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Escrever em Nova Iorque sob Trump: um papo virtual com Paul Auster

Escritor norte-americano seria o segundo participante do Fronteiras do Pensamento 2019, mas cancelou viagem ao Brasil e interação com o público aconteceu através de videoconferência

19/06/2019 14:53

(Luiz Munhoz)

Créditos da foto: (Luiz Munhoz)

 
Porto Alegre - Para alguns, a noite gerou certa impaciência. Não foram poucas pessoas que deixaram o salão de atos da Ufrgs no meio da conversa com o escritor norte-americano Paul Auster, desistências que aumentaram à medida que falhas na conexão virtual Porto Alegre - Nova Iorque se sucediam: foram três ou quatro na noite dessa segunda-feira, 17 de junho.

Paul Auster seria o segundo participante da edição 2019 do Fronteiras do Pensamento, mas uma emergência familiar o levou a cancelar sua viagem ao Brasil de última hora e sua fala acabou sendo transmitida ao vivo para o auditório, através de videoconferência.

Apesar da frustração por não poder ver de perto o autor de bestsellers e vencedor de muitos prêmios literários, o público acabou compensado pelo formato que a noite adquiriu. Ao invés das tradicionais palestras, abertas a perguntas apenas no final, Paul Auster protagonizou uma grande entrevista coletiva, mediada pelo jornalista da RBS Daniel Scola, com muitas perguntas formuladas pela plateia através de aplicativos e redes sociais.

(Luiz Munhoz)

Assim, ele passeou por assuntos diversos em trechos curtos. Literatura, política, democracia, criação, tudo isso em pouco mais de uma hora de conversa, interrompida pelas quedas na conexão. “Parece que o problema é aqui no hotel onde estou. É uma circunstância muito difícil, eu gostaria de estar aí e não pude”, desculpou-se. A conferência programada para São Paulo, na quarta-feira, 19 de junho, repetirá o formato.

Por outro lado, como as perguntas se sucediam em ordem de chegada, sem conexão temática, ficamos apenas a imaginar qual reflexão ele poderia ter feito ao conectar as respostas de duas questões formuladas a respeito de sua relação com a cultura norte-americana. A primeira era sobre Nova Iorque, cenário de todos seus livros e também sua morada atual, e para a qual Auster afirmou ter sempre “um olhar de estrangeiro” por não ter nascido lá, coisa que ele mesmo frisou ser característica de cerca de 40% dos habitantes locais, e que torna a cidade para lá de especial.

“Eu não estive em todos os lugares do planeta, mas nunca estive em uma cidade como Nova Iorque: parece que ela reúne o mundo inteiro em si e de fato, 40% das pessoas que moram aqui nasceram em outros países. Nas ruas, se escuta centenas de línguas diferentes, pode-se comer pratos, frutas de todos os cantos do planeta. A melhor coisa de Nova Iorque é a variedade de pessoas e coisas inesperadas”, elogiou.

Talvez o melhor mesmo de Nova Iorque seja o que torna possível essa convivência: “existe uma certa tolerância, para que tantas pessoas diferentes vivam juntas, é preciso aceitar a alteridade do outro, aceitar que não se é o centro do mundo, e que cada um tem diferentes ideias e formas viver, comer, amar. Se não aceitar isso, você não deve ir para Nova Iorque. Essa cidade é um laboratório para a democracia”, sugeriu.

A outra questão, que se fosse amarrada a esta daria muito pano para manga foi sobre Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos cujo projeto de barrar a imigração, inclusive construindo um muro físico na fronteira com o México, pode impactar fortemente essa que, na visão de Paul Auster é a melhor qualidade de Nova Iorque.

Crítico contumaz do líder republicano, Auster classificou Trump como um “lunático e pernicioso”, “provavelmente o pior coisa que já vi na história americana e a mais perigosa desde a guerra civil de 1861”.

(Luiz Munhoz)

“Eu me oponho a tudo que ele representa. Detesto suas falhas e maldades e me assusta muito porque seu apelo está influenciando líderes de outros países - e eu não preciso citar nomes, vocês sabem de quem estou falando”, provocou, gerando risadas na plateia.

Na opinião de Paul Auster, nestes dois anos e meio de mandato, Trump corroeu as instituições norte-americanas que todos os cidadãos daquele país consideravam inabaláveis: a Constituição e o Estado Democrático de Direito. “Ele não vai ficar aqui para sempre, mas o dano às fundações do país, eu espero que não sejam permanentes, embora isso não esteja claro para mim”, lamentou.

“Vamos ver o que acontece, mais uma eleição de Trump seria um desastre para nós; não tenho tanta confiança de que vamos conseguir tirá-lo do poder, e não conseguirmos isso vai ser muito perigoso e assustador”, concluiu.

Paul Auster também falou sobre sua rotina como escritor. São oito horas por dia preenchendo dezenas de páginas com uma esferográfica em papel, que depois ele digita na mesma máquina de escrever há 50 anos. “Quando consigo tirar de tudo isso uma página decente, não digo uma página pronta, acabada, mas apenas decente, eu já considero um excelente dia de trabalho”, revelou.

Além de não usar computador, Auster não tem celular. Há cinco anos se rendeu ao tablet, onde faz pesquisas que admite serem revolucionárias para seu trabalho - poder saber em qual dia da semana caiu o sete de julho em 1842 pode ser bem útil a um criador: “Antes era quase impossível, era preciso ir a uma biblioteca pesquisar e ainda assim, seria muito difícil. Hoje eu simplesmente digito ‘calendário 1842’ e em 10 segundos tenho a resposta”.

Mas ele admitiu ser refratário às tecnologias, em grande parte porque elas não cumpriram a promessa de liberdade e conexão, em sua opinião. “A internet trouxe um espírito otimista, que lançaria a humanidade e uma nova era, mas suas consequências negativas nunca foram consideradas de fato, e isso eu vejo agora”, acredita.

(Luiz Munhoz)

“Um instrumento que era para conectar, está dividindo. Na política, pode ser uma força para a democracia, para unir, mas também serve para reunir loucos, gente com ideias estúpidas sobre o mundo”, disse, exemplificando com a teoria terraplanista, que ganhou muitos novos adeptos graças à conectividade da rede. “São loucos no espaço cibernético”, concluiu.

Por essas e outras, ele prefere também os livros em papel aos e-books, que segundo relatou, tem apresentado quedas de vendas nos Estados Unidos. Mas no fim das contas, o que importa é viver histórias: “podem ser romances ou histórias em quadrinhos, narrativas na TV, no cinema, mas todo mundo precisa de histórias. O mundo não existe sem elas, cada cultura desde o início da humanidade contou suas histórias. É a coerência quando lá fora tudo é caos, essa claridade que nos ajuda a compreender o mundo. Pode ser na tela, no papel, em audiobook, as histórias são o que interessa e a arte é um presente que damos para outra pessoa”.

Isso sim, romances, fez questão de sublinhar, são “o único local no mundo no qual dois estranhos se encontram, em termos de intimidade absoluta: o escritor coloca nele toda sua energia, e o leitor a recebe. Se houver conexão e comover o leitor, é um círculo mágico”, concluiu.

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