Arte

Dois filmes sobre o nazifascismo

25/05/2006 00:00

Ernesto Perez

CANNES - Um inesperado concorrente de Pedro Almodóvar para a Palma de Ouro no 59º Festival de Cannes foi exibido nesta quinta-feira, 25 de maio. Por meio da visão do diretor Rachid Bouchareb, o filme retrata a utilização de 130 mil norte-africanos de colônias francesas como linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial.

"Indigènes", o quarto longa-metragem do diretor francês de origem tunisiana Bouchareb, é um filme que examina com delicadeza, mas sem rodeios, a diferença de tratamento do exército francês às tropas de origem africana e européia. As primeiras eram usadas como bucha de canhão e alvo de discriminações em termos de licenças, promoções e alimentação. As segundas eram mimadas e enviadas para o front na segunda fila.

O aplauso que se seguiu à projeção antecipada para a imprensa foi ainda mais estrondoso que o ouvido para "Volver", de Almodóvar. Assim, o domínio do espanhol está ameaçado não só pelo recém-chegado como também pela frieza da crítica ao filme "Marie Antoinette" de Sofia Coppola que, em várias listas de prognósticos de prêmios publicadas pelas revistas do festival, aparece pela primeira vez destronado do primeiro lugar na classificação.

"Indigènes" é um mote racista que se dava durante a Segunda Guerra Mundial aos soldados norte-africanos que se alistavam para defender a "Pátria Mãe" na luta contra o nazismo.

Alistando-se por "amor à pátria" mas também para fugir da extrema miséria, estes soldados lutaram bravamente sem receber nada além de discriminações, que perduraram muito além da guerra se pensarmos que ainda em 1959 o governo francês votou uma lei que congelava as pensões de guerra dos veteranos das colônias que até então se tornaram independentes. Recentemente, em 2001, o Conselho de Estado aboliu esta decisão mas até hoje nenhum governo acatou a ordem.

O roteiro original de Bouchareb e Olivier Lorelle segue o destino de quatro soldados de países do Magreb, Said (o cômico Jamel Debbouze de "O fabuloso destino de Amélie Poulain", no seu primeiro papel dramático), Yassir (Samy Nacéri), Messaoud (Roschdy Zem) e Abdeljader (Sami Bouajila), unidos pela camaradagem e desunidos pelas idéias. Três deles morrem heroicamente para defender um pequeno povoado alsaciano.

O único sobrevivente foi Abdeljader, que chegará aos 80 anos sem ter conseguido a prometida liberdade, igualdade e fraternidade da Marselhesa e que também lhe foi negada pelos governos de Paris.

Mais além dos valores intrínsecos do filme, que são muitos, nos aplausos finais pesou certamente a culpa sentida pelos europeus, que poderiam inclinar a balança dos prêmios a seu favor.

Também foi projetado hoje "L'amico di famiglia", de Paolo Sorrentino, que trata temas financeiros com frases e ambições exageradas, o que incomodou uma pequena parte da imprensa, enquanto a maioria o aplaudiu vigorosamente.

Sorrentino conquistou Cannes em 2004 pela gélida beleza de seu "As conseqüências do Amor". O diretor napolitano que fará 36 anos em 31 de maio, é autor de uma obra-prima, "L'uomo in pi&mdash", premiada em Mar del Plata em 2000, o que o colocou imediatamente na limitada lista de cineastas italianos do futuro.

O diretor de rédeas soltas, com "O amigo de família", apresenta diálogos rebuscados e imagens que conspiram contra o êxito efetivo de seus propósitos, que pareciam ser os de atacar uma praga da sociedade italiana e acaba por ser uma variante sentimental de "A bela e a fera".

Geremia (um excelente Giacomo Rizzo, de longa trajetória como ator coadjuvante e que aqui estréia como protagonista) empresta dinheiro com juros abusivos aos pobres de Sabaudia, nova cidade construída por Benito Mussolini em terrenos beneficiados de malária e que conserva clara e firmemente a ideologia e o aspecto urbano do fascismo.

Geremia se faz passar por um amigo fraterno que revela sua verdadeira e impiedosa índole na hora de cobrar 100% de juros mensais e é um modelo de desonestidade e sordidez, como a sua mãe, que não sai da cama matrimonial desde que foi abandonada pelo marido.

Apaixonado por uma linda moça que o despreza, mas que acaba amando-o, Geremia perde a sua fortuna em uma cilada armada pelo seu melhor amigo e recupera essa humanidade que os pobres só costumam alcançar quando se resignam ao seu estado.

Sutil e pomposo, tanto na fala como nas imagens, "O amigo de família" é um mergulho em um esteticismo afetado do qual o diretor parecia imune. (ANSA)



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