Arte

Festival do Rio - A estrada da violência e do desalento

Em Valentine Road, Marta Cunningham é capaz de lidar com um tema perturbador sem o barulho do cinema extrovertido de Michael Moore.

15/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação



A diretora Marta Cunningham terminou o seu documentário Valentine Road treze anos depois do massacre na universidade de Columbine, no Colorado, onde dois alunos mataram treze colegas e feriram gravemente vinte e um deles.
 
Desde a tragédia mostrada e discutida por Michael Moore no célebre filme Tiros em Columbine, este fantasma assombra a sociedade dos Estados Unidos. De lá para cá, severas medidas de segurança foram adotadas nas escolas e universidades de um país com um alto histórico de violência.
 
Mas, apesar das draconianas normas de revista na entrada dos alunos, cujas imagens às vezes se assemelham às de penitenciárias, volta e meia tem-se notícia de agressões de estudantes a seus companheiros, algumas vezes com morte, nas instituições de ensino dos Estados Unidos. 
 
Um desses episódios mais recentes e mais perturbadores - porque contou com homofobia e racismo – se passou na escola de ensino médio de uma cidadezinha praiana, de beira de estrada, Oxnard, na California, em 2008, distante 35 quilômetros de Los Angeles – na verdade, uma região da Grande Los Angeles. Um garoto de 14 anos, branco, Brandon McInerney, alto e alourado, da classe média local, premeditou, de véspera, o assassinato de um colega de turma.
 
A tragédia se deu na escola O.Green. Perto dali, num abrigo estatal para crianças e adolescentes abandonados pelos pais, vivia Lawrence King, de 15 anos. Um menino miúdo, de modos e aparência efeminados, mestiço. Brandon entrou no colégio com uma arma e fuzilou Larry na sala da aula de informática, com dois tiros na nuca. Imediatamente socorrido, o garoto não resistiu e morreu dois dias depois no hospital local. O motivo do crime: a fascinação que Larry nutria pelo colega e a pergunta que teria deixado Brandon fora de si: “você quer ser o meu valentine amanhã?” O dia seguinte era o Dia dos Namorados. Valentines, para os americanos, é o nome que se dá a namorados.
 
Apesar do clima hostil, na escola nenhum menino quis se juntar a Brandon para bater em Larry castigando-o pelo que este via como ofensa. Brandon então avisou a uma garota amiga do pequeno: dê adeus a ele; amanhã você não o verá mais.
 
Do ponto de vista cinematográfico, o documentário de Cunningham, segundo ela própria, tem uma estrutura proposital que vai e vem entre passado e presente. Entrevistas com psicólogos, professores, promotor, advogados de defesa, jurados, irmão e pais de Brandon e colegas de Larry King na escola e no abrigo onde ele viveu alternam-se com imagens de antes da tragédia, pequenos filmes domésticos e relatos da vida anterior dos dois meninos.
 
Valentine Road (cemitério da cidade na Valentine Road - “o caminho dos namorados”, que empresta nome ao filme) não faz o barulho do cinema extrovertido de Michael Moore nem é mais uma de insistentes denúncias do que pode ocorrer com a absurda compra desregulada de armas no país. Sua qualidade rara é o quase alcance da objetividade.
 
Que meninos eram aqueles? De onde vinham? Um ainda brincava com pokemon e miniaturas no quarto do seu asilo. Tinha o corpo repleto de hematomas por causa de abusos sofridos. O outro já apanhava do pai alcoólatra aos 12 anos de idade, a mãe era usuária de drogas e ele colecionava revistas de culto à supremacia branca americana. Era bravateiro. Ameaçava matar, destruir e quebrar tudo de que não gostasse. Aos 15 anos de idade acabou parando num júri e julgado pelo crime cometido como se fosse adulto - não como adolescente; ou como criança.
 
A escola, omissa e despreparada, jogava para debaixo do tapete a dolorosa situação vivida pelos dois alunos. Era incapaz  - ou era indiferente - de administrar a questão da homofobia e da diferença de gêneros entre os garotos. Uma única exceção: uma professora demitida logo após o acontecimento protegia Larry e com ele costumava conversar entendendo a perplexidade do garoto que se encaminhava para a transexualidade – e aqui, a tragédia é maior ainda: o menino se encaminhava para assumir o outro sexo com alegria e confiança.
 
Mas um dos depoimentos mais chocantes do filme é o do psicólogo forense trabalhando no caso. Larry, em sua opinião, era um “flagelo” para a escola!
 
O filme é uma ferramenta educacional. Precisa ser visto, no Brasil, por educadores, pedagogos, professores, juristas – advogados e juízes -, psicólogos, assistentes sociais, e pelas famílias neste momento em que se discute abaixar o limite de idade e penalizar adolescentes com o rigor reservado aos adultos.
 
Será este o caminho? O da repressão?
 
“Temos que olhar para o ambiente de onde essas crianças que cometem crimes vêm,” adverte Marta Cunningham. “Temos de entendê-las. Caso contrário não vamos parar o ciclo da violência.” Para ela, Brandon é uma prova viva do despreparo do sistema educacional e judiciário para lidar com crimes perpetrados por adolescentes. Mas Lawrence é a vítima fatal do próprio sistema. No fim do filme, um dos últimos depoimentos é o da promotora que constata com desalento: ”O pior é que Larry morreu em vão.”
 
Valentine Road foi produzido pelo canal de televisão HBO. Estreou nos Estados Unidos há uma semana. Aqui, quando?

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