Arte

Cultura nacional e universitários, um resgate urgente

A partir desta quinta-feira (12.09), coletivo promove sessões e discussões de filmes e músicas nacionais. Encontros acontecem quinzenalmente no prédio das Letras, na USP. Estão todos convidados

10/09/2019 12:32

 

 

A partir de 12 de setembro, o coletivo Cine-Rádio-Semiótica Patrícia Galvão promoverá sessões e debates quinzenais de filmes e álbuns musicais produzidos por artistas brasileiros. Os encontros acontecem às 13h30, na sala 201 do prédio de Letras (FFLCH-USP), e não se restringem ao público acadêmico, estão todos convidados.

Formado pelo professor Antonio Vicente Pietroforte (Linguística – USP) e por seus orientandos de iniciação científica, Juliet da Silva Rodrigues, Matheus Bueno e Guilherme Pezzente, o coletivo visa atender uma demanda concreta nas universidades brasileiras, o desconhecimento, por boa parte dos jovens que entram na universidade, da produção musical e cinematográfica brasileira que se encontra fora da indústria cultural, ou seja, a produção que não toca nas rádios e nem passa na televisão.

“Nenhum aluno meu sabe o que foi a música brasileira nas décadas de 1950 e 1960. Isso é terrível. Muitos conhecem a história do rock e a do jazz – e não há nenhum problema nisso, é para conhecer mesmo –, mas desconhecem o nosso modo de compor, a nossa forma de expressão, a história da nossa cultura que é tão importante quanto”, destaca Pietroforte.

“Já vi alunos dentro dos departamentos de Letras que desprezam a literatura brasileira. E isso não tem cabimento. Você não pode ler literatura brasileira com o paradigma europeu ou norte-americano. Aliás, a crítica literária surge justamente dessa contestação e, reconheça-se, o Antônio Cândido foi um dos responsáveis por isso”, complementa.

Ao criar o grupo, essencialmente com alunos de graduação, Pietroforte pretende fomentar a discussão em torno do imperialismo e da indústria cultural. “A cultura precisa dialogar com a indústria; aí você manipula a indústria contra a cultura, promovendo a padronização desde o timbre dos instrumentos à própria escolha do que pode ou não ser gravado, e sob critérios de mercado. Então, deixa de gravar a música nordestina, não investe no filme político etc. O resultado é o apagamento dessa memória cultural do país.”

Mantê-la viva é, portanto, o primeiro objetivo das sessões que acontecerão sempre no período da tarde, a partir das 13h30, possibilitando que alunos de primeiro ano, que assistem às aulas no turno da manhã, acompanhem os encontros. Filmes e músicas serão discutidos de modo alternado. Na primeira quinzena dos meses de setembro, outubro e novembro, serão exibidos os seguintes filmes brasileiros:

12.09.2019 (13h30, sala 201) - “O Homem que Virou Suco”, de João Batista de Andrade (informações aqui);

10.10.2019 (13h30, sala a divulgar) – “Terra em Transe”, de Glauber Rocha (informações aqui);

14.11.2019 (13h30, sala a divulgar) – “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla (informações aqui).

Por se tratar de atividade de formação acadêmica, os filmes serão vistos na íntegra e poderão ser interrompidos, durante a exibição, para análise de determinados trechos. Essas sessões serão alternadas com audições de álbuns nacionais, promovidas na segunda quinzena do mês, conforme programação abaixo:

26.09.2019 (13h30, sala 201) – “Zabumbê bum á”, de Hermeto Pascoal (informações aqui);

24.10.2019 (13h30), sala a divulgar) – “Vivo”, de Alceu Valença (informações aqui);

28.11.2019 (13h30, sala a divulgar) – “Marcha sobre a Cidade”, Grupo Um. (informações aqui).

