vai mais pra cima

A estratégia muda

O negócio é o mesmo.



02. Pauta política. Não morrer.
 
Morro da pedreira,

01/11/18 (04 dias após o resultado das eleições).

Ao descer o morro eu caminho por entre dois tanques do exército que estão parados na esquina. Uns 12 caras, fardados da cabeça aos pés, estrategicamente espalhados, portando fuzis.

02/11/18 (05 dias após o resultado das eleições).

– Tem um policia no quintal!
– O que?
– Tem um policia no quintal!

Saio para o quintal e olho pra escada, em direção a casa debaixo.
Uma menina preta, magra, com uns treze anos, está subindo com uma cara assustada.

– O que houve?
– Um policia entrou lá em casa do nada.
– Fica calma, relaxa.

Ele aparece, e subindo as escadas, questiono;

– A menina falou que você saiu entrando. Ela poderia estar pelada ou fazendo outra coisa.
– Você é o pai dela?

Os pais da menina saem para ver o que acontece.

– Não, mas é uma criança e me preocupo com ela.
– O pai dela não se preocupou.

Ele me olha nos olhos, passa por mim, para e diz;

– Você faz o que?
– Estudante.
– De onde?
– UFRJ. Conhece?
– Já ouvi falar.

Ele caminha passando pela minha porta, olha pra dentro, onde duas mulheres fazem trança, e vai até a porta da casa ao lado.

– Bom dia senhora, posso entrar?
– Pode.

Ele sai, se encaminha até a frente da minha porta.

– Bom dia meninas.
– Eu não permito que você entre.

Durante uns segundos ele observa e enfim caminha em direção a escada, passando por mim sentado no muro.

– Bom trabalho policial.
– Você não pode me fotografar, nem me filmar. Pergunta isso pro seu professorzinho lá na faculdade.
– Ok.





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