Arte

Flávio R. Vassoler lança livro em SP

22/04/2013 00:00

Caio Sarack

“Todo homem deve ter um lugar para onde possa voltar. Todo homem deve sair do calabouço – os despojos precisam ser enterrados. Por séculos e séculos, amém. Nem todo calabouço consegue sair do homem. Todo homem deve ter um lugar contra o qual se possa voltar.” (O Evangelho Segundo Talião, de Flávio Ricardo Vassoler)


O livro “O Evangelho Segundo Talião” (2013), de Flávio Ricardo Vassoler, apresenta uma forma fragmentária, mas não por isso arbitrária. Como bem pontuou a professora Francini Lopes, mestra em educação pela Unesp, que participou do debate após sessão de autógrafos, junto com Dmitri Cerboncini Fernandes e mediado por Talita Mochiute Cruz, as histórias não foram amealhadas como uma seleção de contos esparsos; antes, o livro toma as vezes de união de cisões.

A figura comum do livro, de caráter sintético, se volta contra si mesmo em “O Evangelho Segundo Talião”, as estórias vão se imbricando para o leitor de maneira a fazê-lo suspender o juízo ou até mesmo reafirmá-lo, levando às últimas consequências. A narrativa, por isso, não é signatária de um romance típico, com início, meio e fim, estruturado para expor e distinguir os conteúdos de uma maneira que aquela forma implica.

O filósofo húngaro György Lukács, no artigo sobre literatura “Narrar ou Descrever”, escreve: “Toda estrutura poética é profundamente determinada, exatamente nos critérios de composição que a inspiram, por um dado modo de conceber o mundo”. Este diagnóstico expressa bem a relação entre o olhar do escritor e o olhar do homem, que a todo instante digladiam e persuadem um o outro para por fim se plasmarem no livro de Flávio.

Ainda no debate, Dmitri Cerboncini, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, contou suas impressões e de como, mediado pela sociologia, percebeu no livro algumas referências biográficas que compõe a literatura de “O Evangelho Segundo Talião”. Os dois professores falaram de perspectivas diferentes, mas concordam quanto a relevância do livro pra literatura.

Notícias de jornal, reproduções de ensaios, foto-narrativas, monólogos dialógicos, poesia unem-se, mas se desordenam ao mesmo tempo. O autor parece tentar a todo momento chacoalhar o leitor, de maneira que o conforto agora se assimile como desconforto fundamental: qualquer isenção por parte do leitor é na realidade uma tomada de posição explícita.

A sociedade aparece desnuda em “O Evangelho Segundo Talião”, medo e violências estão de mãos dadas com esperança e altruísmo. No entanto, não aparecem tão claras suas delimitações, a esperança é transpassada por violência e medo, e vice-versa; a saudade enuncia um alheamento das relações sociais, isto é, termos e ideais que antes estavam ilesos em suas redomas de vidro são trazidos neste livro com corpo e sangue, e somos convidados a vê-los agora irreconhecívei.

O torturado cúmplice de seu torturador, o aborto sem estigmatizações, compaixão e ressentimento se mesclam e levantam a pergunta: “A História irá conseguir ultrapassar sua condição imposta pelo Talião? Conseguirá ir além deste ressentimento onipresente?”. O livro não pretende responder, mas pretende juntar os cacos pelos quais a própria sociedade desponta como responsável.

‘O Evangelho segundo Talião’ nos convida a escutar, ver e tocar estes cacos e perceber neles aquilo que nos une afinal, algo que nos foi legado sem nome expresso, mas não por isso inerte. O livro, no fim, mostra como esta (não)ética taliônica age nas relações sociais e o que de lá resta em nossas mãos. Diria, então, que o livro é residual, não por trazer o que não nos serve mais, mas pelo contrário, por trazer aquilo que pela peneira e escavação do autor compõe o mais essencial: os restos são aquilo que nos sobra, e o que nos sobra é tudo que temos.


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