Arte

Leituras de um brasileiro: "Asteroides - Estrelas em Fúria / a nova HQ do Lobo Ramirez"

Fica evidente, para quem vê os desenhos do Lobo, o quanto ele desenha bem; o traço agressivo não esconde os detalhes explorados em cada expressão corporal, facial etc. E a narrativa?

31/10/2018 12:00

 

 
Lobo Ramirez, para quem acompanha a história em quadrinhos brasileira, é um dos artistas mais atuantes da cidade de São Paulo. Além de produtor dos próprios trabalhos na direção da editora Escória Comix, Lobo produz outros artistas, entre eles, Victor Bello, Diego Gerlach, Vitor Valença, Luiz Berger e Pablo Carranza. Para quem ainda não o conhece: quem é Lobo Ramirez?

Certa vez, tive a sorte de encontrar um exemplar de “Ejaculator”, lançado em 2015 pela Prego Publicações: uma novela gráfica do Lobo Ramirez em que são narradas as desventuras de um monstro de duas cabeças, o JesusSatan. Meses depois, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em feiras de HQs; foi quando eu li “Tropical Samurai”, a história de um pato samurai tentando comer seu dogãokisoba – um sanduíche de yakisoba –, constantemente interrompido por outros patos. Depois li “Rogéria”, feito em parceria com Fabio Mozine; Rogéria é um anti-Zé Carioca, um papagaio marginal que vive na cidade do Rio de Janeiro.

“Tropical Samurai” e “Rogéria” são produções do próprio Lobo em sua Escória Comix – escoriacomix.iluria.com –. Certo dia, visitando o site, eu encontrei a série “Heavy Metal Porno Holocausto”. A série saiu no primeiro semestre de 2017 em quatro volumes; para cada volume, uma personagem e sua história: (1) Marlana, em “Necropênis”; (2) Chico Lopes, em “Amor à primeira vista”; (3) Bestialóide, em “Perigo na masmorra”; (4) Valdecir, “Conga conga conga”. Marlana, como o Doutor Frankenstein, constrói um monstro formado por cadáveres, mas para fazer sexo; Chico Lopes é um ogro demente, que tem tatuado na bunda um coração com o nome Beger – referência ao quadrinista Luiz Berger, autor de HQs, editor da Gordo Seboso e amigo do Lobo –; o Bestialoide se parece com o próprio Lobo, que se coloca entre suas personagens desde Ejaculator; Valdecir é o monstro feito por Marlana. As quatro histórias, embora formadas por narrativas que podem ser lidas independentemente, estão correlacionas; os quatro monstrengos fazem sexo grupal na masmorra.

Por que tantos monstros fazendo sexo demencial? Em boa parte da arte, o sexo sempre foi feito por monstros e demônios. Segundo o teórico da literatura Tzvetan Todorov, falar de assuntos tabus, como sexo e drogas, fica mais fácil quando essas práticas são atribuídas a monstros e demônios, que se tornam, assim, metáforas exageradas de seres humanos. Entretanto, artistas como Lobo Ramirez, Luiz Berger, Pablo Carranza e o mestre de todos eles, o Francisco Marcatti, vão mais longe do que isso; seus monstros são resistência à massificação da própria beleza, que não é necessariamente “graciosa”, mas tensa. Em um país que vem sendo dominado pelo evangelismo de extrema direita e todas as perversões que os castos carregam na mente, nada como ler “Heavy Metal Porno Holocausto”; além disso, cada HQ da série custa R$1,00, mais barato do que qualquer dízimo!

Depois dessa breve introdução ao trabalho do Lobo Ramirez, gostaria de comentar sua nova HQ, “Asteroides – Estrelas em Fúria”, uma edição Escoria Comix e Ugra Press. Antes de tudo, é preciso avisar que se já era bem difícil resumir o trabalho do Lobo sem adiantar aos leitores o que se passa nas narrativas, em “Asteroides” isso se torna quase impossível, mas não porque suas narrativas sejam desimportantes ou porque o interessante em sua obra sejam apenas os desenhos, pois tudo se trataria, enfim, de “besteiras” bem desenhadas. Contudo, nada mais longe de considerações como essas, diga-se de passagem, bastante obtusas. Infelizmente, para muitos, Histórias em Quadrinhos dependem apenas de suas linguagens gráficas, roteiros são de menor importância e, muitas vezes, dispensáveis; conheço leitores de quadrinhos que nunca leram os textos, contentando-se apenas em olhar as imagens.

Nessa situação, fica evidente, para quem vê os desenhos do Lobo, o quanto ele desenha bem: o traço agressivo não esconde os detalhes explorados em cada expressão corporal, facial etc. E a narrativa? A narrativa é permeada de citações visuais, principalmente de animes e mangas; já o tema é bastante underground: mulheres anabolizadas se dilaceram enquanto saltam de edifícios, prontas para se matarem umas às outras nesse esporte suicida. Em meio a tudo isso, há: um assassino serial viciado em comer merda; criminosos e justiceiros cadeirantes; um judeu lutador de kung fu, que lança surikens em forma de estrelas de David. Como dar sentido a essa trama sem cair na facilidade de afirmar que ela não tem sentido?

O jornalista e professor Adauto Novaes, no artigo “A outra margem da política”, publicado em Le Monde Diplomatique Brasil maio 2018, afirma: “ (...) vivemos um momento de incerteza e desordem, sérios conflitos criados pela ocupação das instituições do Estado por entidades religiosas; falta de alternativas claras; redes digitais que surgem como os novos mediadores entre a sociedade e o Estado: crise dos partidos políticos: crise dos universais; singularização e fragmentação das lutas fora da visão da história e do futuro; (...). Em síntese, um absoluto apolitismo”. Seria esse apolitismo um dos temas de “Asteroides – Estrelas em Fúria”? Não o apolitismo do autor, que está longe de se alienar no absurdo, mas como o apolitismo pode ser expresso.

As novas articulações sociais apontadas por Adauto Novaes são caóticas de determinados pontos de vista; embora ainda não seja possível entendê-las enquanto cientistas sociais ou teóricos da linguagem, talvez, em linguagens mitológicas, como são as artes, seja possível expressar suas tensões dialéticas. Os mitos, longe de serem mentiras ou enganos de mentes atrasadas ainda em tempos pré-científicos, são formas de explicar o mundo e de resolver contradições, em princípio, insolúveis. A arte, muitas vezes, aproxima-se disso; as contradições expressas em “Asteroides – Estrelas em Fúria” podem, muito bem, ser o significado de tempos ainda incompreensíveis, mas que encontram coerência na narrativa engenhosa do Lobo Ramirez.

O cara é um profeta? Isso eu não sei, mas leio suas HQs com o mesmo respeito com que leio a “Teogonia”, do Hesíodo.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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