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Mamberti: ''A delação é muito cruel. Em troca da liberdade, fala-se qualquer coisa''

Peça ''Um Panorama Visto da Ponte" abrange, além da questão da delação, uma série de temas atuais, desde a árdua sobrevivência de trabalhadores imigrantes à violência da não aceitação da diferença, chocando-se com os valores estabelecidos

03/09/2018 18:04

(Arte: Tutu)

Créditos da foto: (Arte: Tutu)

 

Em 1958, Sérgio Mamberti tinha apenas 19 anos quando, encantado, acompanhou a primeira montagem de Um Panorama Visto da Ponte, texto de Artur Miller, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Sessenta anos depois, o encantamento perdura: por sua sugestão, o clássico de Miller está de volta aos palcos. Uma chance imperdível de prestigiar o trabalho de Mamberti, de longe, um dos maiores atores brasileiros.

É, também, uma oportunidade de mergulhar no universo do dramaturgo norte-americano que escreveu Um Panorama Visto da Ponte em 1955, sob feroz perseguição do macartismo. Verdadeira caça aos comunistas, a repressão e perseguição política promovida por Joseph McCarthy, então senador republicano de Wisconsin, prejudicou milhares de pessoas, entre 1950 e 1957, nos Estados Unidos.

Não à toa a questão da delação está no centro do drama escrito por Miller. Daí a importância de assisti-la neste momento: trata-se de um texto assustadoramente atual. Em cartaz na capital paulista, de sexta a domingo no Teatro Raul Cortez da Fecomércio SP (informações aqui), Um Panorama Visto da Ponte pode ser conferido até o dia 25 de novembro nesse teatro. Depois dessa data, a peça percorrerá cidades do estado de São Paulo e de outros estados brasileiros.

Dirigida por Zé Henrique de Paula, Um Panorama Visto da Ponte conta o drama de Eddie Carbone (interpretado por Rodrigo Lombardi), estivador de origem italiana que trabalha nas docas do Brooklyn e que, juntamente com sua esposa Beatriz (Patricia Pichamone), cuida de uma sobrinha órfã Catherine (Gabriella Potye), por quem ele se esmera para dar uma melhor condição de vida.

O conflito tem início quando dois primos de Beatriz, Marco (Antonio Salvador) e Rodolfo (Bernardo Bibancos), chegam da Itália no pós guerra, fugindo da fome e da falta de emprego, como imigrantes ilegais para trabalhar nos Estados Unidos. Desestabilizado pela aproximação que se estabelece entre Catherine e Rodolfo, Eddie tenta separar os dois jovens, apesar de todos os conselhos do advogado Alfieri (Mamberti) a quem ele consulta para orienta-lo. Também participam do elenco, assumindo papeis diversos, os atores Gabriel Mello (oficial da imigração e estivador) e William Amaral (Louis).

Partindo de um drama individual, além da questão da delação, a peça abrange uma série de temas atuais, desde a árdua sobrevivência de trabalhadores imigrantes à violência da não aceitação da diferença, chocando-se com os valores estabelecidos. É justamente sobre essas questões e, naturalmente, sobre a força do teatro em levantá-las, que Sérgio Mamberti conversou com Carta Maior. Acompanhe a entrevista:

Mamberti, por que essa peça hoje?

Sérgio Mamberti
– Artur Miller escreveu essa peça justamente quando estava sendo perseguido por ser comunista, em meio à campanha do Senador McCarthy. Ele era muito próximo de Elia Kazan, famoso diretor de cinema (Sindicato dos Ladrões e outros), que lhe contou que iria delatar quando fosse interrogado. Miller tentou dissuadi-lo dessa intenção, mas não teve êxito. Foi esse contexto, portanto, que ele transpôs para a peça, mas a partir de um drama aparentemente individual. Na realidade Miller realiza seu trabalho a partir da estrutura da tragédia grega. Eddie Carbone, o protagonista, é o herói trágico, do ponto de vista aristotélico, dotado de uma qualidade extraordinária, mas que o leva à destruição, ao entrar em confronto com os valores da polis, do universo político, das relações entre as pessoas.

