Arte

Arquivos de Augusto Boal: deambulações de um tesouro

Boal merece muito mais que um ato presidencial assinado no ano passado, que declarou o dia do seu nascimento como o Dia do Teatro do Oprimido

16/03/2018 10:56

 

 

Aos 25 anos, em 1956, Augusto Boal integrou o Teatro de Arena, em São Paulo, do qual foi diretor artístico. Em 1968 criou a Feira Paulista de Opinião, que este ano comemora 50 anos.

 Mas Boal, que estaria comemorando 87 anos neste 16 de março, não foi apenas um grande diretor de teatro, reconhecido e respeitado por seus pares. Foi um dramaturgo e um intelectual que marcou sua geração. Criou grupos de teatro, inventou o teatro do oprimido, espalhado hoje pelo mundo inteiro, escreveu livros de teoria teatral e percorreu o mundo dividindo sua experiência e seu entusiasmo com novas gerações. Com 22 livros publicados e traduzidos em mais de vinte línguas, sua teoria é estudada nas principais escolas de teatro do mundo.

“O Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores, porque atuam, e espectadores, porque observam. Somos todos 'espectatores'“ escreveu.

Hoje, Augusto Boal (16 de março de 1932- 2 de maio de 2009) faz parte do patrimônio imaterial do Brasil, este país que ele amou e que fez brilhar no mundo inteiro.

Mas no Brasil não há, ainda, um espaço para receber e abrigar como convém os arquivos do grande teatrólogo (textos originais, cartazes de peças, fotos, recortes de jornal), homenageado pela Unesco em 25 de março de 2009, em Paris, pelo Dia Internacional do Teatro, comemorado dia 27 de março.

Boal foi o autor da mensagem que o Instituto Internacional do Teatro – ITI em inglês – da Unesco enviou para ser lida em todos os teatros do mundo. Ele se juntava, assim, ao seleto grupo que inclui Jean Cocteau, autor da primeira mensagem, Lawrence Olivier, Peter Brook, Luchino Visconti e, mais recentemente, o prêmio Nobel de Literatura Wole Soyinka.

Tive o prazer de estar presente à cerimônia na Unesco, que cobri para um jornal paulista.

“Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo”, dizia a mensagem exibida em cartazes em 45 línguas. O texto de Boal foi lido em todos os teatros do mundo antes do espetáculo, na noite do dia 27, dia internacional do teatro.

Indicado para o Nobel da paz de 2008, Boal é o homem de teatro brasileiro mais conhecido, premiado e estudado internacionalmente, graças à sua maior criação, o teatro do Oprimido, praticado em mais de 70 países.

“Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade : é aquele que a transforma”. Com essa frase Augusto Boal terminou sua mensagem lida em português, na Unesco, em Paris, diante de um auditório repleto. Aplaudido de pé depois da cerimônia em torno do teatro do oprimido, o brasileiro foi homenageado por representantes de vários continentes.

Na cerimônia, o representante do ITI, Tobias Biancone, nomeou Augusto Boal Embaixador Mundial do Teatro, honraria que dividiu com mais seis embaixadores : Vaclav Havel, Wole Soyinka, Anatoli Vassiliev, Ellen Stewart, Arnold Wesker, Vigdis Finnbogadottir e Girish Karnad.

Boal explicou que “todo teatro é uma forma de ação política, contra ou a favor do status quo. No nosso caso, o teatro é uma ação política consciente. Sabemos que existem opressões, que queremos combater. É uma forma de fazer política, sem ser política partidária”.

Saudado pelos oradores da noite como autor de um teatro que revolucionou a arte teatral, ajudando a solucionar problemas sociais em todos os continentes representados na cerimônia, Boal foi apresentado como um artista que viveu o teatro como um vetor de transformação social, seja na Índia, no Brasil, no Sudão ou na Palestina, onde grupos do teatro do oprimido reúnem israelenses e palestinos.

Patrimônio à espera de um espaço

De passagem por Paris, vinda do Porto onde foi inaugurar a Exposição Cartas do Exilio – que começou uma carreira de sucesso no Instituto Moreira Salles do Rio – Cecilia Boal contou a dificuldade em manter e tornar acessível o acervo que Augusto Boal acumulou durante toda sua vida.

A pequena exposição das “Cartas do Exílio”, com curadoria de Eucanaã Ferraz, acabou se transformando num sucesso muito além do esperado.

“Essa exposição que já esteve em Lisboa e no Porto, se transformou numa carta também, uma mensagem de um outro Brasil, que também existe, apesar de tudo”, diz Cecilia. 

Assim, depois do Rio, a exposição foi para o Sesc Vila Mariana de São Paulo, indo depois para o Museu da Memória e Resistência em Lisboa e em seguida para o Espaço Mira, na cidade do Porto, em Portugal. 

Buenos Aires e Londres, lugares onde o teatrólogo viveu e trabalhou, deixando a marca forte da sua presença, devem ser as próximas cidades a exibir as cartas, doadas por Cecília ao Instituto Moreira Salles. 

“O público entende a mensagem do exilado e, por isso, a exposição se transformou num suporte de debates de questões tão atuais como a dos migrantes na Europa”, diz Cecília Boal. 

Em 2010, a New York University soube que Cecilia estava procurando fundos para tratar os arquivos e torná-los acessíveis online. O diretor da Biblioteca da NYU, Michael Nash, foi ao Rio e fez contato com ela dizendo que queriam fazer uma oferta para a compra.

Esse foi o fato que gerou uma nota num jornal carioca e depois a reportagem intitulada “Augusto Boal novamente exilado e oprimido”.

“Houve uma torrente de ódio sugerindo, inclusive, que fizéssemos uma fogueira de São João”, conta Cecilia.

Nessa época, Sérgio Carvalho, diretor da Companhia do Latão de São Paulo, foi ao Rio para encontrar Michael Nash juntamente com Cecília Boal. Mas Cecília não queria vender. Acha que o lugar dos arquivos Boal são no Brasil.

Diante do movimento de oposição a que o acervo saísse do Brasil, ele ficou no Rio, sem contudo ter um lugar perfeitamente adequado para preservar os documentos e receber pesquisadores para consultas.

Desde 2011, o acervo de Boal está sendo tratado sob a supervisão de Célia Leite Costa (ex-diretora do CPDOC e do Museu da Imagem e do Som), que coordena o trabalho de catalogação e restauração. Metade desse trabalho já foi feito.

Diante do estado em que os arquivos estiveram relegados em diferentes instituições que revelaram interesse em mantê-los, Cecilia Boal decidiu levá-los para sua casa enquanto aguarda uma destinação adequada para eles.

Augusto Boal merece muito mais que um ato presidencial assinado no ano passado, que declarou o dia do seu nascimento como o Dia do Teatro do Oprimido.

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