Arte

Dez razões pelas quais John Lennon segue sendo importante meio século depois de sua morte

Há 50 anos John Lennon foi assassinado nos Estados Unidos, o beatle havia lançado um disco há pouco tempo e desde que Yoko Ono entrou em sua vida, era um ativista político engajado pelas causas justas

17/12/2020 21:29

John Lennon em Nova Iorque, em 1977 (Getty Images)

Créditos da foto: John Lennon em Nova Iorque, em 1977 (Getty Images)

 
1 - Virou a música popular de cabeça pra baixo

Com os Beatles, impulsionou a evolução musical do rock até o beat e a partir daí, um pop sem limites (psicodelia, experimentações sônicas, orquestras) cuja influência segue até hoje. “A day in the life” é uma revolução pop pro si só. A carreira solo de Lennon, sem a gasolina da rivalidade com Paul McCartney, foi menos impactante, mas com os quatro, ele modificou o atlas da música e foi além. “A consciência universal da humanidade se mudou para Liverpool”, advertiu o poeta Allen Ginsberg em 1964.

2 - Mais famoso que Jesus Cristo

A frase com a que comparou os Beatles ao enviado de Deus na Terra situou as dimensões do monstro pop arrasando com referências coletivas seculares e indignando congregações. Na verdade, Lennon não falava de grandeza, nem de transcendência, mas de popularidade, o outro ouro negro do século 20. A “beatlemania" foi a mãe de todos os fenômenos juvenis, e por aí Lennon se locomoveu com comodidade, fazendo de sua projeção pública parte de sua obra, até seu retiro, em 1975.

3 - Alçou sua voz pela paz

“Give peace a chance” (1969), música sobre os finais de semana de protesto na cama com Yoko Ono (um em Amsterdã e outro em Montreal), é o ‘happening' pacifista definitivo. Em seguida ele devolveu a medalha da Ordem do Império Britânico (galardão real laureado a personalidades britânicas, os outros Beatles também receberam, e George também devolveu) em protesto porque o Reino Unido apoiou os EUA na guerra do Vietnã. O cidadão pacifista ganhou forma com as canções “Happy Xmas (War is over)”, "I don’t wanna be a soldier mama" e “Imagine”. Suas investidas contra o presidente Nixon o tiraram do trono onde ele vinha reinando desde os anos 70, quando recebeu ameaça de ser deportado apelando à antiga detenção por posse de cannabis.

4 - Atuou contra a segregação racial

Em uma de suas primeiras incursões nos Estados Unidos, em 1964, os Beatles se depararam com um recinto em Jacksonville (Florida) que divida o público pela raça. O grupo não titubeou: “não tocamos diante de audiência segregadas, e não vamos começar a fazê-lo agora”, declarou Lennon, como aviso para as futuras turnês. A música “Angela” (1972), dedicada a Angela Davis, a ativista que na época estava presa por sua atuação nos Panteras Negras. E o álbum “Rock'n'roll" (1975), reivindica a negritude de gênero com peças de Chuck Berry, Fats Domino e Bobby Freeman.

5 - Feminista

Em “Getting better”, dos Beatles, uma linha atribuída a Lennon diz que ele foi “cruel" com sua ex-mulher, Cynthia. Fato confirmado por ele mesmo, vinculado ao maltrato e aos valores tradicionais nos quais ele cresceu e ao início da sua vida como rockstar. A reviravolta na vida de Lennon aconteceu com a chegada de Yoko Ono. A partir da “reeducação”, ele buscou sua “parte feminina, mais Oscar Wilde que Marlon Brando”, e passou a escrever canções como "Woman is the nigger of the world” (1969). Depois do casamento, seu nome de nascimento John Winston, virou John Winston Ono, mas ela nunca adotou o sobrenome dele, diferente de Linda MacCartney ou Bianca Jagger.

6 - A revolução do amor

Enquanto muitas canções dos anos 1960 abriam interrogações ou levantavam problemas, “All you need is love” dava uma resposta singela a tudo. Logo, o obstinado e duradouro vínculo com o Yoko Ono, contra o vento e a maré, incluindo as iras de uma parte dos fãs, levou à prática sua revolução do amor. O amor rege uma boa parte do cancioneiro de Lennon, desde a explícita “Oh Yoko” à outonal “Woman”, passando por “Jealous guy”.

7 - Advertiu que o povo tem o poder

Antes de “People have the power”, da Patti Smith, e um pouco depois daquele verso de Joan Borssa “La Gent no s’adona Del poder que té), teve “Power to the people” (1971), a música que Lennon escreveu a partir de uma entrevista com os diretores da revista “New Left Review”. Ainda que não tenha crescido em uma família de trabalhadores pobres, falou sobre isso em “Working class hero, onde advertiu sobre a alienação do entretenimento e o canibalismo social. Mas a política nem sempre foi o melhor dele, seu álbum mais comprometido, “Some time in New York City” (1972), é o pior de toda sua discografia.

8 - Abriu mão da fama

Com o nascimento de Sean Lennon, em 1975, se afastou da vida pública em prol da vida familiar, tão descuidada quando veio ao mundo Julian (o primeiro filho, com Cyntia, nascido em 1963). Testemunho desse período é a simpática “Cookin ( in the kitchen of love)”, que ele não lançou, mas deu de presente a Ringo Starr para o álbum “Rotogravure”. Mesmo que afastado da fama, foi ela que acabou com ele: os disparos de Mark David Champan cobriram para sempre seu risonho e último disco de retorno, “Double fantasy”, lançado em parceria com Yoko em 1980.

9 - Resistiu a um “revival"

Uma boa parte do mito “beatle” se sustenta por causa da negativa de seus membros de aceitar alguma das muitas ofertas que receberam para se reunir ao longo dos anos 70, depois do fim da banda.

10 - Quase ninguém escapa de sua influência

O pop em seu conjunto deriva de uma alta proporção da obra de Lennon com os Beatles, incluindo devotos confessos como Kurt Cobain, Oasis, Paul Weller, Lenny Kravitz, Elvis Costello, Cheap Trick, Mercury Rey, Tori Amos, Miguel ou Mac DeMarco. E a clássica “Imagine” que toca tanto em funerais quanto em aniversários, conta com mais de 200 versões gravadas por toda classe de artista, entre eles Madonna e Lady Gaga.

*Publicado originalmente em rebelion.org | Tradução de Mariana Serafini

Conteúdo Relacionado