Arte

Assane Diop e Herlock Sholmes

Segunda temporada de 'Lupin', o sucesso francês no streaming, continua readaptando o personagem de Maurice Leblanc de forma divertida, mas menos sedutora que a anterior

22/06/2021 10:13

(Reprodução/Divulgação)

Créditos da foto: (Reprodução/Divulgação)

 
:: Leia Mais: Resenha dos episódios da primeira temporada de Lupin ::

Um dos cartazes mais acessados na sua primeira temporada, Lupin retorna agora na Netflix em um segundo tempo depois meses de expectativa. Apenas no primeiro trimestre deste ano 76 milhões de assinantes acessaram os episódios da primeira temporada da série que revisita, em língua francesa, os clássicos de Maurice Leblanc. E já está contratada a terceira temporada para ir ao ar no fim do ano.

Se essa segunda temporada, com cinco episódios e recém colocada no ar, não é brilhante nos achados nem tão divertida como a anterior mesmo assim é cativante, novamente emoldurada pelo cenário das ruas e locais memoráveis de Paris, um dos mais atraentes do mundo. Especialmente este ano e neste momento em que a cidade está se abrindo novamente numa trégua da pandemia do coronavírus para mais uma temporada de verão, começo da grande festa anual da população da cidade e dos turistas.

Em Lupin as blagues começam com o nome afrancesado do protagonista, Assane, acrescido do sobrenome africano - Diop - batizado assim para dar vida ao célebre personagem Arsène Lupin ancorado no charme e no carisma do ator, roteirista, dublador e humorista francês Omar Sy, de 43 anos, filho de mãe mauritana e de pai senegalês. Ao invés da anacrônica casaca de Arsène Omar foi vestido com a descontração (dos ricos) à maneira do século 21. Elegantes, descontraídos e longos casacos de cachemere, jeans bem cortados e tênis de última geração substituíram o figurino século 19.

Os roteiristas da série, George Kay e François Uzan canalizaram sua habilidade para insinuar, de modo cada vez mais explícito, nesses cinco episódios da nova temporada, a questão do racismo estrutural antes latente nas sociedades dos grandes estados ocidentais e hoje desvelada nas manifestações de massa dos novos tempos e com os acertos exigidos com o passado colonialista.

As ações bem articuladas e os protestos antirracistas, mantidos ativos nas ruas das grandes cidades serviram, evidentemente, de inspiração para a livre adaptação irônica dos roteiristas. Além da luta contra a classe das 'elites' Assane também aponta para a discriminação racial da burguesia branca.



De modo geral, a história da segunda temporada de Lupin é esta: Assane sofre as consequências do seu plano de vingar o pai morto, acusado pelo milionário, um corrupto de alto coturno e influente Hubert Pellegrini (Hervé Pierre) de um crime que ele não cometeu. Pellegrini, cada vez mais, abre para o espectador as safadezas dos seus mega negócios (inclusos capitais desviados para paraísos fiscais, é claro) e repisa e prova, a cada passo, que é amigo íntimo de membros do governo. É um intocável.

A luta de Assane é contra o poder econômico associado ao poder político como sói acontecer nas melhores sociedades. Embora os puristas, fiéis seguidores das histórias de Arsène Lupin, torçam o nariz para a reinvenção do personagem, os volumes de Blanc, A Mulher Loura e O candelabro judaico constituem a clara inspiração para a atual temporada da série. E aqui, um dos mais divertidos lances é a alusão ao detetive criado por Conan Doyle revivido no policial Herlock Sholmes, o Sherlock francês.

Também nos novos episódios há flashbacks cortando a narrativa com frequência, com lembranças de Diop quando garoto, mas que, de tão telegráficas, não são funcionam bem como antes, na primeira temporada.

Qual o destino final de Pellegrini? E de Raoul, o filho de Assane? De sua ex-mulher Claire? E do interessante personagem do policial Guedira, também louco pelos livros de Lupin, um agente incompreendido no mar de policiais corruptos e/ou omissos de Paris? E qual será o destino de Benjamin, o antiquário amigo dileto de Assane? Todos esses destinos ficam para a terceira temporada. Deve-se esperar até lá.



As séries na universidade

O grande sucesso das séries de audiovisual, com um número ainda maior de acessos nos finais de semana com as folgas no trabalho, reside no fato de atenderem desejos dos espectadores que podem controlar os horários e a maneira com que vão assistir o espetáculo - um capítulo a cada dia, por exemplo, ou muitos (ou todos) de uma só vez. As séries podem ser vistas em ritmo de maratonas programadas pelo freguês. Atualmente, elas são, com frequência, refúgio e consolo de populações confinadas em casa resistindo ao coronavírus.

Este é um estudo que está chegando como tema de pesquisa universitária. É o caso de Consumo em Rede – Distribuição de Conteúdos Audiovisuais em Plataformas Digitais da professora Vanessa Amália Dalpizol, coordenadora desse trabalho na Universidade de Novo Hamburgo/Rio Grande do Sul.

As séries podem ser vistas como a versão digital das séries de quadrinhos do século passado enfeitadas com algumas pitadas melodramáticas das facilidades, obviedades e até da vulgaridade das telenovelas brasileiras. São embaladas com alguma sofisticação e complexidade e começam a constituir objeto de estudos acadêmicos.

Para alguns, elas significam o deslocamento do tempo dedicado a outras práticas, - horas de sono, tempos de alimentação, leituras, lazer - direcionadas a atividades básicas, ''o que pode ilustrar os aspectos característicos das práticas relacionadas a esse processo'', registra a professora Amália Dalpizol.

“Em final de semana a gente assiste quatro, cinco, seis episódios de uma série, ou assiste dois, três filmes um atrás do outro”, declara uma mulher entrevistada para o estudo Práticas de binge-watching na era digital.

A farra (binge-watching) digital do consumo sucessivo e ao mesmo tempo dos vários episódios de uma temporada de série ''estabelecem um padrão de consumo específico com novas rotinas e procedimentos para o consumo de conteúdo audiovisual. O espectador, assim, assiste a diversos produtos audiovisuais – na sequência temporal desejada - sem a necessidade de pausas semanais ou de intervalos comerciais''.



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