Arte

Festival do Rio: A primeira baixa ou a perda da inocência

'A primeira baixa' segue as trajetórias de dois rapazes durante o prolongado e violento cerco à cidade de Misrata, na Líbia.

07/10/2014 00:00

Reprodução/Festival do Rio

Créditos da foto: Reprodução/Festival do Rio

Fevereiro de 2011. “Quem são vocês? Quem os elegeram? Quem deu legitimidade a vocês”? – ouve-se a voz exaltada em off de Muammar Khadafi provavelmente falando em emissora de rádio, na abertura do documentário A primeira baixa (First to fall, 2013), de Tim Grucza e Rachel Beth Anderson, jovem do Brooklyn, em produção Reino Unido/EUA. O take em seguida mostra o ditador se vestindo, vaidoso como de costume e se preparando para uma das últimas aparições públicas.
 
Khadafi, no rádio, se referia aos grupos armados mais e mais numerosos que começavam a encher as ruas das grandes cidades líbias para protestar e lutar contra seu governo no levante que se iniciava e logo se transformaria em uma terceira primavera árabe - revolução de regime change depois do sucesso da primeira, na Tunísia, e da segunda, no Egito.
 
Esta primavera idealizada e preparada bem antes, como as outras, todas para produzirem no Islã efeito comparável ao das revoluções coloridas do Cáucaso (slogan cunhado pelo governo norte-americano) derrubou o governo autoritário meses depois - em outubro, como lembra o final do filme, com trechos do sangrento filmete onde se vê como surpreenderam e assassinaram o ditador tentando fugir.
 
First to fall é mais um documentário de guerra apresentado no Festival do Rio. É outra produção independente já mostrada na televisão estadunidense e finalizada ano passado pela dupla de videoativistas que já trabalharam na Síria, no Afeganistão, Egito e Turquia. Ela se inicia no Canadá, com dois rapazes amigos, Hamid e Tarek, de famílias de imigrantes líbios, cerca de vinte anos de idade e em vias de entrarem para a universidade, se preparando para viajar, combater em Benghasi e participarem do cerco à cidade de Misrata onde se esperava a chegada das forças da ONU – que nunca chegaram.
 
Consumidores obcecados de videogames, os rapazes desembarcam na Líbia com o entusiasmo infantil de quem mergulha num dos seus jogos favoritos para integrarem o Grupo Liberdade. “A câmera é a nossa arma,” aprendem de saída, “porque os caras adoram uma câmera,” lhes dizem os companheiros.
 
Jornalistas ou combatentes – “qual a diferença?” – eles são fascinados pela vertigem da morte: exatamente como num videogame. “Posso morrer a qualquer instante, mais cedo ou mais tarde; então por que não posso morrer com prazer defendendo meu país? Quero chegar ao lugar mais arriscado da linha de frente,” dizem para a câmera, às gargalhadas. Os dois têm o discurso dos adolescentes: “Nós adoramos isto; um dia é sempre diferente do outro.”
 
A primeira baixa vai até outubro de 2011 e segue as trajetórias dos rapazes durante os quase oito meses de luta procurando traçar o perfil de ambos desde o prolongado e violento cerco à cidade de Misrata do qual participam. Khaled se torna documentarista de frente de batalha e Tarek, mais inseguro e imaturo, acaba ferido no front.
 
O filme mostra o processo da perda de inocência dos meninos. Diz Tarek, de volta ao Canadá, paralítico, em uma cadeira de rodas: “O fim desta história é bem diferente do que eu pensei.”
 
Khaled, ao contrário, pensa em ficar na Trípoli conquistada onde reina o caos e lá permaneceu morando. Uma das últimas imagens do filme mostra o rapaz sentado em uma arruinada poltrona entre o lixo impressionante que sobrou de uma das luxuosas mansões de Khadafi. Ele declara para a câmera de Rachel Beth Anderson sorrindo tristemente: “Agora? O que faço depois? Fico deprimido em ver tudo isto, no que resultou da nossa luta. Hoje, para a população, somos gangsters e somos chamados de milicianos. Antes nos viam como heróis. Francamente, não sei ainda se volto para o Canadá ou não.”
 
Dezoito mil soldados, apenas contabilizando as tropas de Khadafi morreram nessa primavera árabe, informa Khaled que decidiu não voltar para a casa no Canadá. Trabalha atualmente para o Ministério da Defesa da Líbia, registram os créditos finais do filme. Talvez não mais com uma câmera e certamente com armas como num videogame.
 
Já a imagem do doce Tarek surge rolando sua cadeira de rodas na calçada de casa, no Canadá, ajudado por um amigo. Suas dores crônicas nas pernas são aliviadas com fortes remédios.
 
O consenso – e isto não é novidade - atesta o balanço da intervenção militar na Líbia: desastroso. A infraestrutura do país foi destruída para que fossem apropriadas as grandes reservas de petróleo e de gás do território como planejaram cuidadosamente os serviços secretos da onipresente CIA, dos britânicos e do Mossad israelense.
 
 
O organograma do planejamento criminoso, porém, não deu certo. Hoje, a Líbia é um país ultraviolento e ingovernável como sugere First to fall. A Síria seria o alvo seguinte e, depois, há poucos meses, a resposta vulcânica ao Estado Islâmico onde milhares de garotos ocidentais - como Khaled e Tarek – lutam, só que do “outro lado”. Para quê?



Conteúdo Relacionado