É uma peça extremamente oportuna porque permite compreender, em termos humanos, o significado da delação, muito cruel, porque cria uma condicionante: em troca da liberdade, você pode confessar qualquer coisa para ser beneficiado. O delator é um ser sempre contingenciado. Em nome da sua liberdade individual, ele precisa ter algo a dizer e provar, mesmo que não tenha nada a ser dito. Nós vimos isso acontecer muito recentemente aqui no Brasil, durante a Operação Lava Jato, baseada na delação de pessoas presas em troca de uma redução da sua pena.

A peça dialoga, portanto, com o atual momento do Brasil, quando vemos determinados valores serem fustigados por um governo ilegítimo e pela figura do inquisidor. É evidente que ninguém deva ter complacência com a corrupção. Ela é uma coisa abominável certamente, mas o que estamos vendo é uma ação persecutória nesses julgamentos. É nítida a parcialidade das sentenças proferidas mesmo sem provas.

Como a perseguição contra Lula...

Mamberti
– Lula ao que parece está preso para não poder concorrer à eleição e isso é inaceitável do ponto de vista político e das conquistas, que tivemos durante todos esses anos, sobretudo, em termos de fortalecimento do processo democrático no Brasil. Até a Comissão de Direitos Humanos da ONU já se manifestou claramente sobre isso.

Na peça, Miller aborda a questão da delação fora do universo politico partidário, incorporando a dimensão humana da tragédia que estamos vivendo hoje no Brasil. O Teatro sempre nos permite fazer essa reflexão.

Como surgiu a ideia da peça?

Mamberti –
Meu filho Carlos desejava montar um grande texto e me pediu a sugestão de uma obra. Como Um Panorama da Ponte foi um dos textos que marcou a minha trajetória, eu sugeri no ato. Foi difícil a negociação para comprar os direitos de montagem aqui no Brasil, mas finalmente ele obteve êxito e adquiriu também A Morte do Caixeiro Viajante, um outro clássico, que pretendemos montar no próximo ano, com o ator Herson Capri vivendo Willy Loman, o protagonista.

Quais as principais diferenças desta e daquela primeira montagem no TBC?

Mamberti –
No Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ela foi dirigida em 1958 pelo italiano Alberto D´Aversa, que era meu professor de interpretação, na Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD). Graças a isso, tive o privilégio de acompanhar a montagem e os ensaios gerais desse espetáculo. Foi um momento extraordinário de criação além de ter sido um grande sucesso de crítica e de público, tendo Leonardo Villar como protagonista, Nathalia Timberg, Miriam Mehler, Sergio Brito entre outros no elenco. Uma experiência inesquecível e inspiradora.

O Sergio Brito, aliás, fazia o personagem que eu interpreto hoje: o advogado Alfieri. É um personagem muito interessante porque ele representa o coro grego da tragédia, como narrador e comentador da história, criando a expectativa da tragédia que se anuncia. Como dizia Aristóteles, a tragédia deve causar piedade e terror para que haja catarse no público.

A montagem do TBC foi muito diferente da que estamos fazendo agora, em que os elementos realistas estavam mais presentes. O Leo Villar, por exemplo, tinha que comer um prato de macarronada todas as noites, de terça a domingo, sendo que no sábado e domingo eram duas sessões. Imaginem o desafio. Na montagem de agora, que tem um conceito mais contemporâneo, o diretor Zé Henrique de Paula se desfez desses aspectos realistas para se concentrar exclusivamente na ação dramática do texto.

O cenário é um verdadeiro achado. O palco nu, com aqueles contêineres de metal emoldurando a cena e uma escada maravilhosa. É muito bonita a forma como ele trabalha, do ponto de vista cênico, a noção de dentro e de fora. A plateia consegue imaginar as cenas de rua e do interior da casa, embora tudo se passe no mesmo espaço. O teatro é feito de detalhes e há um trabalho muito elaborado da direção que tem cativado o público.

Outra diferença é que o contexto político do momento, aqui e do mundo, é muito mais grave. Naquela época, por exemplo, foi um acontecimento o primeiro “filho da puta” dito dentro de um teatro e, é claro, o beijo na boca que foi um verdadeiro escândalo. Embora seja um momento de intensa dramaticidade dentro da peça, isso hoje já não causa a mesma reação por parte do público.

