Arte

A necessária busca por Iara Iavelberg

O filme de Mariana Pamplona e Flávio Frederico desmascara mais uma das cínicas lendas criadas pela ditadura civil-militar para justificar seus crimes.

24/04/2014 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

A emocionante história da resistente paulista Iara Iavelberg, assassinada, em agosto de 1971, aos 26 anos, durante a ditadura civil-militar do Brasil, na cidade de Salvador - como todas as evidências mais confiáveis e atualizadas atestam -, é definida pela sobrinha Mariana Pamplona, como "uma história muito dolorida" para sua família. A polícia invadiu a casa dos pais de Iara diversas vezes, "minha avó recebia telefonemas de madrugada comunicando a morte dela", diz Mariana, "e todos viviam num estado de tensão e vigília constante. Minha avó nunca se recuperou da perda da filha."
 
Agora, aos 42 anos - os avós já falecidos e os restos mortais de Iara exumados e sepultados em local apropriado, aquele dos não suicidas, em cemitério judaico -, Mariana é a roteirista e apresentadora do percurso da tia, através de dezenas de testemunhos. Irmãos, colegas, amigas, companheiros na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) e no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) e o depoimento do legista independente Daniel Munhoz, que analisou minuciosamente as circunstâncias da sua morte (e concluiu contra a tese de suicídio) são apresentados nesse documentário dirigido por Flávio Frederico, Em busca de Iara, há um mês em exibição em diversas capitais. Num modesto circuito de São Paulo (apenas dois  cinemas) e no Rio de Janeiro em um só horário e num único cinema.
 
Mas a permanência do filme em cartaz explica-se pelo interesse e pela pesquisa histórica a que se dedicam os mais jovens e todos os que, até agora, se encontravam desinformados sobre a morte da Iara. Sua trajetória de estudante de Psicologia da Faculdade de Filosofia, no legendário prédio da USP, na Rua Maria Antonia, em Vila Buarque; o ingresso na luta de resistente à ditadura e consequente clandestinidade e a história de amor e companheirismo que viveu com o capitão Carlos Lamarca não fazem do filme de Flávio e Mariana uma mera cinebiografia.
 
Resultado de minuciosa e paciente investigação sobre as condições da morte de Iara, mostra em definitivo que a moça não se suicidou quando o aparelho onde se encontrava, no bairro da praia da Pituba, foi estourado pelos agentes da polícia como a mídia, na época, noticiou e até como alguns historiadores mesmo hoje registram.
 
Este é o centro do documentário no qual se prova que Iara foi fuzilada quando se escondia no banheiro de serviço do apartamento contíguo ao qual vivia quando da chegada de 200 agentes fortemente armados, logo em seguida acompanhados pelo famigerado delegado e torturador paulista Sergio Fleury cuja imagem rápida e meio desfocada é apresentada no filme, ao chegar ao prédio objeto da Operação Pajuçara, uma importante ação de propaganda para a ditadura.
 
Os rumores, depois de cruzadas informações dos serviços secretos no Rio, São Paulo e Bahia eram os de que nesse local Lamarca estaria abrigado – mas ele se encontrava na Vila da Ribeira, sertão baiano, distante de Iara.
 
A investigação de Mariana procura desconstruir a versão oficial da morte de Iara – suicídio - assim como algumas referências reducionistas que desqualificam "a moça de alta classe média, "milionária", muito bonita fìsicamente e fútil." Diferente do que diz, no filme, sua tia Rosa: ela era apenas uma "moça vaidosa".
 
Referências falsas não dizem que era Iara era estudante brilhante, intelectual de particular inteligência, irmã de dois resistentes, Samuel e Raul, que, assim como ela, viveram na clandestinidade e precisaram se exilar fora do Brasil.
 
Estudiosa de Marx, Iara aprofundou Lamarca nos fundamentos da filosofia marxista. Foi quem reforçou a formação política do comandante militar da VRP, que em 71 resistia à pressão do comando político da organização que o queria, seguro e vivo, fora do país. "Ela me deu condições para trabalhar," Lamarca registra, sobre a companheira, no seu famoso diário capturado numa ação policial na qual caíram alguns companheiros resistentes.
 
A certidão de óbito oficial de Iara, assinada pelo legista Charles Pittex, dá sua morte em 20 de agosto de 1971. Seu corpo foi entregue à família, em São Paulo, em caixão lacrado (apenas o rosto pôde ser vislumbrado) com a proibição explícita de que fosse aberto e que membros de sua família sustentassem o caixão ao local do sepultamento. Lamarca morreria menos de um mês depois.
 
No filme, há imprecisões em alguns testemunhos de entrevistados com os quais Mariana procura mapear a origem e o caminho, depois percorrido pela polícia, e provocaram a queda do aparelho onde se encontrava Iara. Há um depoimento comprometido, desnecessário, do médico legista baiano Lamartine Lima, oficial da Marinha, no qual tenta justificar a tese de suicídio. Há poucas imagens de época. E um depoimento desencantado, no qual o comentário: de que adiantou a história da morte de Iara?
 
Não se justifica, mas fez sentido. Hoje, o Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo deu o nome da corajosa ex-aluna ao seu diretório: Centro Acadêmico Iara Iavelberg. Iara também batiza uma praça no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro e outra no bairro de Pirituba, em São Paulo.
 
Vivemos num país no qual podemos assistir a um filme como Em busca de Iara, Menção Honrosa no Festival É Tudo Verdade, que agora seguirá para ser mostrado em Cuba e no Uruguai.
 
Em Busca de Iara é um filme necessário. Desmascara mais uma das cínicas lendas criadas pela ditadura civil-militar para enfeitar e justificar as histórias dos seus crimes.



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