Arte

Amor em meio as sombras

15/09/2013 00:00

Gérson Trajano

Manter-se alheio à política é uma forma de dar apoio antecipado e incondicional a todas as decisões do governo, o que é, em última análise, uma posição política. No filme ‘De Amor e de Sombras’ (1993), da venezuelana Betty Kaplan, Isabel Beltran (Jennifer Connelly) é uma jornalista que trabalha para uma revista de moda. De uma tradicional família burguesa do Chile, ela vive alheia a realidade que o golpe militar impôs ao seu país em 1973.

O filme é baseado no romance de mesmo nome da escritora Isabel Allende. A história começa onde A Casa dos Espíritos, outra obra da escritora, e que também virou filme nas mãos do diretor dinamarquês Billie August em 1995, termina, no golpe de Estado comandado pelo general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973.

Durante os anos de ditadura (1973-1990), o governo Pinochet perseguiu, prendeu, exilou, exonerou, torturou e assassinou milhares de chilenos. Os órgãos de segurança do Estado semearam o medo e exerceram o controle social através da vigilância permanente da elaboração de listas negras e da censura.

Neste ambiente, as reportagens de Irene são apenas de assuntos tolos e fúteis, o que a afasta ainda mais do sofrimento que o povo está passando. Alem disso, ela é noiva de um capitão do Exército, Gustavo Morante (Camilo Gallardo), que também ignora as ações dos seus comandantes.

A vida da jornalista muda, quando ela contrata o fotógrafo Francisco Leal (Antonio Bandeiras), para trabalhar na revista. Marxista, filho de um anarquista espanhol, Leal começa a dar outro sentido à vida de Irene.

Leal é psicólogo e teve sua clínica fechada pelos militares, mas na clandestinidade, ademais da fotografia, realiza sessões de terapia com pessoas que foram torturadas, abusadas sexualmente ou sujeitas a qualquer tipo de violência por parte das forças policiais.

Em suas sessões, ele levanta os nomes dos torturadores, para criar uma lista a ser cobrada no futuro. “Precisamos dos nomes dos torturadores para que isso nunca mais aconteça. Nunca mais”, diz Leal para uma mulher que foi torturada na frente de seu filho, para que ela revelasse nomes de adversários do regime militar.

Amor e sombra – Com Francisco, Irene descobre um novo amor e um país diferente daquele que ela julga conhecer. Um país mergulhado no terror, na escuridão e na miséria. Dominado pelo medo, injustiça e violência.

Em uma lambreta, os dois saem para fazer uma reportagem, em uma localidade pobre de Santiago, sobre uma adolescente que tem poderes paranormais, chamada Evangelina. Enquanto estão assistindo aos fenômenos provocados pela garota, chega um pelotão de soldados em caminhão do exército, que sem justificativa prende e leva a jovem.

Irene e Francisco resolvem investigar o paradeiro da moça. Durante a investigação, a dupla descobre diversos assassinatos e um cemitério clandestino, em uma antiga mina abandonada. Francisco fotografa o local e entrega as fotos para a comissão dos Direitos Humanos, chefiada pela Igreja Católica. O governo nega o envolvimento no caso e responsabiliza os comunista pela existência do cemitério.

As descobertas levam a um caminho sem volta e Irene passa a ser perseguida pelos militares. Ela sofre um atentado. Gravemente ferida, ela e Francisco iniciam uma fuga para o exílio.

O filme de Kaplan é uma denuncia contra a liberdade de expressão, a arbitrariedade e os traumas causados pela ditadura Pinochet. Denuncia que nem sempre pode ser feita às claras, como demonstra Francisco Leal, que trabalhar nas sombras como estratégia para tornar visível as ações da ditadura.

Para ressaltar a atmosfera em que vive o Chile, e marcar o título da obra, Kaplan abusa dos ambientes de penumbra e de pouca luz. Dos diálogos quase sussurrados e de uma trilha sonora melancólica. Neste clima repressivo, o amor que nasce entres os protagonistas da história é a luta da vida contra a morte.



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