E vocês promovem os debates no final junto com a plateia.

Mamberti –
Sim, e isso tem sido maravilhoso. A gente nota como o público vai fundo no texto do Miller. É impressionante como as pessoas reagem a tudo, a peça mexe muito com elas e uma das nossas preocupações tem sido deixar as conclusões em aberto. Não há nenhuma resposta definitiva. As pessoas perguntam durante o debate: “o Eddie deseja mesmo a menina ou não?” Existe, é claro, uma questão forte de posse, envolvendo todo o problema da sexualidade, mas nós preferimos deixar sempre as conclusões para o público.

A própria relação de Eddie com Rodolfo é uma incógnita. Ele obviamente se encanta, como todos, com o brilho do garoto que é o oposto desse estivador que gosta de assistir a lutas de boxe e trabalha duro na estiva, enquanto que o rapaz, com sua presença, traz para casa um lado sensível e luminoso, que acaba abalando seus valores. E ele reage agressivamente para impedir que esses valores prevaleçam na sua casa. Hoje em dia, acompanhando essa ascensão do conservadorismo, percebemos o quanto a peça nos ajuda a refletir sobre essa questão, sob o prisma do comportamento humano.

Quando eu assisti à peça, alguém mencionou a questão da masculinidade, a partir da cena da cadeira...

Foi o ator e diretor André Garolli que fez essa observação em relação ao drama desse estivador que, além de não ter filhos, deixou de procurar sua esposa, que inclusive cobra isso dele. Essa questão da virilidade, portanto, está presente na peça, com muitas interpretações possíveis. Mas nós optamos por deixar essas escolhas a critério do público. Nós apenas provocamos a reflexão e as pessoas estão se sentindo gratificadas com isso.

Houve também uma confluência de valores e uma troca muito grande entre os atores da peça. Eu vou completar 80 anos, o Rodrigo está com 42 e o Bernardo tem 21 anos, ou seja, tem apenas um quarto da minha idade. E, mesmo assim, quando nós nos damos as mãos, naquele ritual tradicional antes do início do espetáculo, nós somos todos iguais. Desaparece qualquer hierarquia. Há uma troca efetiva, que é muito revigorante.



E os próximos passos?

Mamberti –
Estamos com essa peça aqui em São Paulo até o dia 25 de novembro. E depois devemos viajar pelo Brasil. Também irei participar em junho de 2019 do Festival de Teatro Tchekhov em Moscou, com a peça Visitando o Sr. Green de Jeff Baron, que esteve três anos em cartaz. O Jeff também é um excelente autor nova-iorquino e a sua peça aborda o tema da intolerância religiosa e pauta a questão da diversidade sexual, de uma forma impecável. Nós pretendemos inclusive estender nossa temporada para outras cidades da Rússia, além de Moscou, e na sequência possivelmente nos apresentaremos Portugal.

Em suma, estamos desafiando a crise. Estamos em cartaz também, com a peça Concerto para João, de Sérgio Roveri, sobre a crise existencial do maestro João Carlos Martins. A peça não conta exatamente toda sua trajetória, mas aborda as limitações que sofreu, do ponto de vista físico, e que ele precisou enfrentar para continuar trabalhando. A ação se passa justamente no auge dessa crise, quando ele precisa ser operado. Então, Johann Sebastian Bach aparece para ele como num sonho, através de visões que ele começa a ter. É o momento de sua descoberta também como maestro. A peça está em cartaz no Teatro FAAP, com Rodrigo Pandolfo interpretando o João Carlos, com direção de Cassio Scapin. Meu filho mais velho, Duda Mamberti, também está no elenco. (informações aqui).

Mamberti, você mencionou a crise. Como é fazer teatro com tantos atores no palco?

