Arte

La Jaula de Oro: a marcha fúnebre da imigração

Os suburbanos guatemaltecos rumando a Norte em La Jaula de Oro (2013), do estreante Diego Quemada-Díez, trazem uma esperança natimorta e sem sentido.

24/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

La Jaula de Oro (2013) é o primeiro longa-metragem do espanhol Diego Quemada-Díez, depois de quase quinze anos como operador ou assistente de câmera de diretores como o britânico e comunista Ken Loach, o brasileiro Meirelles e o mexicano Iñarritu. Saber disso e assistir o filme traz nova luz a maneira fílmica de Quemada-Diez quando trata da imigração ilegal para os Estados Unidos.

Os três adolescentes aparecem como protagonistas: Juan, Sara e Samuel são do subúrbio guatemalteco e querem ir para o Norte. A trilha comum do imigrante latino-americano.
 
A imigração e as personagens acabam trocando de função em La Jaula de Oro: é o caminho até Los Angeles que parece destrinchar o filme na nossa frente, as personagens estão formadas, suas noções éticas, morais, vontades e anseios parecem já estar mais do que menos traçados. Isso importa porque a relação entre meio e personagem não pode ser taxativa: nem o meio delimita o homem nem o homem é imune ao mundo. As contradições das personagens vão se dando em torno do caminho imigratório e o mesmo caminho vai incidindo sobre elas de maneira tão forte que acentua seus conflitos. 

A imigração ilegal latino-americana para os Estados Unidos é um tema conhecido e bastante tratado pelo cinema e pela televisão. Sendo assim, a facilidade em achar referências eleva em mesma proporção a dificuldade em fazer algo diferente e forte. Quemada nos aproxima e afasta das personagens, a empatia que temos pelos adolescentes vai mudando de acordo com as situações que o trajeto os proporciona: a menina Sara tem de cortar seus cabelos, enfaixar seus seios e vestir-se como Osvaldo para não deixar suas fraquezas evidentes; o índio Chauk não sabe falar o espanhol; Samuel não aguenta e volta para a favela e lixão que trabalha.  

Samuel, então, fica na margem do filme. Não se sabe se ele consegue voltar para a vida que quase deixou para trás. A experiente câmera do diretor estreante segue o caminho imigratório no teto do trem, em todos os figurantes; a história está em todo o canto justamente porque o protagonista, enfim, é próprio o caminho até Los Angeles. E todos se sujeitam aos mais animais maus tratos impostos pelo protagonista: tornam-se 'mulas' do tráfico, vítimas de assaltos os mais frequentes, sequestro e escravidão. Sujeitos também a catequese assistencialista: pastores e fiéis alimentam os andarilhos famintos, levam-nos até um abrigo. "Amanhã o trem parte". Sara é sequestrada por chefe de máfia, será estuprada e então disposta em algum bordel local - como as outras andarilhas que acompanham-na. Juan e Chauk ainda estão livres pra seguir.

O filme se nutre dessas relações humanas já deterioradas antes da via crúcis e que vão sendo mudadas no percurso. A saudade de Chauk por Sara, a ansiedade de Juan, as enganações e gentilezas que sofrem.

La Jaula de Oro é um filme que surpreende pela verossimilhança, vai além da realidade. Não é documental, traz uma esperança natimorta e sem sentido: Chauk é morto em território americano por um atirador de elite que não consegue acertar o segundo, terceiro nem quarto tiros em Juan, que foge e chega a Los Angeles. A ansiedade de Juan termina num frigorífico.

A ironia parece não ter mais aonde ir quando sobem os créditos: latinos cantam a marcha fúnebre a seu modo.





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