“Uma das vantagens de termos uma indústria cultural fraca é que os artistas não aguentam e acabam caindo no universo da produção alternativa muito cedo. Na música isso acontece desde 1980 e naquele momento as músicas ainda tocavam nas rádios, hoje os alunos chegam na universidade totalmente alheios a essa produção mais experimental”, analisa Pietroforte.

Membro do coletivo Cine-Rádio-Semiótica Patrícia Galvão, Guilherme Pezzente observa que “a cultura brasileira vem sofrendo ataques imperialistas há muito tempo, é possível observar como a música popular brasileira se padronizou aos moldes norte-americanos, seja em relação à forma ou ao timbre. A indústria americana de instrumentos se sobrepõe à industria brasileira, e como os instrumentos são produzidos em massa, todos iguais, a identidade sonora da música brasileira também se perde”.

Estudante do primeiro ano de Linguística, Pezzente passou três anos estudando bateria e percussão com o percussionista mestre Dinho Gonçalves, aprendendo sobre música cubana, africana e brasileira. “Muita gente não conhece música brasileira. Há também muito preconceito, por exemplo, com a música nordestina que é incrível. Nós temos o Hermeto e ele não é único. O Nordeste está lotado de gênios e em todas as artes”, complementa.

Seu caso, porém, é raro. Grande parte dos graduandos, como Matheus Bueno, estudante do quarto ano de hebraico, tem no ambiente universitário o primeiro contato com a produção fora do circuito comercial. "Ao abordar e debater filmes e álbuns independentes, em diferentes contextos políticos, históricos e sociais do país, nós passamos a ter uma visão diferente da cultura brasileira e uma relação maior com nossos vizinhos latino-americanos, afinal, nossa realidade social e linguística está muito mais próxima desses países do que de quaisquer outros”, aponta.

“O jogo do imperialismo é, justamente, suprimir nosso patrimônio cultural; o brasileiro médio não vê valor nas produções do país, porque seu gosto está moldado por essa indústria e, ademais, ele constantemente se vê mais próximo do cidadão americano do que do cidadão latino. O Cine Rádio Semiótica Patrícia Galvão vem mostrar que o Brasil tem sim sua produção cultural produzida fora dos moldes da indústria cultural", complementa.

Assim como Matheus, o repertório sobre a cultura nacional de Juliet da Silva Rodrigues se ampliou desde que entrou no departamento de Letras, em especial, o contato com o cinema nacional. “O pessoal vem falando ‘não vejo filme brasileiro porque não gosto’. Boa parte nunca viu filme brasileiro na vida. Isso também acontece na música, mas a indústria cultural não consegue apagar a cultura. Aliás, ela vem acontecendo e desde sempre no underground”, aponta.

Pesquisadora de spoken word, forma artística entre os limites da canção e da fala, Juliet conta que os filmes recentes que passam no cinema de São Paulo não passam em São Roque, cidade onde cresceu, no interior paulista. “Lá são apenas duas salas, e a programação se limita a blockbusters, filmes de terror, infantis, e filmes associados a programas de TV, da Globo”, detalha.

No quarto ano de graduação, ela procurou Pietroforte para estudar spoken word, fenômeno artístico que se situa entre a fala e a música. “Eu conheci o spoken word brasileiro antes de saber que ele era feito nos Estados Unidos há muito tempo. Então procurei o Vicente quando fiz o curso de semiótica porque ele me pareceu muito aberto a vários gêneros artísticos e eu precisava de um orientador com uma visão plural”, aponta.

Em tempos de Bolsonaro, de permanente ameaça à cultura, à ciência e à vida universitária, os debates promovidos pelo coletivo Patrícia Galvão visam resgatar essa memória cultural, fundamental em tempos de resistência. As reuniões começam a partir do dia 12 de setembro, às 13h30, na sala 201 do Prédio de Letras, com a exibição e discussão do filme “O Homem que virou Suco”.

Acompanhe aqui (https://www.facebook.com/cineradiosemioticapatriciagalvao/) a página do coletivo.

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