Mamberti –
O que tem acontecido durante o atual governo com a Cultura é desastroso. O atual ministro, por exemplo, recentemente elevou o teto de captação da Lei Rouanet, fazendo com que as empresas optassem por privilegiar apenas grandes eventos, para projetar a sua marca, em detrimento da maioria das produções teatrais de médio porte, que tem tido dificuldade de acesso a esses empreendedores. O Fantasma da Ópera, por exemplo, um musical em reprise, pasmem, conseguiu autorização para captar R$ 28 milhões a partir dessa nova instrução normativa. O problema portanto não está na lei em si, mas como ela está sendo aplicada. Durante os governos Lula e Dilma, nós elaboramos um projeto chamado Pró-Cultura que propunha uma profunda reformulação da Lei Rouanet, a partir de uma ampla discussão nacional, buscando corrigir essas distorções, mas esse projeto desde então está com sua tramitação paralisada no Congresso sem data prevista para ser votado.

Nós estamos realizando nossas produções, portanto, com enormes dificuldades. Foram dois anos para levar à cena Um Panorama Visto da Ponte e conseguimos financiamento só para a produção, mas não obtivemos patrocínio suficiente para a manutenção da peça em cartaz. Vivemos no risco constante de bilheteria para saldar nossos compromissos. No momento nós estamos nessa batalha, abertos a novos patrocinadores para garantir sua continuidade aqui em São Paulo e para nossas futuras viagens. A peça tem tido uma resposta de público e de crítica maravilhosa. Estamos indo muito bem, mas qualquer novo aporte seria muito bem-vindo.

Como foi sua experiência na Funarte?

Mamberti
– Foi maravilhosa, mas o retrocesso é proporcional. Nós fizemos, durante a nossa gestão, uma política de abrangência nacional, aumentando substancialmente os recursos para a área. Quando assumimos o MINC em 2003, o teto da Lei Rouanet chegava, no máximo, a R$ 500 milhões e o orçamento direto era em torno de duzentos e poucos milhões. O Fundo Nacional de Cultura praticamente não existia. Durante o auge do governo Lula, o orçamento da Cultura chegou a quase R$ 5 bilhões e agora despencou. Além disso, as nossas políticas foram construídas a partir de uma ampla consulta nacional, com participação efetiva da sociedade civil. Realizamos três grandes conferências nacionais de cultura e somos signatários da Convenção da Diversidade Cultural, que tem como premissas a promoção e proteção da diversidade cultural, tendo a participação social para a legitimação dessas politicas.

O que vivemos agora é um brutal retrocesso. Quando Lula organizou as Caravanas da Cidadania (1990-2001), ele começou a mostrar um Brasil que ninguém conhecia. Foi ali que ele começou a preparar o futuro governo que chegaria apenas em 2003. Agora, para resgatar tudo isso, teremos de fazer um trabalho hercúleo, porque o desmonte a que estamos assistindo foi sistemático e aconteceu de modo absolutamente célere.

Aliás, o atual governo foi muito mais radical nesse sentido do que a ditadura militar. Basta ver o que está acontecendo com o pré-sal, com todo o sistema educacional, com a área da saúde, com a Lei de Teto de Gastos, a Eletrobrás e sem contar as terríveis mudanças na legislação trabalhista. Os recursos do Ministério da Cultura minguaram substancialmente, inviabilizando as grandes conquistas e projetos que estavam em andamento.

Estamos vivendo um momento muito difícil. É muito duro conviver com tanto desmando e desrespeito aos direitos fundamentais. São conquistas sociais que estão sendo colocadas em risco e estamos acompanhando o avanço do conservadorismo em vários lugares. Os partidos nazistas na Europa se fortaleceram. Essa é uma árdua luta que todos nós precisamos travar. Não há como fugir dela. É como disse o presidente Lula: “eu não sou mais uma pessoa, sou uma ideia”. Nós não podemos deixar de resistir e a Cultura tem um papel fundamental nessa reconstrução.

Informações sobre as peças:

Um Panorama Visto da Ponte - Data: de 3 de agosto a 25 de novembro.  Sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 18h
Teatro Raul Cortez (Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista, São Paulo).  Informações aqui.

Concerto para JoãoData: 10 agosto a 02 de dezembro. Sextas e sábados às 21:00 e domingo às 18:00. Teatro FAAP (Rua Alagoas, 903 – Higienópolis – São Paulo). Informações aqui.


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